Menu Fechar

Reclame / Reclamo

Joaquim Castro

 

No noticiário da SIC, o jornalista referiu “reclame”, no sentido de painel publicitário. Ora, o que ele deveria ter dito, por ser mais correcto, era “reclamo”. As duas palavras existem, mas tem significados diferentes. Reclamo pode ser o acto ou o efeito de reclamar, mas também pode ser referente a publicidade feita por meio de cartaz, anúncio, prospecto. Há quem considere que também se pode dizer reclame. Mas reclame, em náutica, pode ser uma abertura com roda, para dar passagem a uma adriça, ou peça do poleame, destinada a alterar a direcção de um cabo. E adriça é o cabo usado para içar velas e bandeiras. Por sua vez, o poleame, em náutica, é o conjunto de todas as peças: moitões, cadernais, patescas e bigotas, destinadas à passagem ou ao retorno de cabos, em geral, utilizados na fixação e no manuseio das velas.

DE ESTADO E DO ESTADO

Durante a discussão, na generalidade, do Orçamento Suplementar, realizado em 18 de junho de 2020, foram vários os deputados que trataram o Orçamento do Estado, por Orçamento de Estado. A diferença está no de e no do. De facto, a forma correcta é Orçamento do Estado, não havendo necessidade de praticar essa incorrecção, de trocar o do pelo de. Claro que, nem todos os deputados trocam o nome ao documento, que tem honras de sair no Diário da República, todos os anos, para que o Governo possa executar o seu programa, devidamente aprovado na Assembleia da República. Mas é uma pena. Os debates parlamentares estão transformados em autênticas agressões à Língua Portuguesa. Em minha opinião, pela carga negativa que essas agressões linguísticas transmitem, não seria descabido aquele Órgão dispor de um conjunto de assessores, só para funcionarem como vigilantes da língua de Camões, alertando para os pontapés na gramática, cometidos pelos parlamentares.

INFECTADOS À MILÉSIMA!

Há uns tempos, num rodapé do canal de televisão SIC Notícias, lia-se que, até àquela data, já havia 246 mortos e 9,886 infectados. Ou seja, não chegava a 10 infectados! Se fossem 9886 infectados, o número estaria correcto, em alinhamento com os números anteriormente divulgados. Provavelmente, quem fez a inserção daquele número no rodapé, teve a tentação de colocar um pontinho a seguir ao algarismo 9. Mas saiu-lhe uma vírgula. Só poderia ser isso o que aconteceu, pois não será fácil encontrar os tais 9,886 doentes por aí. Aliás, os rodapés televisivos tem-se revelado muito prejudiciais à Língua Portuguesa, pois, uma coisa, é uma palavra mal pronunciada, cujo som é efémero. Outra coisa é o efeito da legenda, que mantém o erro de escrita, por longo período de tempo.

CALÇAS E CALÇÕES

É corrente a utilização dos termos calças e calções, para designar a peça de vestuário, que vai desde a cintura, até perto dos joelhos. Mas também é corrente utilizar os termos calça e calção, no singular. Então, quais serão os termos mais correctos: são os pronunciados no plural ou os pronunciados no singular? Com o tempo, dei conta de que se for a uma loja de modas, poderei ser abordado por alguém do estrabelecimento, a perguntar se desejo uma calça, ou um calção. Mas se for em casa, podem perguntar-me se vou vestir umas calças ou uns cações. E a calcinha? Pois, em Portugal, essa designação, que vem do Brasil, não é muito utilizada, por também significar peça de roupa interior. Ou seja, cuecas femininas. Refiro que, na minha passagem por África, fiquei a saber que um nascido em Luanda, branco ou preto, era um ”calcinha”. Talvez, pela forma aprimorada como se vestia.

AS “SOUDADES” DE MARCELO

O Presidente da República vestiu a sua roupa de docente e foi dar uma aula na telescola. Começou por se apresentar, dizendo chamar-se Marcelo Rebelo de Sousa. Tudo normal. De seguida, disse que era professor de alunos mais velhos, universitários, do que aqueles a quem se estava a dirigir, ou seja, a crianças. Tudo certo. O pior, veio depois, quando o professor disse que estava ali, para matar “soudades”. Na verdade, ele deveria ter pronunciado “saudades”. Esta forma errada “soudade” verifica-se amiúde, com destaque para os cantores portugueses. Nestes casos, após a gravação de uma música, a sua reprodução terá sempre o mesmo erro. Bom, se for ao vivo, em som directo, o intérprete sempre poderá corrigir para “saudade”, essa palavra tão portuguesa. Quanto a intérpretes brasileiros, quase todos pronunciam bem a palavra, de modo soletrado: “sá-u-da-de”. Eu aprecio muito este cuidado dos nossos irmãos do outro lado do Atlântico.

COMO TODOS SABEM!

Num noticiário televisivo, o jornalista utilizou a expressão: “uma matéria que se sabe pouco, como todos sabem”. Uma frase que provoca dois reparos. Em primeiro lugar, a frase correcta é “uma matéria de que se sabe pouco”, ou seja, falta-lhe o “de”. Em segundo lugar, é um paradoxo dizer que é “uma matéria que se sabe pouco, como todos sabem”. Não se sabe, e sabe. Fantástico! Nem todos os jornalistas utilizam a forma “de que”, quando as regras o exigem. Outro exemplo: este é o desenho que gosto mais. Na verdade, a frase deveria ser esta: este é o desenho de que gosto mais ou de que mais gosto.

A JUÍZA

Algumas magistradas dos tribunais não gostam de ser tratadas por juízas, obrigando ser tradas por juízes. Do mesmo modo, capitãs do Exército exigem ser tratadas por capitães. Ora, tradicionalmente, a palavra juiz designa um magistrado do sexo masculino e a palavra juíza designa um magistrado do sexo feminino. No entanto, à medida que a sociedade sofre alterações, vão surgindo novas realidades, como seja a feminização dos nomes de algumas profissões, decorrente do acesso da população feminina a esses cargos. Lembro-me que no Brasil, Dilma Roussef era tratada por presidenta. Refira-se que palavras, como, por exemplo, chefe, presidente e comandante, passaram a ser usadas e registadas nos dicionários como substantivos comuns de dois. Uma forma para os dois géneros, sendo o feminino ou o masculino indicado nos determinantes com que concorrem, que flexionam em género. Porém, a estranheza inicial de uma forma flexionada, como juíza ou primeira-ministra, tem-se esbatido, pelo facto destas palavras aparecerem regularmente nos órgãos de comunicação. Em minha opinião, a designação mais adequada é: senhora Juíza.

METER A MÁSCARA

Um reformado, entrevistado por um canal de televisão, fez questão de dizer, muito convicto, que “metia a máscara na cara, muitas vezes”. Ou será que o senhor metia a cara na máscara muitas vezes? Ou, apenas, colocava ou punha a máscara na cara? Há uns meses, li uma notícia, acompanhada de uma foto, na qual alunos em exame escolar apareciam com caixas de cartão na cabeça. A legenda dizia que tinham metido aquelas caixas nas cabeças dos alunos, para evitar que pudessem copiar os testes dos alunos do lado. Mas será que as caixas, de cartão, foram metidas nas cabeças dos estudantes ou as cabeças dos estudantes foram metidas nas caixas? Até pode ser um preciosismo, mas esta questão não deixa de ser pertinente neste artigo, que trata da Língua Portuguesa e dos seus percalços.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

 

Fotos do autor e pesquisa Net

 

01jul20

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.