Menu Fechar

Foi dado o “pontapé de saída” para a reconversão do Matadouro Industrial do Porto! O “cartão vermelho” dado pelo Tribunal de Contas foi recordado com ironia e a obra valorizada como “ícone” de Campanhã, da Cidade, da Região e do País…

Hoje é um dia bom para o Porto!”, começou por dizer Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, depois ter assinado, com a Mota Engil, representada por Carlos Mota Santos, o auto de consignação da obra do antigo Matadouro Industrial do Porto, efetuado nesse mesmo local, ao meio-dia do passado 21 de outubro, na presença, entre outros, do primeiro-ministro, António Costa.

Depois do chumbo do Tribunal de Contas – que foi relembrado com a ironia própria de quem conquista um desiderato -, a verdade é que o “Projeto do Matadouro” está aí, pronto para avançar… tarde, mas a tempo! A tempo de valorizar a desprezada, durante décadas e décadas, zona oriental do Porto e, no caso concreto, a freguesia de Campanhã, como fez questão de frisar, o presidente do Município portuense.

 

José Gonçalves                 Carlos Amaro

(texto)                                     (fotos)

 

“Consensual”, “icónica”, “indispensável para a zona, para a região e para o País, o “Projeto do Matadouro”, da autoria do arquiteto Kengo Kuma, em parceria com o gabinete “OODA”, formado por alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, dispõe de uma área de 30 mil metros quadrados, e um investimento superior a 40 milhões de euros para a sua reconversão, a qual se iniciará em setembro de 2021 e se prolongará por dois anos.

Mas, com esta obra, vêm mais novidades em termos infraestruturais para a zona envolvente, como Rui Moreira deu a conhecer – num discurso que, mais abaixo, pode ler na íntegra -, assim como outros factos de relevância, onde a Cultura terá um papel determinante, e a Câmara do Porto, oito mil metros quadrados para, diretamente, a promover.

Num ato, onde, como referimos, esteve presente o primeiro-ministro, António Costa, e, salvo o erro, ninguém do Tribunal de Contas, o chefe do Governo fez questão de elogiar o projeto, relacionando, muitas vezes, com uma abertura ao “empreendedorismo” e à “inovação”, isto numa altura de crise derivada da pandemia, e diferente da de 2016 (“essa mais profunda”, disse), altura em que, no mesmo local, apresentou, também com Rui Moreira, precisamente, este projeto.

Quatro anos depois, e sem a presença da Bárbara (nome da tempestade anunciada para o dia, mas que passou a leste do Porto), o ritual foi quase o mesmo…

Cumprindo com todas as regras profiláticas contra a propagação da Covid-19, lá foi, então, realizado o ato que ficará para a história da cidade, falando-se já, na sua inauguração, ainda que ela seja uma realidade só daqui a dois anos… mas quem esperou quatro para ver dar este “pontapé de saída” … dois anos é, realmente, quase nada no tempo, é mesmo, e pelos vistos, um… “até amanhã!”

CARLOS MOTA SANTOS: “PRETENDEMOS QUE ESTE ESPAÇO SEJA A ÂNCORA DO AMBICIOSO PLANO DE REQUALIFICAÇÃO DA ZONA ORIENTAL DO PORTO E MOTIVO DE ORGULHO PARA TODOS NÓS!

Mas, o (histórico) encontro começaria com a intervenção de Carlos Mota Santos, em representação da empresa “Mota Engil”, salientando, desde logo que “quando em 2017 este projeto foi a concurso lançado pela Câmara Municipal do Porto, a Mota Engil assumiu-o como uma das suas prioridades, apresentando, assim, uma proposta de altíssima qualidade através de um conceito inovador, materializado num edifico, arquitetonicamente, icónico da autoria do arquiteto: Kengo Kuma, em parceria com o Gabinete de Arquitetura do Porto – OODA, e que se tornará num ponto de centralidade, de confluência de pessoas e atividades na cidade do Porto”.

