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1.º de Maio sujeito a “confinamento social”

José Lopes

(texto e foto)

 

O Dia Internacional dos Trabalhadores, declarado em 1889 pelo Congresso Operário Internacional, reunido em Paris, como um dia de luto e de luta, em memória dos acontecimentos nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos. Em que no dia 1 de Maio de 1886, 500 mil trabalhadores saíram às ruas em manifestação pacífica, exigindo a redução da jornada de trabalho para oito horas, acabando reprimida pela polícia e resultando em dezenas de operários feridos e mortos. Acontecimento que não fez abater a determinação dos operários, que voltaram às ruas no dia 5 de maio do mesmo ano, sendo novamente reprimidos, com oito líderes presos, quatro trabalhadores executados e três condenados a prisão perpétua. São elementos da história do Dia do Trabalhador, que em 2020 não irão ser organizadamente assinalados nas ruas, como consequência da pandemia Covid-19, que através dos estados de emergência em vários continentes, deixaram o 1.º de Maio sujeito a “confinamento social”.

O cenário global de pandemia provocado pelo novo coravírus, que está a deixar no Mundo um rasto de tragédias humanitárias, originando o colapso de serviços de saúde e sociais em diferentes países dos cinco continentes, atingindo nesta fase, mais de dois milhões de infetados e centenas de milhares de vítimas mortais. Está não só a por à prova a capacidade dos povos cumprirem o confinamento social, necessário para travar o vírus, mesmo à revelia de governantes negacionistas. Como, poe igualmente à prova, sistemas nacionais de saúde ou a falta deles, na lógica do neoliberalismo e das consequências do desinvestimento ou desvalorização dos serviços públicos e sociais para defesa da saúde pública.

Nesta guerra contra o vírus, em que os profissionais de saúde são os verdadeiros heróis a salvarem vidas, resgatando-as da morte cruel provocada pelo Covid-19, muitas vezes sem os meios indispensáveis e de segurança, pondo em riscos as suas próprias vidas. As estratégias de ataque por parte de cada país, incluindo a Organização Mundial de Saúde – OMS, acabaram por ser influenciadas, pelas sucessivas hesitações em como lidar com a pandemia, a exemplo dos critérios para uso de máscaras. E de governantes com diferentes prioridades entre a saúde pública e a economia. Que não deixaram de facilitar o acelerado ritmo trágico da pandemia, desde quando o vírus foi identificado na China. Deixando muitos países arrasados por impressionantes números de mortos, e todos os pesadelos sociais e económicos que ensombram os povos, sobre quem já recai a pesada fatura do desemprego, que seria certamente o mote para o Dia Mundial do Trabalhador, não estivesse este ano o 1.º de Maio sujeito a “confinamento social”, como forma de luta para travar o maldito vírus.

Sendo a mensagem, “fiquem em casa”, uma prova de responsabilidade e civismo, determinante para enfrentar a pandemia do Covid-19 independentemente dos regimes políticos ou teorias económicas. As experiencias e tradições de luta reivindicativas ou comemorativas em cada país, dão sempre formas diversificadas às manifestações do Dia do Trabalhador. Razão pela qual só mesmo hoje, 1 de Maio, se saberá como vão responder ou reagir em função de cada realidade económica, laboral e social, que se está a agudizar, com diferentes patamares de medidas sobre os trabalhadores, em função da evolução do vírus em cada continente e do sucesso no seu combate, mesmo antes de uma vacina, porque, por mais democrático que se diga que é este vírus, nem todas as vitimas do previsível, gigantesco exercito de desempregados, vão ficar bem.

Pelas noticias que nos chegam do país e do mundo, o flagelo social que já se faz sentir com o aumento do desemprego, seria inscrito nas bandeiras e gritado nas ruas proibidas de ajuntamentos e manifestações, segundo os decretados estados de emergência num conjunto de países.

Se por cá, durante o mês de abril, se chegaram a registar 4 mil novos desempregados por dia, registando-se por esta altura mais de 350 mil desempregados, com desregulação dos horários e férias forçadas, acrescentando quase um milhão de trabalhadores em Lay-Off simplificado a que já recorreram mais de 40 mil empresas. Situação que vai deixando para trás, trabalhadores com vínculos precários, como vitimas mais frágeis, num momento em que a Autoridade Para as Condições de Trabalho – ACT, sem reforço dos recursos humanos, não corresponde a denúncias de abusos laborais. Um quadro inquietante, mesmo que atenuado por medidas governamentais de apoio à economia.

