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Rogério de Castro, o único professor português catedrático em Viticultura, na sua Quinta de Lourosa: “O vinho português é um produto rico, mas, insuficientemente, prestigiado!”

O Vinho Verde é para ele uma paixão, fonte de estudo e inspiração. É proprietário da Quinta de Lourosa, em Lousada, e, mais do que isso, o único professor catedrático em Viticultura. Falamos de Rogério de Castro, um senhor com os seus respeitáveis e joviais 72 anos (mais um, daqui a poucos dias – 26ago20), natural da gondomarense freguesia de S. Cosme, e alguém que, em termos concorrenciais, não deixa os seus créditos por mãos alheias, ainda que goste de ensinar e promover algo que, neste caso, é identificativo de uma vasta região do Norte de Portugal, como é no caso, o Vinho Verde.

Assume-se como um “vitivicólogo” – adjetivo qualificativo, por ele próprio criado – e, como tal, tem vindo a desenvolver diversas e interessantes experiências, as quais lhe daremos conta, no decorrer de uma entrevista agradável e que Rogério de Castro dá-se a conhecer, sem qualquer tipo de complexos.

 

José Gonçalves                Carlos Amaro

(texto)                                  (fotos)

 

Considerado por muito como o “Senhor Vinho Verde”, Rogério de Castro não leva a mal o epíteto, até porque, como refere “sou alguém que nasceu neste tipo de vinho. Trabalhei muito, sempre gostei muito de agricultura”.

E foi alguém simpático e satisfeito com os resultados de toda a uma vida dedicada à paixão pela agricultura, que nos recebeu na sua Quinta de Lourosa, um espaço recheado do história e estórias, há muito ligada à sua família, com especial destaque para o seu falecido pai, pelo qual nutre extrema consideração.

“Não tive uma infância difícil. Era uma vida muito simples. Entre outras coisas, jogava hóquei na rua, com um troço de couve. A agricultura para mim era já uma envolvente, até nas minhas brincadeiras. O meu pai, quando semeava milho, deixava-nos jogar futebol nesses campos…”

E é por esta altura, ainda com tenra idade, que ganha simpatia pelo Belenenses. “Sou do Belenenses como um justificativo da minha rebeldia. A família era toda do Futebol Clube do Porto. Já a minha geração teria de ser qualquer coisa de diferente. E como tivemos um familiar, primo, que jogou futebol no Rio Tinto e também no Belenenses, isso influenciou-me um pouco. Mas, foi também uma autoafirmação de adolescente.”

E da infância releva, repetindo, o facto de não ter “memória de coisas excecionais, mas de coisas muito simples que fizeram parte da minha estabilidade. Tínhamos amigos que jogavam futebol na rua e o tal hóquei com um troço de couve…” e isto tudo num “lugar de São Cosme, em Gondomar, pequenino, com quatro casas agrícolas. Os irmãos mais velhos. Foram nove. Dois não os cheguei a conhecer. Sou o benjamim da família! O mais velho foi como que o mais rebelde: partiu para estudar em Coimbra, e era para mim uma pessoa exemplar, ainda que com ele tivesse discussões. Mas, as vivências foram muito boas”.

A QUINTA DE LOUROSA…

E a paixão pela agricultura cedo começou a evidenciar-se no miúdo, sendo sempre do seu agrado, uma deslocação com o seu pai à Quinta que agora é sua…

“Vinha para aqui, para a Quinta de Lourosa, com o meu pai. Ele era, em São Cosme, uma autoridade local, foi regedor de freguesia, e, aqui, era o senhor senhorio. De salientar que Lousada, até há pouco tempo, ou seja, num passado recente, era muito feudal, e o senhorio era alguém que não podia trabalhar, pelo que havia os caseiros para tratar das coisas. Assim, sempre que podia acompanhava o meu pai, e essa era a única razão que me permitia faltar à escola. Vinha de São Cosme para aqui, onde achava muito interessante as conversas do meu pai com o caseiro, como as contas e outras coisas do género”.

Portanto, uma íntima ligação antiga à Quinta de Lourosa… quanto mais não seja, porque “ela vem do tio-avô do meu pai. A Quinta de Lourosa – este maravilhoso espaço – está na família há cento e cinquenta e tal anos!”