A empresa promete “até ao segundo trimestre de 2023, criar – com um investimento de 40 milhões de euros -, em 20 mil metros quadrados, novos espaços, equipamentos culturais, sociais, comerciais, de lazer e escritórios”, pretendendo que “este espaço seja a âncora do ambicioso plano de requalificação da zona oriental do Porto e motivo de orgulho para todos nós”.

Carlos Mota Santos não se esqueceu, obviamente, do impasse criado com o chumbo do Tribunal de Contas, salientando a propósito, “nunca desistimos deste projeto, mesmo perante todas as vicissitudes que o mesmo atravessou nos últimos dois anos. Sinal esse do empenho da Mota Engil para com a sua cidade”, sendo esta “mais uma das diversas parcerias que temos vindo a desenvolver no passado recente, com diversas autarquias de Portugal”.

O empresário finalizou relembrando o espaço temporal do acordo com a Câmara do Porto – 30 anos -, e reiterando “o compromisso da empresa, não só para com este projeto de referência, mas, sobretudo, para com a nossa cidade e para com todos os portuenses”.

O ATO

Realizou-se, então a cerimónia do “preto no branco” com a assinatura do auto de consignação da obra do antigo Matadouro Industrial do Porto.

RUI MOREIRA: “O PROJETO DO MATADOURO CONSUBSTANCIA O PENSAMENTO ESTRATÉGICO QUE PRESIDE À REABILITAÇÃO DE UMA ZONA FEITA COM PESSOAS E PARA AS PESSOAS

Visivelmente bem-disposto – melhor: feliz por uma guerra, de guerras, ganha -, Rui Moreira assinou o auto de consignação, juntamente, está claro, com o representante da empresa “Mota Engil”, e depois fez um discurso mais demorado que o costume, mas que arrancou fortes aplausos no final.

O presidente da Câmara do Porto não esteve com falinhas mansas, historiou o processo e agitou diversas bandeiras que fazem parte da política que tem vindo a desenvolver há cerca de sete anos, na autarquia….

“Hoje é um dia bom para o Porto. É o dia em que acabamos de assinar o ato de consignação deste espaço, o que permitirá a sua reconversão para algo há muito imaginado e pensado”, começou por referir Rui Moreira, que começou, então, por dar relevo a certas datas e casos.

“Em 2013, na minha candidatura à presidência da Câmara do Porto, apresentei a ideia da reconversão do antigo Matadouro Industrial do Porto, como linha essencial para colmatar a segregação deste território. Ao longo do tempo e podemos falar ao longo do último século e meio, a zona oriental da cidade foi sempre rasgada verticalmente por várias vias, inicialmente o caminho-de-ferro, depois com a Circunvalação e, mais recentemente, com a VCI, o que veio aprofundar o sentimento de marginalização de toda a área de Campanhã. E, exatamente por isso, que esta intervenção é absolutamente necessária e muito urgente!”

ANTIGA FÁBRICA ABANDONADA E AQUELA QUE FOI A ÁREA DE RECOLHA DA STCP SERÃO TRANSFORMADOS “NUM GRANDE ESPAÇO PÚBLICO FRONTEIRO À ENTRADA DO MATADOURO”

E tudo começou “em 2016”, quando “tivemos a oportunidade de apresentar internacionalmente o projeto na 21.ª Trienal de Artes, Design e Arquitetura, em Milão, projeto esse que sempre conteve uma fortíssima componente social. Nessa altura havia apenas o esboço em que trabalhei com o Paulo Cunha e Silva e muitos outros, entre quais saliento o Guilherme Blanc e o arquiteto Jorge Garcia Pereira, nascido aqui na Corujeira. Pensamos, repensamos… falamos com muitas pessoas, e optamos, então, por testar o mercado através de um concurso internacional. Queríamos saber, afinal, se o setor privado estaria também ele disponível para apostar neste território, neste edifício, aqui em Campanhã.