Pouco ou nada animadoras, são as previsões para Portugal do Fundo Monetário Internacional – FMI, que apontam para uma recessão de 8%, e desemprego a subir para os 14%. Ao mesmo tempo que o ministro das Finanças, Mário Centeno, admite que “o Produto Interno Bruto – PIB anual pode cair 6,5% por cada 30 dias úteis de medidas de distanciamento social que a deixam quase parada, como as atuais”, reconhecendo que, “a economia está a sofrer um choque inimaginável”, que afeta, mesmo que em diferentes níveis, vários outros países da Europa, ou desta União Europeia que não dá sinais de efetiva solidariedade, nem da verdadeira dimensão da crise, empurrando os países para “uma mão cheia de dívidas” e para a austeridade que resulta sempre em mais empobrecimento.

Há também países, em que mesmo não assinalando o Dia do Trabalhadores no 1 de Maio, mas sim, na primeira segunda-feira de setembro, como acontece nos Estados Unidos da histórica luta de Chicago, em que a atual pandemia fez decretar o estado de calamidade. O vírus Covid-19 e o negacionismo de Trump, que ao desvalorizar medidas preventivas de salvaguarda da saúde pública, em detrimento da economia, acabou por arrastar este país e o povo americano para cenários dantescos no século XXI, do ponto de vista humanitário, social e económico, com números astronómicos de infetados e mortos, a evoluírem vertiginosamente, batendo todos os recordes desta pandemia, quando são previsíveis com estranha naturalidade, atingir mais de 100 mil mortes.

As consequências devastadoras para o emprego, representarão neste país que não resistiu à pirataria de mercadorias com equipamentos de segurança contra o Civid-19, com destino a países que encomendaram e pagaram a países fornecedores ou que privilegia o investimento em guerras para influência geoestratégia, um autêntico “tsunami” no “mercado laboral americano”, havendo quem receie, “os piores números de desemprego desde a Grande Depressão do século XX”. Só em 15 dias, durante este combate ao coronavírus, no país em que historicamente a luta operária deu origem à declaração do 1.º de Maio como Dia Internacional do Trabalhador. Mais de “10 milhões perderam o emprego”, havendo previsões mais adversas que chegam apontar para “uma perda de 47 milhões de desempregados nos EUA”, o que poderia corresponder, “a 30% como consequência do Covid-19”. O vírus que neste tempo, deixa as economias quase paralisadas, “sem se saber por quanto tempo vai durar a fase aguda da crise”, que remete os trabalhadores ao confinamento social mesmo no 1.º de Maio.

Considerando algumas das medidas drásticas que estão a ser tomadas e que terão implicações sérias sobre as economias a nível global, cujos impactos, a título de exemplo, sobre o PIB da Zona Euro, serão trágicos. Seria certamente também o tempo, de os trabalhadores neste seu Dia, fazerem ouvir a sua voz, junto do FMI, do Banco Mundial e neste caso do Banco Central Europeu – BCE, exigindo o fim do garrote a vários países mais pobres, com suas economias estranguladas pelas dividas impagáveis, que estão a dificultar os recursos no combate ao Covid-19, para garantirem o pagamento da divida.

Trágica ironia de todo este pesadelo a nível mundial para os trabalhadores e operários, a quem sugerem uni-vos separados ou isolados. Seria ainda, num pais de língua portuguesa como o Brasil, o negacionista Bolsonaro, que quer que o povo desafie a morte, em nome do Dia do Trabalhador mobilizar fanatismos para a rua ao mesmo tempo que na linha da frente do combate ao vírus, os vários profissionais, e sempre determinados até à exaustão os profissionais de saúde, lutam para contrariar os efeitos da pandemia, que segundo pesquisas, os dados que vão sendo revelados podem representar “apenas 8% dos casos no país”, uma vez que, o número real pode ser “12 vezes mais”. Um cenário, em que nas favelas se organizam para sobreviver, enquanto o presidente, contra a comunidade científica e ao estilo de vidente, chegou a afirmar que, “nada acontece com os brasileiros”. Mantendo um braço de ferro com o seu ministro da Saúde, que tornou pública a sua preocupação sobre a realidade que começa a ser difícil de negar. Momento difícil em que mesmo Inácio Lula em liberdade, resistirá em confinamento social neste 1.º de Maio.

 

01mai20 

 

 

 

 

 

 

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