“Tinha de vir a ser um agricultor evoluído”

E, por mais estranho que possa parecer, não foi em Lousada, ou mais concretamente na Quinta de Lourosa, que Rogério de Castro ganhou o “bichinho” pela agricultura.

“Não. Começa mesmo em Gondomar, onde vivíamos, exclusivamente, da agricultura. Praticamente todos estudaram e se formaram. Portanto, eu tinha de vir a ser um agricultor evoluído. Já o meu pai, só tinha a quarta classe, mas era um bom gestor. Portanto, comecei a fazer agricultura quando ele, o meu pai, a não podia fazer. Eu aprendi a lavrar com uma charrua com bois, isto quando ele já não podia com esse serviço. Eu ainda não podia, e ele já não podia… fazer esse serviço! Ele explicou-me como lavrar, já sem poder lavrar, e sem eu a poder lavrar, pois era muito jovem.”

Mas, quando é que aparece, realmente, a viticultura e depois a vitivinicultura, na vida de Rogério de Castro?

“Desde sempre, porque a agricultura, naquela época, era muito diversificada. Lá em casa era, sobretudo, horticultura e viticultura – o vinho, depois, ia todo para os comerciantes, e, na altura já tínhamos cerca de noventa pipas… era um produto essencial. Mas, a verdade, é que enquanto a viticultura fazia-se uma vez por ano, a horticultura, por sua vez, fazia-se todos os dias. Tínhamos ainda o gado, que era muito importante para as nossas vidas, já que nos ajudava no trabalho, ao dar-nos leite, carne e estrume. Aliás, realce-se que a fertilidade dos solos tinha a ver com este sistema agrário, sistema esse que se perdeu, pois com a evolução – com os avanços tecnológicos-, tivemos retrocessos tremendos. Perdeu-se a agricultura diversificada, embora, hoje, parece que estão a tentar recuperá-la”.

Fui um jovem agricultor irreverente!

Se, até dada altura, os estudos foram como que secundários em relação à paixão pela agricultura, e viticultura em particular, a verdade é que eles regressariam em força à vida de Rogério de Castro. Ainda assim, o nosso entrevistado, gaba-se de ter sido um “jovem agricultor a cem por cento!” Só que a necessidade saber um pouco mais, ou muito mais, sobre o que o agarrava à vida foi mais forte, e ditou o seu futuro…

“Houve uma altura em que, na realidade, Interrompi os estudos e fui jovem agricultor a cem por cento, ainda que, na época, não houvesse esse estatuto, nem apoio para tal. Era um jovem agricultor irreverente! Isto numa altura em que a agricultura começava a ser sobretudo de, e para, velhos. Só que, a partir de um certo momento, comecei a sentir a necessidade de saber mais qualquer coisa. O que sabia já não era suficiente. Tinha,assim, atividades colaterais: fiz cursos de teatro; estive ligado a movimentos da ação católica, e havia eventos deste género que eu aproveitava para neles participar. Quando era jovem agricultor, fui, com um outro colega da época, mais velho, um dinamizador dos alunos da Escola Comercial e Industrial de Gondomar…”

Todavia, Rogério de Castro, ainda hoje, não sabe ao certo “do que era dinamizador”. O que é certo, é que algo “ajudou a dinamizar-me, porque de repetente fez-me sentir forte e encontrar a verdadeira necessidade da minha vida. Nessa altura, já o meu pai estava em fase de final de vida.”

Sobre o pai, e quando nele se falou mais ao pormenor, Rogério de Castro emocionou-se, até porque, como fez questão de frisar, “foi uma pessoa que me marcou profundamente!”.

E mais não disse, até porque acabava de dizer tudo!

Em tudo o que me meto, faço-o com militância!

A vida mão pára, e eis que surge, após algumas indecisões, um momento crucial na vida do nosso entrevistado, ou seja, quando lhe surge o desafio do Instituto Superior de Agronomia, ISA, em… Lisboa.

