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A propósito do 75.º aniversário do Fim da Segunda Guerra Mundial e da luta ao novo coronavírus

José Lopes

 

Quando no dia 8 de maio o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, numa mensagem dirigida aos veteranos da Segunda Guerra Mundial, divulgada por ocasião do 75.º aniversário do fim deste conflito mundial, cuja capitulação foi assinalada a 8 de maio de 1945, enalteceu o heroísmo dos britânicos na vitória sobre a Alemanha nazi, pedindo que o país tenha o mesmo espírito de esforço nacional na luta contra o novo coronavírus.

O apelo feito neste tempo, de um silencioso e traiçoeiro inimigo, que vem deixando um rasto de morte e mais empobrecimento pelo Mundo, sem respostas de unidade globais para travar preventivamente e lidar com tal ameaça pandémica.

Podia fazer-nos recuar ao período histórico que medeia o fim da Primeira Guerra Mundial, em que a Alemanha saiu derrotada, e as ilusões no desarmamento do Tratado de Paz, que, ao contrário da segurança da Humanidade, facilitou caminho para que Hitler recuperasse poder politico e militar, lançando-se na campanha fascista e nazi de redesenhar o mapa da Europa, perante a inercia e a falta de união das principais potências, que deixaram crescer um monstro com consequências trágicas entre os povos vitimas do extermínio nazi, até à sua derrota e rendição em 1945.

Como um dia afirmou Winston Churchill, “nunca houve uma guerra mais fácil de impedir do que esta, que acabou por destruir o que o conflito anterior tinha deixado de pé”, sugerindo assim ao pedido do presidente americano Roosevelt sobre um nome a dar à Segunda Guerra Mundial, “A Guerra Desnecessária”, que custou dezenas de milhões de mortos, da então União Soviética, em que mais sangue foi derramado, à Polônia ou China, entre mais de duas dezenas de países envolvidos nesta guerra, que fez das suas principais vítimas, judeus, socialistas, comunistas e etnia cigana.

Recorrendo ao livro “Memórias da II Guerra Mundial” de Winston Churchill (Vencedor do Prémio Nobel de Literatura), o primeiro-ministro da Grã-Bretanha entre 1940 e 1945, um dos líderes da Segunda Guerra Mundial que se destacou como voz desafiadora contra a tirania nazi. Quando o atual primeiro-ministro Boris Johnson neste 75.º aniversário disse ainda aos veteranos de guerra, “estamos envolvidos num novo combate contra o coronavírus que exige o mesmo espírito de esforço nacional que vocês incorporaram há 75 anos”, é quase irresistível lembrar as políticas de facilitismo para com um inimigo, que depois de derrotado na Primeira Guerra Mundial, voltou a levantar cabeça, como testemunha Churchill em seus relatos épicos.

Tendo presente a estratégia inicial do Reino Unido, nesta guerra ao Covid-19, que apostava na “imunidade de grupo”, criticada incluindo pela Organização Mundial de Saúde (OMS), descrita como “experimental” ou simplesmente “perigosa”. Acabou por abrir caminho, a “uma epidemia catastrófica”, em que o próprio Boris Johnson viria a lutar para resistir ao vírus e assumir as medidas que tardaram perante um inimigo que em número de infetados e mortos, já deixava o Reino Unido entre os países mais afetados pelos efeitos dramáticos da pandemia.

Politicas descoordenadas e ambíguas contra o vírus, que deixaram este inimigo ganhar terreno, tal como nos anos 30 do século XX o Governo britânico preferia fechar os olhos ao “catálogo de graves infrações aos tratados”, por parte da Alemanha, que, “armada sob o controlo dos nazis estava a atingir o ponto em que não haveria retorno”. Ao mesmo tempo que na França e Grã-Bretanha, as correntes politicas contra o rearmamento facilitavam a progressão do poder militar nazi, que apostava igualmente na divisão das principais potências europeias, em que até alguma da imprensa britânica, “incluindo o Times e o Daily Herald, expressava toda a crença na sinceridade das ofertas de Hitler de um Pacto de Não Agressão”, apesar da postura cada vez mais agressiva da Alemanha.

As consequências da falta de uma atempada unidade no combate à pandemia, por exemplo na Europa, pelos trágicos números de infetados e mortos, trazem-nos à memória, estas “Memórias” de Churchill, quando refere que, “até meados de 1936, a política agressiva e de infração dos tratados conduzida por Hitler baseou-se não na força da Alemanha mas sim na desunião e timidez da França e da Grã-Bretanha e no isolamento dos Estados Unidos” acrescentando que, “quando os Governos da França e da Grã-Bretanha se aperceberam da terrível transformação que tinha ocorrido, já era tarde de mais”, ao ponto da Alemanha, utilizar “a sua Força Aérea para cometer horrores experimentais, tal como foi o bombardeamento da pequena e indefesa cidade de Guernica”, na Guerra Civil de Espanha.