“No entanto, depois do lançamento do concurso, em 2017, e da adjudicação ao concorrente Mota Engil”, continua Rui Moreira, “em maio de 2018, este processo conheceu vicissitudes que o senhor primeiro-ministro conhece bem, e que viria a ter o seu epílogo apenas em abril do corrente ano, com a concessão do visto prévio por parte do Tribunal de Contas”.

E o autarca fez questão, entretanto, de salientar que “para além deste antigo Matadouro Industrial do Porto – com uma área bruta de quase 30 mil metros quadrados, resultado de um projeto da Câmara Municipal do Porto de 1910 e tendo sido desativado há mais de vinte anos -, existem ainda outros dois grandes conjuntos edificados, e parcialmente abandonados, como a antiga «Fábrica Invencível», aqui à frente, e a antiga área de recolha da STCP que estão identificados pela Câmara do Porto como objeto de reestruturação, permitindo um grande espaço público fronteiro à entrada do Matadouro e que vai criar uma nova articulação com a Rua de São Roque da Lameira, e com a nova ligação à Praça da Corujeira, cujo concurso de conceção para a sua requalificação, já conhece os resultados”.

A FORÇA DE UM MUNICÍPIO ESTÁ NA SUA COESÃO SOCIAL, NA QUAL SE INCLUI A COESÃO TERRITORIAL

E, Rui Moreira, enfatiza, outrossim, a importância dada pelo Presidente da República ao projeto. “Muito se tem falado e escrito sobre este espaço. Disse o senhor Presidente da República, há quase dois anos, neste mesmo local, que este projeto é fácil de apoiar, porque é um projeto transversal, concentrando a unanimidade das forças políticas, por se tratar de um projeto que é multidimensional, porque tem cultura, economia e coesão social, e isto não acontece muitas vezes na vida, porque a força de um Município está na sua coesão social, na qual se inclui a coesão territorial, acrescentarei eu.

Este projeto corporiza o que a cidade tem querido ao longo dos últimos sete anos. Há sete anos percebia-se que a cidade devia ter uma política de cultura contemporânea que respeitasse a tradição e o património, e percebia-se que essa cultura deveria ser o vértice e a ligação entre a coesão social e a economia; o desenvolvimento e a criação de emprego”.

“A nossa grande aposta é fazer da cidade, uma cidade mais equilibrada que passa obviamente pela coesão territorial. O projeto do Matadouro consubstancia o pensamento estratégico que preside à reabilitação de uma zona feita com pessoas e para as pessoas. Um projeto transversal que vai resolver antigas ruturas.

O principal objetivo da intervenção é a construção de um equipamento multidisciplinar, de dimensão metropolitana, que tire partido do potencial do local, relacionado com a disponibilidade de espaço, a facilidade de acesso e a proximidade ao centro do Porto e a grandes equipamentos urbanos, como o Estádio do Dragão, o Terminal Intermodal de Campanhã, que está na fase final da sua construção”

E a exclusão a que foi votada, durante décadas, a zona oriental da cidade do Porto é um facto recorrente no discurso do presidente da Câmara do Porto…

“A nossa ideia é estimular a urbanidade dos territórios mais orientais da cidade, aproveitando as sinergias resultantes da concentração de atividades diversas, num espaço único, e potenciando a sua ligação com o tecido social local.

Com esta iniciativa, o Município preserva o património da cidade que está a seu cargo e reforça as oportunidades de atração de investimento público e privado estruturado para uma zona deprimida do ponto de vista económico e social, como é esta freguesia de Campanhã”.

AS TRÊS GRANDES DIMENSÕES PROGRAMÁTICAS

A atual entrada para o Matadouro

E, na cerimónia realizada no passado dia 21 de outubro, ficou a saber-se ainda, por intermédio de Rui Moreira, que “a intervenção que aqui vamos realizar prevê três grande dimensão programáticas: o desenvolvimento da atividade económica, com a consequente criação de emprego; a instalação de valências culturais que coloquem Campanhã, a par das dinâmicas existentes no resto da cidade; e o acolhimento de espaços de dinamização social, relacionados com o tecido social da zona oriental da cidade”.