“O ISA surge como o corolário pelo facto de ter decidido recomeçar a estudar, e, por determinadas razões, que considerei fundamentais: tinha um irmão na agricultura que estava menos desenvolvido, e eu senti, assim, que estava a criar um problema para todos. Eu senti que tinha que mudar. Alguma coisa estava a correr mal com a gente, e eu tinha que mudar! Os meus irmãos estavam preocupados, pois nessa altura, também o meu pai estava com pouca saúde. Então, fiz, num ano só – e como autodidata, aos 18 anos -, o segundo ano de Liceu, e, no ano seguinte, a outra secção, e parte do sétimo. Fui, entretanto, chamado para a tropa acabando, então, o sétimo ano. No final do serviço militar, comecei o curso. No fundo, fiz os sete anos de escolaridade em três anos. Em tudo o que me meto faço-o com militância. E foi feito tudo no Porto”.

Foi feito tudo no Porto… até ao momento em que teve de ir para Lisboa, pois só lá havia o curso de Agronomia…

“Bem! Depois do sétimo ano, fiz, de imediato, exame de admissão à Universidade, e tive de ir para Lisboa porque não havia, no Porto, Agronomia. Quando resolvi ir para Agronomia, decidi também fazer psicotécnicos, pois, pelo sim pelo não, podia estar a ser enganado por mim próprio. Tive, então conhecimento de um gabinete de psicólogos na zona da Boavista, e fui lá. Fiz os primeiros inquéritos e foi curioso: deu, como primeira aptidão, Agronomia e, em segundo, Arquitetura Paisagística. Atenção, que, no momento que acabo de revelar, ainda estava na tropa, e por lá andei três anos e tal, Na parte final saturei-me, e, para não ir para a guerra, preferi não ser oficial e ficar como sargento. Acabei por ficar saturado da tropa! No Hospital Militar, e, como no último ano tive algumas «baixas», aproveitei isso para dar umas escapadelas até ao ISA, e fiz uma «cadeira»”…

Ora, como é que um jovem encara a vida na capital, até porque eram profundas as assimetrias entre Lisboa e o resto do Pais, incluindo a segunda cidade, o Porto?

“Estive em Lisboa, mas sempre com uma ligação muito forte, aqui, à Quinta de Lourosa. Quinta que, nessa altura, estava em decadência, porque os meus pais, entretanto, tinham falecido. Aí surge uma outra experiência, a de  ter de ficarem Lisboa, na Universidade, e sem dinheiro. E, para piorar a coisa, por lá não tinha ninguém, nem conhecia quem quer que fosse. Os meus quatro irmãos queriam ajudar-me, mas não gostava, como nunca gostei, de dependências económicas! Esse é o princípio de todas as outras dependências! Fui, então, fazendo o curso, mas nunca pensando ficar em Lisboa”.

No fundo, eu sou um experimentalista…

E, é verdade, que Rogério de Castro, independentemente, de ser oriundo de uma família economicamente estável, teve, mesmo assim, de lutar para chegar onde chegou…

“Tive de lutar e muito. Os meus irmãos foram extraordinários, mas não conseguia aguentar o pesadelo de estar a ser suportado por quem quer que fosse, facto que levou a alguns desentendimentos familiares. Eles achavam que eu estava sempre a passar mal. Mas, na realidade, eu estava a passar bem, porque estava a fazer a minha vida”.

“De repente”, continua, “ eis que surge um telefonema a convidar-me para assistente na Universidade. Disse que não! Mas, o tempo foi passando e, quando acabei o estágio, decidi experimentar. Ao fim de um ano, e como rato de biblioteca, corri tudo e fiz de tudo. Verdade se diga, comecei a gostar daquilo! Tinha eu, na altura, 25 anos. Ao fim de dois anos, passei de assistente eventual a assistente efetivo e, logo ao fim de um ano, senti a necessidade de começar a fazer ensaios, com apoios, ou sem eles…”

Os “ensaios”, ou a reconhecida paixão do nosso convidado…

“Eu sou, no fundo, um experimentalista. Eu não sei se experimentei?! Eu não sei se quantifiquei?! Tenho dificuldade em explicar-me. Gosto, isso sim, de ter ideias; gosto de as testar e quando estou a ensinar alguma coisa, as coisas saem-me espontaneamente. Não custa nada!”