Tal como no combate ao coronavírus, a Europa teve estratégias contraditórias, e se veio a mostrar fundamental a cooperação das políticas e medidas para enfrentar o inimigo. Naquele intervalo de tempo entre as Grandes Guerras, “chegar a um entendimento com os ditadores da Itália e da Alemanha tornou-se para Chamberlain uma espécie de missão especial e objetivo pessoal”, deste governante britânico que Churchill veio a substituir como primeiro-ministro. Chamberlain desvalorizava mesmo os perigos que se avizinhavam e da necessidade dos meios para os combater, enquanto Churchil era naquela fase de evolução da guerra, favorável a “uma aliança franco-britânico-russa como a única esperança para pôr travão à investida nazi”. A oferta soviética “foi ignorada” e mesmo tratada com “uma indiferença – para não dizer desdém (…)”, como escreve Churchill, “os acontecimentos seguiram o seu rumo como se a Rússia soviética não existisse. Mais tarde, pagámos muito caro por essa atitude”.

Foi a guerra mais mortífera e encarniçada da História, que abrangeu mais extensas regiões do Mundo, durante cerca de seis anos, desde a invasão da Polónia, em setembro de 1939, até à capitulação japonesa, em agosto de 1945. A vitória dos aliados sobre o nazismo, foi assinalada no dia 8 de maio de 1945 com a assinatura da capitulação da Alemanha, depois de a 30 de abril desse ano, o ditador nazi, Hitler, fugir e suicidar-se com a esposa Eva Braun no seu “bunker”, para não cair vivo nas mãos do Exército Vermelho da União Soviética que vitoriosamente libertou Berlim da megalomania criminosa nazi.

A guerra ao Covid-19 não vai ter certamente uma data concreta para assinalar a sua capitulação, mas vai continuar a exigir estratégias concertadas, coerentes e consequentes, entre os vários países no mundo, para que os povos indefesos, sem uma vacina como arma eficaz, não venham a enfrentar novas fases da pandemia, com a crueldade que se abateu e em alguns casos se continua a fazer sentir, sobre países como: Itália, Espanha, China, Irão, Reino Unido, México, Rússia, Estados Unidos ou Brasil. Diferentes realidades trágicas, que colocaram também a nu, a fragilidade de povos em que regimes ultraliberais, negam serviços públicos de saúde, deixando os pobres ainda mais vulneráveis, a exemplo dos cenários dantescos que nos chegam da América Latina, sem sistemas de saúde preparados para lidar com a nova pandemia e em que a manipulação de números de vitimas é denunciada como estando aquém da verdadeira dimensão do pesadelo humanitário.

Sem indemnizações de guerra imposta pelos vencedores, os impactos da Covid-19 deixam não só um rasto de morte entre os povos vitimas desta pandemia, que caminha para quase cinco milhões de confirmados, mais de um milhão e meio de recuperados, e mais de 300 mil mortos, que se acentuam preocupantemente, nos Estados Unidos, 86.607, Reino Unido, 33.998, Itália, 31.610 e Espanha, 27.459 (15/05/2020). Como ainda, uma profunda crise humanitária, social e económica em que grassa a fome, que não pode ser aceite que recaia sobre as vitimas de sempre, do capital que rapidamente quer recuperar das ruínas provocadas por esta guerra viral.

Recessão económica que paira sobre os povos sem uma consequente solidariedade internacional, num tempo de governantes negacionistas nos palcos mais dramáticos desta guerra, que, se no Reino Unido e noutros países, em nome da economia abriram flancos ao inimigo e se atrasaram no reforço das armas capazes de travar preventivamente o avanço do vírus. Outros houve e há, que negando a existência de um perigoso inimigo, deixam o seu povo à mercê de fundamentalismos e de ataques pandémicos sem tréguas aos indefesos, que nos trazem também memórias da Primeira Guerra Mundial.

Memórias da Grande Guerra (1914-1918), em que muitos soldados foram vítimas, não só da carnificina dos combates nas trincheiras, mas igualmente da morte invisível provocada pelo surto da gripe pneumónica, que em Portugal se designou “gripe espanhola”. Epidemia agressiva e destrutiva como a Covid-19 que no século XXI volta a atacar as defesas do organismo, resultando em pneumonias bacterianas como causa direta da morte, travada corajosamente pelos corajosos soldados, em que se transformaram, médicos, enfermeiros e assistentes operacionais. Num campo de batalha em que o confinamento social se mostra eficaz, e agora, mais uma vez, cada país tem a sua estratégia de desconfinamento, mesmo com o medo de novas vagas de ataque deste inimigo.

 

Fotos: pesquisa Google e Memórias da II Guerra Mundial, Winston Churchill

 

01jun20

 

 

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