Desse modo, “o futuro Matadouro deverá ser um equipamento aberto à cidade, e à comunidade, com espaços destinados ao lazer, ao pequeno comércio e à restauração, de apoio ao meio empresarial local, e ao público visitante”.

E o destaque, em forma de agradecimento, à Mota Engil, não se fez esperar.

“O concurso para a reconversão e exploração do antigo Matadouro Industrial do Porto foi adjudicado à Mota Engil, pelo que quero deixar aqui uma palavra de agradecimento ao senhor engenheiro António Mota, ao engenheiro Carlos Mota dos Santos e ao arquiteto Luís Sousa pela aposta que fizeram, pelo emprenho que tiveram e pela paciência pelo tempo que tiveram de esperar. Não posso deixar de transmitir a minha satisfação por ter sido uma empresa nacional, ainda por cima do Porto, a ganhar este concurso e a dar vida a este espaço tão significativo”.

“O investimento de mais de 40 milhões de euros provam bem a importância que a Mota Engil atribuiu a este projeto e saliento que, no final dos trinta anos de concessão, o espaço retornará, então, às mãos do Município.

Uma palavra também muito especial para o fantástico trabalho arquitetónico que foi desenvolvido pelo gabinete do arquiteto Kengo Kuma, em parceria com os jovens da nossa Universidade de Arquitetura.

A “RUA DO PORTO”…E OUTROS PORMENORES DA OBRA

E Rui Moreira voltou a destacar certos e importantes pormenores da obra: “o projeto, além de incluir uma enorme cobertura que ligará o antigo a um novo edifício a ser construído de raiz com presença visível a partir da cota da VCI, destacar-se ainda pela construção de uma ponte de passagem pedonal, por cima da Via da Cintura Interna, criando um impacto visual único a quem circula nesta artéria, e uma rua pedonal que dará acesso à Estação do Metro do Estádio Dragão.

Aqui vai nascer a Rua do Porto, onde a população poderá facilmente aceder aos meios de transporte do Terminal do Dragão através de uma ponte, ou circular pelos projetos de cariz empresarial, social, cultural, galerias de arte, ateliês de arte e de ofício tradicionais.

Numa área de cerca 26 mil metros quadrados, a parceria agora estabelecida vai permitir manter cerca de vinte mil e quinhentos metros quadrados, dos quais 12.500 se destinam a espaço empresarial, e quase oito mil a espaços a serem explorados pelo Município.

Nesse espaço concreto, haverá inúmeras valências como espaço de mais 1700 metros quadrados destinado a depósito de obras de arte, uma extensão da Galeria Municipal, para a qual reservamos mais de 500 metros quadrados.

Teremos ainda um espaço com quase 500 metros quadrados destinados a usos culturais sociais diversos, e quase 1800 metros quadrados para a instalação de uma extensão do Museu da Cidade, para além de outros espaços dedicados à investigação e práticas educativas, espaço de trabalho e de ateliês para artistas residentes na cidade”.

EXECUÇÃO DA OBRA INICIAR-SE-Á EM SETEMBRO DE 2021

Tudo está, assim, pronto para arrancar no próximo ano, já, segundo o presidente da Câmara do Porto, depois de “concluída a elaboração do projeto de execução, em setembro de 2021 iniciar-se-á a empreitada com prazo de conclusão, previsto no contrato, de dois anos”

“Espero, senhor primeiro-ministro, que, nessa altura, possa vir à inauguração e testemunhar o trabalho que aqui fizemos, que todos fizemos, e vamos continuar a fazer. Estou certo que será uma obra icónica, não só da zona oriental da cidade, mas de toda a cidade, da região e do País. O que estamos aqui a construir é um grande impulsionador económico, social, cultural e demográfico das freguesias da zona oriental do Porto, e um polo dinamizador de toda a cidade”.

Já perto da fase terminal da sua intervenção, Rui Moreira salientou a colaboração de António Costa em todo o processo.