Mas, pelos vistos, custou; custou a primeira experiência no Instituto Superior de Agronomia…

“A primeiro, a experiência foi péssima, mas depois revelou-se fundamental, até porque, estava em Lisboa para frequentar a biblioteca, para ir aos Laboratórios, para dar as aulas e para ir a reuniões. As aulas práticas eram realizadas na Tapada da Ajuda, que tem cerca de cem hectares, onde se encontravam os nossos campos experimentais. Uma das minhas revoluções dentro da Universidade foi, como tínhamos muitos funcionários de campo, pedir-lhes para «ajudarem a fazer», e «não o fazerem». Sim. Porque os alunos tinham de aprender fazendo. Isto foi uma revolução! E foi, porque os funcionários de campo passaram a ter uma atividade muito mais digna.  No fundo, os alunos é que tinham de fazer as coisas, sendo, obviamente, acompanhados pelos funcionários de campo”.

Por cá queremos fazer tudo à pressa. Tudo… até à altura em que tudo não passa de achismos

Para dar mais ânimo à sua vida académica, Rogério de Castro “muito cedo” conseguiu conquistar Bolsas e, assim, “fazer diversos estágios fora do país”.

“A área que privilegiei foi a da condução de plantas. Na fruticultura tive a honra de estudar na melhor estação do mundo, em East Malling, 60 quilómetros a sul de Londres. Foi uma experiência muito marcante, porque os ingleses, sobretudo em investigação, são notáveis. Enquanto por cá queremos fazer tudo à pressa, até à altura em que tudo não passa de «achismos» – “ ele acha que”, ela acha que…” e por aí fora -, o que senti e vi naquela grande estação em East Malling, primeiro, foi uma biblioteca fabulosa, e, depois, verificar coisas muito simples: o estudo em profundidade era precedido de uma experiência em termos de ensaio. Para mim isso foi uma coisa notável, tanto para minha anotação, como para o projeto que, mais tarde, viria a ter. Em França, já havia outra visão, foi diferente…”

A minha viragem da fruticultura para a viticultura foi uma experiência extraordinária

A Revolução de Abril de 1974 dá-se com Rogério de Castro a estudar, sem que, na altura, notasse grandes modificações – diferença, se quisermos -, em termos estruturais. Pelo menos, as referências são poucas ou nulas a esse respeito. Aliás, o nosso entrevistado, pelos vistos, deu-se bem com a situação.

“Acabei por me dar bem. Como que aliciado por colegas meus para concorrer, concorri e ganhei o concurso para horticultura e fruticultura, trabalhando, sobretudo, com pereiras e macieiras. O facto de, antes, ter sido monitor, foi importante para a decisão dos júris. Isso aconteceu em 1976. Fui, então, seguindo o doutoramento, ao ponto de chegar a ter excesso de material. Apresentei, então, a tese, com material que já tinha iniciado. Fiz o doutoramento, e fui convidado para viticultura. Desliguei-me, desse modo, e gradualmente, da fruticultura. Foi uma experiência extraordinária a minha viragem da fruticultura para a viticultura. Isto em 1984”.

Dá-se. Então, um reencontro com a viticultura. Encontro que se transformaria num “casamento eterno”…

“Foi, realmente, um reencontro Tinha estagiado e havia sido monitor em viticultura… e as minhas origens eram a viticultura. Mas, não posso esquecer o facto que foram bons aqueles anos na fruticultura. Portanto, foi muito bom esse desvio, porque deu-me uma abertura extraordinária. Contactei, sobretudo, com o mundo anglo-saxónico. De início, tive a sensação que tinha andado a perder tempo, tal como anteriormente tinha pensado o mesmo como agricultor, mas, a verdade, é que esse tempo de agricultor ensinou-me coisas que a Universidade nunca ensina, sobretudo o domínio da sociologia rural: saber trabalhar com o pessoal do campo…”

Em Portugal há muito conhecimento, há muitos técnicos e tecnologia, mas há um défice tremendo em potencial de conhecimento…

A sociologia rural é algo de importante para Rogério de Castro, porque, em seu entender “ela é sempre necessária e, como tal, fundamental. Digo com muita frequência que, em Portugal, há muito conhecimento, há muitos técnicos e tecnologia, mas há um défice tremendo em potencial de conhecimento. Por duas razões: as pessoas afastam-se dos problemas reais e perdem-se nas suas especializações sucessivamente, e digo «sucessivamente» porque eles afastam-se da realidade, e, assim, o seu conhecimento não é aplicado. Por outro lado, não há necessidade de potenciar as pessoas que estão no campo, e que têm a noção do que estão a fazer. Se não se aprende também nada se ensina!

