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O Poeta da Távola Redonda, António Manuel Couto Viana

Carmen Navarro

 

 

Quando faleceu o Poeta António Manuel Couto Viana, o escritor Mário Cláudio lamentou o fato de que o Poeta e escritor tenha sido tão injustiçado, porque era dos poucos escritores e poetas de talento e qualidade, foi monárquico, teve ligação ao antigo Regime.

Mas, nunca foi político, nem tinha cores partidárias.

O Poeta Eugénio de Andrade na mesma altura mostrou a profunda admiração que tinha pelo Poeta.

Com o escritor e também poeta, David Mourão Ferreira, desenvolveu uma amizade muito profícua, assim com muitos outros e com os melhores atores e atrizes de Teatro e Cinema da sua época.

É Tarde

Futuro, passei a idade
De passar a novo rumo:
Preso nesta sociedade
Me consumo.

Ainda me restam restos
De poesia e de coragem?
Não servem pra manifestos
Nem mensagens.

Irão na próxima leva,
Quando o pão for raro e ralo.
Depois, na fome da treva,
Tremo e calo.

Futuro, que queres de mim?
Fechei pra demolição
Escrevo fé, leio fim.
E tu não.

Couto Viana

 1970

Cresceu entre as Artes e as letras. Ainda muito pequeno já construía teatros e personagens de papel com as suas irmãs, que com sua mãe e sua tia, excelente contadora de histórias, representavam para a família. Foi irmão de Maria Manuela Couto Viana, escritora declamadora e atriz. O seu avô, pôs em evidência o então esquecido traje do Minho, foi proprietário do Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, que o deixou por herança aos netos, e Couto Viana lá começou a dar os primeiros passos na arte de representar. Nele estreou a sua primeira peça de teatro infantil, “A Rosa Verde”. Em muito jovem passou uma grande parte do seu tempo no teatro Sá de Miranda que era como uma segunda casa.

Nasceu em Viana do Castelo a 24 de Janeiro de 1923 .  Foi um grande poeta, encenador, tradutor, memorialista, dramaturgo, contista, ensaísta, figurinista de Teatro, empresário e diretor do Teatro Gerifalto, Diretor do Teatro da Trindade e outras Companhias. Lecionou no Liceu D. Leonor, em Lisboa. Dirigiu a publicação de várias revistas, Infantojuvenis, literárias e de cultura. Foi membro da Academia de Ciências de Lisboa. Viveu três anos em Macau, e aí foi docente do Instituto Cultural de Macau. Apaixonado pelo Oriente, por essas paragens fez diversas viagens. Foi Conselheiro de Leitura da Fundação Gulbenkian.

Em 1946, com 23 anos, foi viver com a família para Lisboa, lá fez a sua integração intelectual no meio artístico, e conheceu as suas amizades para a vida.

Conheceu o poeta Sebastião da Gama, que o levou ao “Café Chiado”( propriedade de Júlio Dantas), para o apresentar a David Mourão Ferreira, que foi escritor, poeta e Professor na Faculdade de Letras de Lisboa,  Ali combinaram organizar um Recital de Poesia na Faculdade de Letras, onde hoje é a Academia de Ciências. Neste Recital participou também, o ator, poeta e declamador Vasco de Lima Couto, foram ditos poemas deles, muito ao jeito do que na época se usava, o estilo João Villaret.

Mais tarde, Couto Viana escreveu sobre este recital. David-Mourão Ferreira, conhecedor da sua paixão pelo teatro, levou-o para o Teatro Estúdio do Salitre em 1946, onde se estreou como ator, figurinista e encenador, na peça “Isolda” de David Mourão Ferreira, e que não mais foi representada. Seguiu-se a peça “Contrabando” igualmente de David de Mourão Ferreira que teve duas grandes atrizes Cecília Guimarães e Fernanda Botelho.

Couto Viana pertenceu à Direção do Teatro da Mocidade, Teatro de Ensaio (Teatro Monumental), foi diretor e empresário da Companhia Nacional de Teatro (Teatro da Trindade) e orientador artístico da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra. Igualmente encenou e dirigiu companhias de ópera, foi mestre de cena, do Teatro Nacional de São Carlos, do Círculo Portuense de Ópera e da Companhia Portuguesa de Ópera. Foi mestre de arte de cena do Teatro Nacional de S. Carlos.

Em 1948, publica o primeiro livro de poemas “O Avestruz Lírico”. Desde então publicou mais de uma centena de livros. Entre a Poesia e o Teatro ainda teve espaço para a Ópera a livros infantis, Gastronomia e os Contos, muitos dos seus livros estão traduzidos em Francês, Inglês, Espanhol e Chinês. A sua Poesia é de grande lirismo, embora também tenha tido incursões na poesia épica.

