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Carnaval/Entrudo – Tempo de Folia… e de Tradição

Carmen Navarro

Hoje, ao olhar o calendário reparei que o Carnaval é a 5 de Março e, não sei, mas fez-me lembrar a minha infância. Teria quatro ou cinco anos, quando apanhei o maior susto que até aí experimentei: um homem vestido de matrafona descomunal transportava um carrinho alcofa de bebé, fui espreitar e dentro tinha um outro homem de bigode com touca e chupeta, assustei-me e a partir daí nunca mais apreciei o Carnaval.

As brincadeiras eram um pouco estúpidas, atiravam farinha, vinha outro com “ovos” feitos de cera cheios de água que eram espapaçados na cara de cada um e atiravam saquinhos de pano cheios de serradura ou areia e como os mandavam com força, magoavam e, muitas outras coisas que nem vale a pena falar. Todas estas brincadeiras não passam hoje de recordações do passado.

A origem do Carnaval remonta aos festejos romanos que foram substituídos com o Cristianismo e abrangem todo um período de tempo imediatamente anterior à Quaresma, marcando a véspera de um período de jejum e privações. Vão do Dia de Reis até quarta-feira de Cinzas, sendo os de mais folia os três dias, domingo-gordo até terça-feira de Carnaval. Não tem data fixa, dependendo do tempo da  Páscoa.

O período do Carnaval era marcado pelo “adeus à carne”, ou “Carne nada vale”, dando origem ao termo Carnaval, que é  uma palavra que tem  origem no latim “carna vale

Porém, parece ser comummente aceite que o atual Carnaval é mais uma das muitas heranças deixadas pela civilização greco-romana, sendo descendente das dionisíacas gregas, das bacanais romanas, das saturnais e das lupercais.

O Carnaval português, sempre teve características bem diferentes do de outros países da Europa. Foi exportado para as antigas colónias, em especial para o Brasil por volta de 1723,

O carnaval de Canas de Senhorim tem perto de 400 anos e tradições únicas como os Pizões, as Paneladas, Queima do Entrudo, Despiques entre outras brincadeiras.

Entrudo

Hoje mascarei-me de lugar comum
e nessa mesma máscara que vesti,
fraca d`adereços, fui apenas mais um
desigual a muitos que por aí vi.

Se comentário houve algum,
até agora ainda não o ouvi,
apenas sorrisos, pouco jejum,
tantos quantos eu próprio sorri.

Porque a vida é pequena
e como muitos, eu pago impostos,
pago os sorrisos, que valem a pena!

Vamos lá, hoje estamos a postos,
que nesta alegria serena
não há lugar a desgostos sobrepostos!

Rogério Beça

Valiosas são as tradições dos populares de antanho e que em algumas terras do Norte e das Beiras de Portugal ainda se praticam estes rituais milenares ligados aos ciclos da terra-mãe, com a designação de Entrudo que vem do Latim introitus que é a entrada no tempo da Quaresma e no equinócio da Primavera.
Na verdade ao nascer todos recebemos a cultura como herança.

Caretos de Podence – Trás –os–Montes

– Caretos das aldeias de Alfandega de Fé

– Mascarados e travestidos – existem em todo o lado

-Matrafonas

– Testamento dos compadres

– Marafonas

– Casamentos satíricos

– Figuras andrajosas, demoníacas ou decadentes.
-Queima do Entrudo

-Enterro do Entrudo – Tebaldinho –Beiras- Minho

– Dia dos Diabos – quarta-feira de cinzas


Os diabólicos Caretos: A sua raiz mergulha na ancestralidade céltica de Portugal. Depois de negro inverno vem a cor, vem a vida. vem a primavera,  mantendo bem vivas tradições ancestrais sempre ligadas à Terra Mãe. Sempre que um transmontano veste o fato colorido com os seus verdes brilhantes, amarelos, vermelhos que representam o regresso à vida, à primavera e tapa a cara com a mascara feita de lata pintada de cores garridas com chocalhos à cintura e guizos nos tornozelos para achincalhar as raparigas, torna-se num diabo que corre por todo o lado enfarinhando e que serrazina toda a gente.

Entrudo

Em Pitões das Júnias
não há carnaval
nem pedaços de lantejoulas,
confetis atirados para
o alto
a valorizar o brilho
que se cruzam
como estrelas
cadentes
que deixam
uma falsa alegria.
Em Pitões das Júnias
não há requebros sensuais,
não se juntam corpos
que se tocam,
nada em nome da paixão,
tudo em nome da folia
Em Pitões das Jùnias
há Entrudo
farrapões e caretos
durante quatro dias
tudo vale em nome da alegria
Em Pitões das Júnias
há Entrudo.

CN

Máscaras de Lazarim

O Entrudo em Lazarim, coloca as famosas máscaras de madeira, entalhadas por artesãos locais por vezes cobertas por peles de lagarto ou pele de coelho dando-lhe um aspeto macabro, aterrorizador estas manifestações tinham sempre referências a Belzebu.

A marafona é, uma rapariga mascarada que anda com a cara escondida por baixo de uma renda e leva um lenço à cabeça. Estas marafonas são os únicos seres que os caretos respeitam nas suas brincadeiras.