As pessoas que nada sabem de agricultura, são as que colocam mais questões curiosas. Ora, com os que não estudaram mas viveram muito os problemas… também se aprende. Depois, cabe a nós termos de estudar… termos de quantificar, termos de experimentar. Mas, esses dois setores são duas molas impulsionadoras importantíssimas. E falando, chego à conclusão que, mesmo não me apercebendo, o meu maior património foram os alunos que tive durante quarenta anos. Estão dispersos por aí, mas quando reencontro alguns, e os vejo com um bom desempenho… sinto-me feliz e realizado Esses, os alunos, foram os tais que me ajudaram”.

Faz-se pouco, mas fala-se muito de emparcelamento funcional (…) que é uma saída extraordinária!

De acordo com Rogério de Castro, Portugal é, de facto, “um país vinícola”, ainda que “não se saiba compreender como tal! É certo que têm havido esforços, mas a sociedade não está educada nesse sentido”.

E tanto não está, que o nosso entrevistado defende, ainda hoje, a aplicação da “Lei das Sesmarias”.

“Defenso a Lei das Sesmarias, mais do que nunca! Há nessa Lei questões fundamentais para que este Portugal seja um país com um mínimo dignidade; capacidade de sobrevivência e autonomia. E a outra é uma área na qual me tenho empenhado muito: o emparcelamento funcional. Faz-se pouco, mas fala-se muito de emparcelamento.

A terra vale pouco e é sobrevalorizada, quando ela não está bem dimensionada; não está adequada para que as máquinas e as pessoas possam ter com ela o devido rendimento… nesse quadro, muito real e frequente, não se pode viver bem. Cada qual tem o seu pedacinho e o seu pedacinho nada vale em termos de construção, mas pesa muito em termos de capacidade de produção.

Esta é das coisas mais complicadas. Ou seja: o emparcelamento fundiário é complicado porque há tendência a sobrevalorizar o que depois não é rentável. Nesse sentido, é necessário conjugar várias parcelas, independentemente, de quem é o dono da parcela, e tornar esse conjunto – essa mancha – viável, salvaguardando o facto de não ser penoso, em termos de trabalho humano Para isso, utilizam-se as máquinas.

Esta estrutura está mais implantada do Nordeste do País. A legislação proibia a plantação de vinhas contínuas, isto nos anos 60, 70 do século passado. Por outro lado, a cultura do milho, que entrou no século XV, exerceu uma grande pressão demográfica, pois havia quem precisasse de comer e o milho fez, nesse sentido, uma revolução fantástica. O milho associado ao gado, que faz estrume e o aproveitamento das matas, naquilo a que hoje se chama agricultura biológica. Esse tipo de agricultura tem séculos. Nessa época, a divisão dos campos fazia sentido, porque cada um deles, dividido, dava mais uma ramada. Mas, chegados aos nossos dias, é preciso emparcelar! Só que, a verdade, é que tudo está, e continua a estar, dividido.

Na realidade, de geração em geração, cada família teve dar de comer aos sucessivos filhos, portanto era preciso que cada filho ficasse com um bocado de terra na várzea, outro na encosta, no mato, e por aí adiante, e isso tem a sua lógica. Mas, chegamos a um período em que as coisas estão bastante diferentes. Temos de especializar atividades. Temos de criar áreas com o mínimo de dimensão rentável.

Essa questão do emparcelamento funcional é uma saída extraordinária. Aliás, saiu agora legislação nesse sentido, mas mais para a floresta. No caso da agricultura, terá de ser também obrigatório! Se não conseguirmos isso, a terra continuará a valer muito, mas será um  fator penalizado pela evolução”.

Na Quinta De Lourosa foi feito o primeiro campo de clones da casta Arinto

Há cerca de quarenta anos à frente dos destinos da Quinta de Lourosa, e como um “experimentalista” que é por excelência, Rogério de Castro tem, obviamente, e ao longo deste tempo, desenvolvido importantes atividades… experimentais. Eis, mais um gabinete de experimentação?! “Sem dúvida! E nestes últimos meses veio ao de cima esse privilégio, porque aqui, na Quinta de Lourosa, sempre tive projetos a ver com a viticultura”.

