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Bem-vindos a Abril

Caro leitor, antes de começar a ler este texto – só isso merece o meu agradecimento – quero que tenha em mente que eu nasci em ’79. Sou filho da liberdade e qualquer opinião que possa ter, sobre o anterior regime, será resultado de conversas ou relatos de pessoas que o viveram. Tenho plena consciência da perigosidade do tema e, mesmo assim, aceitei o convite do diretor do jornal para abordar esta data…

Apesar do mês de Abril marcar trinta dias de calendário, o dia 25 é, sem dúvida, o que realmente interessa. Tal como acontece em Dezembro! E todos os anos se repetem as celebrações. Nada muda! Parece que existe uma cartilha (ou protocolo, caso não queiram termos futebolísticos) da cerimónia a realizar. Cravos vermelhos na lapela, idosos vestidos a rigor, muita politiquice e políticos juntos e, muito importante, não convidar o Vasco Lourenço! Porque, para os membros do governo, os “capitães de Abril” são picuinhas e chatos. Sempre com a mesma lengalenga sobre os valores de Abril. Passaram 45 anos e a malta ainda não percebeu que o plano não correu conforme previsto?!

A revolução conseguida neste dia – que marca a nossa cronologia – fica associada à queda do Estado Novo, regime fascista, liderado por Salazar desde 1933. A ironia do destino manifestou-se, em 1968, quando em férias no Estoril, caiu de uma cadeira de lona, acabando por ditar o seu afastamento do governo e consequente morte dois anos depois. O seu sucessor, Marcello Caetano, encontrou um país que, segundo algumas pesquisas, até apresentava bons resultados económicos e sociais. Inclusive, o atual Presidente do Conselho de Ministros, ficou conhecido por defender uma maior liberdade de expressão e por implementar algumas mudanças no regime… Mas, a crise petrolífera de ’73 e a continuidade da Guerra Colonial levaram à crescente impopularidade do regime e, por arrasto, do seu líder. Seis anos depois da queda do ditador, os militares resolveram agir! Mais vale tarde que nunca…

O Movimento das Forças Armadas (MFA) orquestrou um plano que, basicamente se revelou um guião para um filme (bem escrito, confesso). Com banda-sonora de grandes figuras musicais da altura: Zeca Afonso, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Fernando Tordo e outros, os militares saíram do quartel e rumaram a Lisboa. Estacionaram os tanques e chaimites à porta do Quartel do Carmo, e – como em qualquer revolução – esperaram que o Marcello Caetano se dignasse a sair quando entendesse. E ainda o escoltaram até ao Aeroporto da Portela. Tudo isto, sem disparar um único tiro! Arrisco dizer que a revolução ficou baratinha…

Tal como acontece nos casamentos e demais atos festivos, o dia correu muito bem e a felicidade ficou estampada nos rostos dos que receberam informação do que se estava a passar. Porque ao contrário dos dias de hoje – pautados por demasiada liberdade de imprensa – o relato da liberdade, foi chegando a conta-gotas às várias cidades do país. O país recebeu, de braços abertos, os génios pensadores políticos que tinham fugido. Perdão, estavam exilados. Fundaram partidos e sindicatos. O povo completamente desnorteado, ainda a pagar a fatura da aliteracia e ignorância, não assumiu o poder e deixou-se manipular e enganar. Recordo uma frase célebre: “o pior do 25 de Abril foi, sem dúvida, o dia seguinte…”

Os puristas da liberdade (tenho a certeza de que existem) estão agora mesmo a preparar-se para me escrever e informar, com maior ou menor grau de indignação, que grande parte daquilo que escrevi é um sacrilégio. Tais puristas teriam razão, mas podem poupar os comentários. Pessoal, por alguma razão lhe chamam opinião.

Texto: Miguel Correia

Foto: pesquisa Google

20abr19

 

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