“Permitam-me, porque o senhor primeiro- ministro está aqui connosco, que lhe diga que nós não esquecemos aquilo que foi o seu empenho pessoal, e também do senhor Presidente da República, num tempo muito difícil em que parecia que não íamos conseguir, e quando tanto se fala, hoje, na contratação pública; quando se fala e se fazem referências tantas vezes demagógicas a questões do Tribunal de Contas, é bom percebermos o seguinte: é muito importante haver transparência, é muito importante haver forma clara dos cidadãos escrutinarem aquilo que o poder político faz e as empresas fazem, mas é também importante que se dê um salto e se dê um passo em frente”.

A DESCONFIANÇA É INIMIGA DA LIBERDADE! NÃO PODEMOS ENTREGAR O NOSSO DESTINO À DESCONFIANÇA…

mas, antes de terminar, foram muitos as chamadas de atenção, os alertas e os recados de Rui Moreira…

“Numa altura em que a Europa está a tomar medidas para, de alguma forma compensar da pandemia que nos atinge, que é absolutamente impensável que, projetos como este, possam voltar a estar anos e anos na gaveta, para no fim se concluir que afinal estava tudo bem, mas houve alguém que, por acaso, desconfiou. Desconfiar da classe política é destruir a política, é destruir a economia, é destruir a democracia e, no fim, é destruir a liberdade.”

“E é por isso, senhor primeiro-ministro”, continuou Rui Moreira, “que o Porto lhe está muito grato, porque soube interpretar exatamente aquilo que era uma pretensão, que todas as forças políticas da cidade queriam, um projeto altamente escrutinado, que tinha tido um júri que era absolutamente inatacável do ponto de vista ética, da sua independência.

E tudo isto demorou muito tempo. Depois, claro (!), há sempre quem diga «pois, vem aí as eleições, é agora que os políticos fazem isto», esquecendo-se, muitas vezes, que nós passamos mandatos inteiros a tentar fazer aquilo que, afinal, tínhamos dito à população… e que queríamos fazer, estávamos escrutinados para o fazer, e depois não conseguimos fazer porque alguém não deixou”.

Para o autarca tripeiro, “a desconfiança é o inimigo da liberdade. Não podemos entregar o nosso destino à desconfiança! Se nós não confiarmos em nós próprios, não conseguiremos fazer do nosso País um País melhor. Não faremos um País transparente, pois não é assim que se faz um País transparente, já que esse País faz-se através do escrutínio. Nós apresentamo-nos às eleições, temos um mandato e prechiamos de ser capazes de cumprir com esse mandato. O escrutínio sucessivo faz-se obviamente com o recurso à Lei, com o recurso aos tribunais, com recurso a tudo aquilo que são os múltiplos filtros.

Agora, o que não podemos é duvidar de nós próprios. Se duvidamos de nós próprios, um dia deixaremos de duvidar de alguém que mande em todos nós e não seremos nós os eleitos. Obrigado senhor primeiro-ministro e continue assim!”

Findo o discurso… uma enorme salva de palmas da esmagadora maioria dos presentes.

ANTÓNIO COSTA: “ESPAÇOS DESTA NATUREZA SÃO FUNDAMENTAIS PARA PODEREM ACOLHER A FORÇA DE INICIATIVA QUE HOJE EXISTE, E PARA ELA SE PODER PROLONGAR…

“É para mim um momento de grande alegria regressar aqui, a este Matadouro abandonado, depois de aqui ter estado em junho de 2016. E estivemos cá, então, para que a Câmara Municipal do Porto, apresentasse publicamente o projeto que tinha de reconversão deste espaço há muito abandonado, e regenerador do território de Campanhã, e que fosse um local de promoção de atividade cultural, e que fosse também um espaço de empreendedorismo e de inovação”. António Costa, sic.

O primeiro-ministro estava também, visivelmente bem-disposto quando do início, mas também durante e finda a cerimónia, independentemente de extramuros estar a braços com uma difiícl negociação quanto ao Orçamento de Estado.

