Weihua Tang
Há alguns anos, enquanto fazia compras no Pingo Doce, como costume, um funcionário, de repente, tocou no meu ombro para falar comigo e questionou-me:
– Posso fazer-te uma pergunta?
– Quer saber porque é que não há funerais chineses, aqui em Portugal?
Respondi logo, sem hesitar.
– Como é que sabe? – respondeu o funcionário espantado e admirado.
– Porque já não é uma novidade para mim – respondi eu.
– Os chineses não morrem? Para onde foram os mortos? Foram para os restaurantes chineses?
De facto, as perguntas eram quase sempre a mesma história, e, as minhas respostas também eram semelhantes. Pois, já não era a primeira pessoa, nem a segunda que mostrou essa curiosidade, desde que vivo em Portugal.
Sinceramente, no início ria-me imenso pela pergunta e não ligava tanto. Julgava que era só uma brincadeira. Mas durante estas dezenas de anos, comecei a perceber que as pessoas nunca desistiam de resolver esta dúvida, e o que é engraçado é que cada vez mais insistiam em saber o “porquê”?!
Quando mencionam as culturas chinesas, as pessoas lembram-se imediatamentedo do Ano Novo Chinês, da medicina tradicional chinesa, da Grande Muralha, de Fengshui, da nossa gastronomia etc. Contudo, o funeral também faz parte da cultura de um país, embora seja um tema relativamente pesado.
A China possui milenares anos de história, mas a raça chinesa ainda é um povo muito pacífico, tranquilo e conservador. Por isso, um antigo provérbio chinês “Luo ye gui gen” claramente e corretamente explicita este fenómeno. A palavra “luo” é “cair”, “ye” é “folha”, “gui” é “voltar” e “gen” é “raiz”. Literalmente significa “As folhas caídas voltam às raízes das árvores”. Obviamente isto é uma metáfora de dizer “As pessoas voltam e vivem na terra natal quando forem velhos”. Esta expressão faz-me lembrar um professor universitário de Shanghai, que há quinze anos disse-me que não queria morrer aqui em Portugal e, por isso, voltou para a China.
De facto, o provérbio português “A morte não poupa ninguém” faz sentido nesta situação. Se alguém falecer acidentalmente no estrangeiro, como irão reagir os chineses? Em princípio, a família, amigos ou conterrâneos vão levar a cinza para a terra natal do falecido para realizar ou satisfazer o desejo dele. Portanto, é normal que raramente aconteça um funeral chinês, aqui em Portugal.
Além disso, no dia do funeral, as zonas diferentes têm tradições desiguais, ou seja, as cinquenta e seis etnias da China têm a sua própria tradição e o seu costume próprio. Hoje em dia, nas aldeias das diversas províncias, as pessoas ainda andam todas vestidas de branco: uma fita comprida branca na cabeça, um gorro especial branco, um casaco branco, um cinto branco, as calças brancas, e o calçado branco. Mas, nas cidades, as pessoas começam a vestir-se todas de preto no dia do funeral. Isto não é só um sinal do tempo, é somente, uma tolerância da mistura cultural.
Quem consegue Imaginar as reações dos chineses quando eles viram as noivas ocidentais todas vestidas de branco? Por isso mesmo, compreender, respeitar, tolerar e aceitar as divergências das culturas entre os orientais e ocidentais não é apenas fundamental, mas também é importante!
Foto: pesquisa Google
01jan20

Mais uma vez adorei ler o seu texto! A importância do regresso à terra Natal…
Adoro estes artigos que transmitem tantos ensinamentos, de forma tão leve e original, Obrigada!
Obrigada mais uma vez Weihua, pela partilha do seu conhecimento. É sempre uma sensação de preenchimento da alma conhecer diferentes formas culturais! Mais uma vez, cresce mais um bocadinho a minha admiração pelo povo chinês. Obrigada!
Obrigada pela sua explicação devemos respeitar os costumes das diferentes culturas
Adorei. Obrigada ?