“Saiba”, realça, “que somos o país do mundo com maior densidade de castas, em termos do número de variedades por hectare. O país que mais castas tem é a Itália, mas Portugal é o país do mundo com maior densidade de castas. Onde há maior património genético Ora, aqui, na Quinta de Lourosa, foi feito o primeiro campo de colones da casta Arinto. A casta Arinto é muito importante para esta região, e é uma das mais antigas

Esta é a casta cultivada em Portugal que melhor se adapta às caraterísticas de cada região, embora tenha núcleos de excelência, como o é o dos Vinhos Verdes; Bairrada e o de origem… o Arinto de Colares. O Arinto também é importante para o Alentejo pela sua frescura, e é a parceira ideal para a casta do Alentejo, a Antão Vaz. Para esta região dos Verdes, a Arinto é uma casta eclética também ao nível da utilização do produto. Ou seja, dá para fazer vinhos jovens, frescos; dá para acompanhar os vinhos mais madurões e dá para fazer vinhos de guarda, para durar, para reserva. Há quem goste de vinho com um bocadinho de madeira, e esta casta adapta-se extraordinariamente. E outro aspeto ainda: dá também para espumantes.

Os ensaios de todas as castas do país foram feitos aqui na Quinte de Lourosa. Fiz parte de uma equipa com elementos oriundos de diversos pontos do país. Nos projetos de condução, há sempre aqui algum ensaio a fazer…”

A condução de videiras em… Lys

Mas o que é, na realidade a condução de videiras, e, mais especificamente em… Lys?

“É o modo de condução das videiras. Esse sistema nasce aqui, e isso quase há quarenta anos. Inicialmente não se chamava Lys. Era uma Cortina Ascendente e Retumbante, portanto tinha como sigla CAR. Isso até o dia em que fizemos um congresso, em Vila do Conde, o qual presidi, e apresentei a comunicação e os resultados desta inovação. O modelo em construção inspira-se em duas questões: o que é tradicional nesta região, que é a vinha de enforcado, porque se encontra nas árvores, e que também existe no norte de Itália;  e a vegetação, que parte da zona ascendente, da zona horizontal e da zona retumbante.

Quase todos os que, na altura, trabalhavam na agricultura eram analfabetos, mas sabiam de filologia aplicada, porque quando se dava a poda, eles escolhiam as varas. Vejo os viticultores a podarem as uveiras e vejo que os ramos que estão para cima têm mais vigor que os outros. O Lys surge com a sistematização destas ideias. Um sistema ergonómico: uma parte é ascendente, e a outra é retumbante e chamei-lhe CAR. No entanto, o líder do congresso envia-me um fax, e diz assim: «esse sistema que tu criaste tem um nome horroroso eu proponho que se chame Lys». Eu fiquei irritadíssimo, pois pensei que era uma chauvinismo da parte dele. Perguntei-lhe o por quê? E ele responde-me – a chamar-me analfabeto-, acusando-me de nada saber sobre botânica. Mandou-me, entã,o uma fotocópia da flor de Lys e fez-me compará-la com o desenho do sistema. Dei-lhe razão!

O Lys é, assim, a conjugação de um bom microclima, sobretudo a nível dos cachos, e de um bom controlo do vigor. Eu estou ansioso para evoluir e ultrapassar o Lys. O Lys foi um abrir de janelas. O Lys é exigente em termos de Knowhow , e como há uma grande limitação na viticultura, a tendência é para uma maior mecanização deste processo”.

A nossa cabeça e as nossas mãos são coisas demasiado preciosas para fazer o que é penoso

Rogério de Castro é defensor que “a nossa cabeça e as nossas mãos são coisas demasiado preciosas para fazer o que é penoso”, já que, em seu entender, e já nesta entrevista realçado, “pode ser feito pelas máquinas. E o Lys, é hoje, um princípio fundamental! Tem a ver com todo o vigor; a criação de um microclima; melhor captação de luz; mais área folhear… no fundo, a vinha é uma máquina biológica e essa máquina capta energia”.

Vitivinicultura e enoturismo são duas peças que devem ser interdependentes

Mas, a viticultura e a vitivinicultura não se resumem, por si só, àquilo que são, já que, colateralmente, vai desenvolvendo-se uma outra indústria: o enoturismo. Para Rogério de Castro, “o enoturismo é uma componente fundamental. Vitivinicultura e enoturismo são duas peças que devem ser interdependentes. O enoturismo é determinante para a valorização da componente vitivinícola, não deve ser encarado como algo à parte”

Mas, será que o enoturismo é reservado somente a enólogos?