O Avestruz Lírico

Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves);

Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.

Isto sou. ( Dói-me a ironia
– Pudor nem sei de quê.)

Daí a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê.

Couto Viana

1948

Passados vinte cinco anos escreve o livro de poemas “ Raiz da Lágrima” que o dedicou a sua mãe, irmãs e ao filho. No primeiro poema volta a ideia da avestruz.

Volvidos tantos anos, a melancolia a solidão está lá, e não o deixa voar, há qualquer coisa que o fere e o marca.

Prólogo

Fui avestruz. Sou ruminante
De seiva lírica. A Pastagem,
outrora verde e abundante,
Está queimada da estiagem.

Olhar o céu límpido e mouco
Não vale mais do que o que foi.
A água tarda. O pasto é pouco.
A fome rói.

Ah, se uma lágrima bastasse
pra encher de viço esta secura!

Sinto-a a escorrer-me pela face
Futura.

Couto Viana 

1971

Entre 1949 a 1960, Couto Viana envolveu-se em numerosa Revistas. “Camarada” infantojuvenil, dirigiu Cadernos de Poesia  “Távola Redonda”. Publicação que teve com coo-diretor David Mourão Ferreira juntamente com Luiz Macedo e Alberto de Lacerda.

A Revista Távola Redonda sempre esteve mais ligada ao lirismo, embora a sua filosofia fosse pouco clara, também não creio que tivesse rejeitado inteiramente o neorrealismo, pois era na época a corrente literária dominante. A “Gaal” revista cultural. Fez parte do conselho de Redação da revista “Tempo Presente”.

Em 1956 funda o «Teatro do Gerifalto», lá organizou diversas peças de teatro, nas quais se inclui “Era Uma Vez… um Dragão”  foi empresário e diretor, desenvolveu durante dezoito  anos um trabalho ímpar, constituindo esta uma das estruturas mais importantes da história do teatro para a infância e juventude em Portugal.

Nesta companhia estrearam-se  grandes atores,  Rui Mendes, Morais e Castro, Francisco Nicholson.  Couto Viana, esteve sempre ligado a companhias de teatro para a infância.

Escreveu belíssimos livros para crianças numa linguagem sem “inhos”.

A Galinha Espertinha

Era uma vez uma galinha

Que entrou pela cozinha,

Onde havia uma panela,

Mas sem nada dentro dela.

Ouviu, então,

A voz fraquinha do patrão

Dizendo à cozinheira:

– “Não se arranja

Por aí uma canja?

Estou cheio de fome.”

Pôs a galinha um ovo e disse: – Come.”

E fugiu sem demora,

Antes que lhe chegasse a derradeira hora.

Couto Viana

Foi fundador do Teatro da Mocidade onde iniciaram a sua atividade artística nomes relevantes da cena em Portugal, como: Alda Rodrigues, Alexandre Vieira, Alina Vaz, Catarina Avelar, Eduardo Silveira, Fernanda Alves, Fernanda Montemor, Lígia Teles, Luís Cerqueira, Luís Horta, Mário Pereira, que depois transitaram para o Teatro Gerifalto.

Fez excelentes programas de poesia para a RTP.

Nunca abandonou a Ópera, outra paixão, continuou a encenar para a Companhia de Ópera de Câmara do Real Theatro de Queluz.

António Manuel Couto Viana recebeu diversos galardões literários tanto em Portugal como na Espanha:
Prémio de Poesia Luso-Galaica Valle-Inclan, o Prémio Antero de Quental, o Prémio Nacional de Poesia, o Prémio Fundação Oriente e o Prémio Academia das Ciências de Lisboa.

Foi condecorado com a Banda da Cruz de Mérito, Grão Cruz da Falange Galega e a medalha de Mérito Cultural da Cidade de Viana do Castelo. Foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Reformou-se como Mestre de Cena do Teatro S. Carlos. O escritor de 87 anos, residia há cerca de dez anos na Casa do Artista, em Lisboa, continuando a escrever e a publicar. Quando morreu Couto Viana encontrava-se a escrever a História da Companhia Nacional de Teatro, para a Fundação Gulbenkian. Os Franciscanos do Convento da Luz, convidaram-no a dirigir um projeto Teatral de Dramaturgia Sacra.

António Manuel Couto Viana deixou-nos no dia 8 de Junho de 2010. Está sepultado no Jazigo de Família em Viana do Castelo.

“Sou um poeta, tenho de participar nas utopias e nos sonhos, alimento a fogueira da ilusão”

Muito fica por dizer…

 

 

Fotos: pesquisa Google

01ago20

 

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