Relativamente aos mascarados e travestidos, existem em todo o lado, homens e mulheres que se vestiam de roupa do parceiro(a), ficando autenticas matrafonas, com roupa velha por vezes com uma meia a cobrir a cara para melhor se disfarçarem e assim dizerem impropérios a todas as pessoas.

Exemplo: Fragmento de Testamento dos compadres e das comadres, servia só para criticas e dizer disparates:

Logo apenas que nasci

Ouvi minha mãe dizer

Ó que triste sorte a minha

Que pelém me foi nascer.

 

Passei fartura e fome

Que quase tinha morrido

Porque galinhas e coelhos

Já vós as tínheis comido

 

Sou um pobre desgraçado

Que nem vejo a luz do sol

Porque os amigos que tenho

Não valem um caracol

 

Vou começar no Padrão

‘Escotai’ o que vos digo

Há lá tanto solteiro

Que até parece castigo

 

Ó rapazes do Padrão

Não estejais com mais medidas

 

Com o tempo que esperastens

Ficastens sem raparigas

Terminando isto tudo

De vós levo paixão

 

Vamos agora nomear

O testamento do Padrão

O testamenteiro do Padrão

Vai ser uma verdade

 

É o menino Leonel

Que é o mais velho da mocidade

E tu menino Leonel

Que do Padrão és o primeiro

 

Tens medo das mulheres

Vais ficar sempre solteiro

Por seres o testamenteiro

Que te havemos de deixar

 

Vão ser as pernas do burro

Para nas tuas imendar

O defeito que tu tens

É essas tuas cantigas

 

Ligas mais aos rapazes

Do que às raparigas

Agora para te deixar

Só uma coisa te quero dizer

 

A idade está a aumentar

Elas contigo não vão ter

Muita pena de ti tenho

Esto eu tenho pensado.

O Enterro do Entrudo é feito praticamente em todo o lugar onde se festeja o Entrudo fazem um boneco de palha, vestem-lhe roupas velhas, em algumas aldeias ainda o enchem de pequenos explosivos de artificio carnavalesco, é colocado numa rude padiola, percorrendo as ruas da povoação com as pessoas a gritar, chorando, rezando e dizendo algumas frases como, por exemplo, “ó comilão que me deixaste empenhado! Agora quem é que me paga as dividas?”. Outro exemplo: “comilão comeste a carne toda, mas não comes mais, foste um malandro. Vai pró inferno.” Paravam em certos sítios para rezar como se tratasse de um funeral. O “Enterro” era feito num Largo, onde era queimado o boneco (Entrudo). Que explodia em mil cores.

Assim se assiná-la a despedida do Entrudo e entra a Quaresma

Após a meia-noite, já quarta-feira de cinzas, os mascarados, chamados de Diabos e a terrível personagem da Morte, efetuam a primeira investida contra os foliões que regressam às suas casas, atormentando principalmente as raparigas.

Também em algumas regiões do Minho ainda se celebra o Entrudo,

Com fantasia e diversão, fazendo o que não se faz o ano inteiro sempre a coberto da mascara para não se ser reconhecido.

Acabando com o enterro do mesmo na Terça de Carnaval à noite, num cortejo fúnebre com carpideira,  durante a cerimónia é lido o Testamento do Entrudo, pretexto para um discurso satírico para criticar as autoridades. E são ditas as coisas que preocupam a sociedade. Cabeçudos e Gigantones não faltam à festa.

Acabou o Entrudo

Divertimos o Entrudo
Que se nos vai acabando;
Sabe Deus quem chegará
Desde que vem a um ano

“Já lá se vai o Entrudo
Com galinhas e capões;
Agora vem na Quaresma,
Estudam-se as orações.”

“Já se acabou o Entrudo,
Já não se fazem funções;
Agora vem a Quaresma:
Há missas e confissões

“Aí vai já o Entrudo
Pelo caminho do poço;
Vai gritando em altas vozes
Que lhe cortaram o pescoço

Adeus meu querido Entrudo
Que tanto me fazes rir
Estou triste a escrever tudo
De ti eu me vou despedir.

As tradições populares, apoiadas por uma promoção qualificada que zele pela qualidade, genuinidade e tradição podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento de uma região.

Carnaval no Porto

No século passado um Grupo de Amigos reunidos num café, então sediado na Praça da Liberdade, entendeu fazer um clube para tentar revitalizar o Carnaval no Porto e dignifica-lo! Depois de muitas diligências nasceu o Clube de Fenianos do Porto.

O primeiro Carnaval festejou-se logo em 1905, com grandiosidade incomum. Os cortejos mantiveram-se até 1909, realizados com tal magnificência e arte que a sua fama passou fronteiras, depois de haver espantado o país todo, contaram com a ajuda de diversos artistas como Rafael Bordalo Pinheiro e Teixeira Lopes. Depois, por motivos exteriores ao Clube dos Fenianos, os festejos na rua terminaram, para serem ativados novamente no ano de 1939, apenas. O Ultimo Cortejo foi no Carnaval de 1954 e com a minha pouca idade lembro que foi um deslumbre.

Carnaval dos Fenianos, no início do século passado

Esta é uma época de diversão e onde são permitidas brincadeiras, seguindo o provérbio popular “No Carnaval ninguém leva a mal”

A incompreensão das pessoas hoje, não admitem ser parodiadas.

E muito fica por dizer!

 

Fotos: pesquisa Google

01mar19

 

 

 

 

 

 

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