“Não. É para quem gostar de vir ao mundo rural e para quem admitir que o vinho poderá ser um complemento de bem-estar. Mas, a questão não é a do vinho em si, é, essencialmente, e isso sim, tudo quanto se gere à volta do mundo vitivinícola, onde há muita história; muito conhecimento. Aqui, na Quinta de Lourosa, vamos evoluindo nesse sentido. As pessoas que aqui vêm conhecem os vinhos, as vinhas”.

“Entretanto, e também a pensar nessa questão do enoturismo, requalificamos instalações que estavam em ruínas…” Ou seja, um “investimento próprio, ainda que nunca tenha dinheiro, uma vez que, todo ele, está aqui investido. Isto vai-se construindo e reconstruindo. Esta casa, onde estamos, tem cerca de 420 anos. Aproveitamos tudo quanto existia. Não tem brasão, mas tem muita história!”

Quinta de Lourosa… o vinho!

E há uma marca a defender: a “Quinta de Lourosa”. “Ela” está associada”, como explica Rogério de Castro, “especificamente aquela que era a área da Quinta de Lourosa, mas temos uns vinhos da Quinta que integra todas as outras vinhas que não eram da Quinta de Lourosa. Estou a falar em terrenos arrendados; terrenos comprados. Temos recuperado quintas abandonadas que arrendamos, e agora estamos com novos projetos. Está em curso um , no qual, entre outros factos, retomamos o emparcelamento florestal. Isso protege as vinhas que foram feitas depois dos incêndios”.

Planta Administrativa da Quinta de Lourosa

Ainda de acordo com esta questão, o nosso entrevistado realça que “uma parte substancial das nossas vinhas são corta-fogos. Essa devia ser uma técnica natural no combate aos incêndios. Muitas das minhas vinhas já foram fustigadas três vezes, não ardeu tudo, mas com o fogo envolvente, o calor foi de tal ordem que as cepas ficaram cozidas. O importante é nos terrenos envolventes, proceder a um emparcelamento mais alto”.

Com um número de trabalhadores efetivos, reduzido (03), mas contactando grupos para, pontualmente, desenvolverem algum trabalho, a verdade é que na Quinta, de 27 hectares e que produz 350 mil litros, há, como refere Rogério de Castro “muito trabalho meu diretamente. Eu faço todos os tratamentos e continuo a andar com os tratores, ainda que, com os anos, seja menos do que era….”

Compreende-se!

A Rota dos Vinhos Verdes tem de ser mais desenvolvida, já que é para nós um instrumento muito importante

A “Rota dos Vinhos Verdes” surge, neste contexto, como uma instituição de particular importância e interesse na dinamização dos produtos da região, entre os quais se encontra, obviamente, os da Quinta de Lourosa.

Mas, será que a instituição está a funcionar como os produtores pretendem?

“A Rota dos Vinhos Verdes é uma instituição potencialmente interessante, mas que não tem estado muito dinamizada. Há casas dinâmicas que estão envolvidas, mas a dinâmica da organização não é tão grande quanto isso”. Esta é a opinião do nosso entrevistado, que salienta o facto de, mesmo antes da pandemia, a situação na “Rota” se encontrar na mesma…

“Estava igual. É natural que, nesta altura, tenha havido uma quebra, mas a Rota dos Vinhos Verdes tem de ser mais desenvolvida, já que, para nós, é um instrumento importante. Tem de ser mais bem organizada…”.

O vinho português é um produto rico, mas insuficientemente prestigiado…

E Rogério de Castro vai mais longe…

“Não digo que o vinho, no território português, seja mal explorado, mas é um produto rico ainda insuficientemente prestigiado. O Vinho do Porto é conhecido internacionalmente há três séculos. Durante muitos anos, o vinho e a viticultura era um sobejo em termos de antiguidade, sobretudo para consumo local. A coisa foi-se desenvolvendo, mas foi sempre mais pró-doméstico, do que pró-mercado. Mas foi-se desenvolvendo! Algumas empresas já se encontram a trabalhar de forma profissional, mas, ao contrário de outras regiões onde esta é uma atividade principal, aqui, em termos relativos, é uma atividade secundária.

Na Casa Agrícola dos meus pais, o vinho já era importante, porque o meu pai dava importância ao vinho, mas na sociedade em geral, a viticultura vivia, tecnicamente, do sobejo das culturas anuais: vinho bastante ácido, pouco apetecível, com conotação de um produto de segunda categoria. Todavia, e pontualmente, já havia vinhos de referência, como por exemplo, os de Viana do Castelo, Monção, e mais tarde Ponte de Lima.  Aliás, Ponte de Lima surge quando a casta Loureiro começa a afirmar-se. Mas, em termos recuados, ante da história do vinho tinto claretes, já havia vinhos exportados até para a Rússia, por Viana do Castelo. Eram vinhos menos verdes. O verde era conotado como um produto de segunda categoria, porque era agressivo para o estômago, mais alcoólico. A conotação do Vinho Verde veio, depois, a mudar-se completamente”.

Anda muita gente dispersa, com valor, que não é aproveitada…

Quanto ao papel do Governo e da “Europa” no apoio à vitivinicultura, Rogério de Castro é peremptório: “Nunca nada está tanto como gostaríamos que estivesse. Mas, após o 25 de abril e com a entrada para a Comunidade Europeia, Portugal teve uma oportunidade fantástica. Aliás, fui coordenador de cinco projetos europeus, sobretudo na área da condução, na armazenagem, e previsão das vindimas – a data antecipada e previsão dos rendimentos da vindima. O projeto foi apoiado, na fase inicial, de forma integral pela União Europeia. Infelizmente, e atualmente, este projeto não está a ser desenvolvido, só no Douro se mantém”

E há, hoje, muitos “Rogérios de Castro” com vinte anos?

A resposta: “Acho que há. Há, hoje, mais gente e com entusiasmo. Acho que temos de apanhar os comboios. Detesto o oportunismo e também detesto quem perde oportunidades. Após a entrada na Comunidade Europeia tivemos muitas oportunidades e projetos muito interessantes. Alguns deles deram frutos extraordinários. A verdade, é que, hoje, anda muita gente dispersa e não aproveitada. Há gente válida, mas é preciso haver entusiasmo e viver-se muito as questões. No setor vitivinícola, hoje, há, de facto, mais gente entusiasmada mesmo no domínio da investigação”.

Quanto ao Mercado e ao seu “comportamento”… Rogério de Castro é da opinião que “Portugal não é um país com o peso dos países históricos da viticultura, mas, hoje, estamos perante o mundo, com uma conotação bastante melhor do que estávamos há uns anos. Portugal era um país muito secundário neste setor”.

Como integrar o lazer com o trabalho na Quinta de Lourosa? Visitando-a!

E agora: O que é que a Quinta de Lourosa tem para oferecer aos leitores que estejam interessados em cá deslocarem-se?

“Ver o ambiente em que se trabalha. Trabalhar na agricultura não tem de ser penoso, mas quem não estiver motivado facilmente fica cansado, perturbando mais do que trabalha”.

“Aqui, na Quinta de Lourosa, em Lousada, há um espaço que a pessoa pode colaborar com o trabalho que cá se faz. Tem espaços para fazer percursos. Tem vinhas com diversos modelos sempre em estudo. Temos para provar, degustar. Temos uma casa onde podem ficar hospedados; uma casa viva. A Quinta de Lourosa está em permanente construção, pois rapidamente as coisas se degradam e a agricultura não suporta manutenções caras… é preciso construir e rentabilizar, e esse é o nosso objetivo. Construir, evoluir, estimar, amá-lo, alterar-se e avançar-se. Integrar o lazer com o trabalho”

Uma Quinta de “encantos e desencantos”…

E é assim esta empresa, ou melhor dizendo, uma “sociedade familiar”.

“A minha filha Joana licenciou-se em agronomia. Tenho três netos, e entre eles, há uma que está mais envolvida. Este projeto é de quatro sócios, eu – o maioritário -, a Joana, a minha mulher, e o Bruno meu filho. E também é uma Quinta de encantos e desencantos….”

 

 

Esta reportagem teve o apoio de

Cristóvão Sá Pimenta

(colaborador Etc e Tal jornal)

 

01ago20

 

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