Bem, mas isso são outras cantigas, pelo que António Costa levou-nos, uma vez mais de regresso ao passado…

“Estávamos, em 2016, a sair de uma crise económica muito profunda, momento em que era, absolutamente, fundamental criar as melhores condições para que o espírito empreendedor pudesse investir; pudesse florescer e pudesse reproduzir.

Com um sinal de forte apoio a este projeto escolhemos, precisamente este local e este momento para apresentar a iniciativa “Portugal Startup”, foi há tanto tempo que contávamos ainda com a energia, a imaginação criativa do João Vasconcelos, então, secretário de Estado da Indústria, e que, infelizmente, nos deixou”.

TEMOS A MISSÃO, EXTRAORDINÁRIA, DE DEVOLVER VIDAS AOS ESPAÇOS QUE, HOJE, ESTÃO ABANDONADOS

António Costa além de se recordar bem do passado – digamos que recente –, também e bem se recorda do local…

“Ao longo destes mais de quatro anos, ansiamos para que este momento da adjudicação desta obra fosse possível, e que este espaço encontrasse de facto uma nova vida. Em cada uma destas vigas estão bem escritas as mensagens do quem se ente perante a falta de vida destes espaços abandonados. A que mais gostei, é a que diz «quantas ruinas sejam para viver, ou trabalhar aqui se contam e onde ficam» e é isso, essa é uma missão extraordinária que temos como, é devolver à vida os espaços que, hoje, estão abandonados e que arriscam a ruína.

Depois de enaltecer a “iniciativa” levada a cabo por Rui Moreira, e dela não ter desistido, António Costa destacou uma outa “iniciativa”, desta feita relacionada com Startup…

“Ao longo destes quatro anos, a iniciativa “Portugal Startup” fez também, e felizmente, o seu caminho. Neste momento temos cerca de duas mil e quinhentas Startup em todo o País, dando emprego a vinte e cinco mil pessoas, mais 67 por cento do número de empregos que as Startup davam em 2016.

E, ao longo destes anos, frutos de ações combinadas, da disponibilização de espaços para o empreendedorismo, o desenvolvimento de redes incubadoras e mecanismos de financiamento, nós pudemos desenvolver um importante ecossistema inovador, empreendedor, que gerou ao longo destes anos três unicórnios em áreas diferentes, como o da moda, como o desenvolvimento de sistemas e de plataformas de contacto”.

PORTUGAL FOI RECLASSIFICADO, PASSANDO À PRIMEIRA LIGA DOS PAÍSES FORTEMENTE INOVADORES DA EUROPA

De acordo com o primeiro-ministro, “Portugal pôde, nos últimos anos, destacar-se na área do empreendedorismo, assente na inovação. Essa é a chave para o nosso desenvolvimento, assente não na concorrência com baixos salários, mas na base do conhecimento e com base na inovação. Ao longo destes anos, foram desenvolvidos mais de vinte e seis laboratórios colaborativos, que fazem a ponte entre o sistema científico e o sistema empresarial.

Este ano, o scoerboard da União Europeia sobre Inovação, Portugal foi reclassificado, passando à primeira liga dos países fortemente inovadores e sendo considerado o décimo segundo país mais inovador da EU. A OCDE, entretanto, e já em maio deste ano, considerou que Portugal era o país que tinha projetos mais inovadores para combater a pandemia da Covid-19”.

PERANTE A CRISE SÓ HÁ UMA ATITUDE: É ENFRENTÁ-LA ATRAVÉS DA CONFIANÇA DE QUE É POSSÍVEL FAZER MAIS E MELHOR

E, como não podia, nem devia, deixar de ser a pandemia fez parte do discurso de António Costa, mas com uma visão positiva para o futuro…

“Passaram estes quatro anos, para a pandemia interromper um ciclo de crescimento económico, onde, pela primeira vez desde o início do século, tínhamos voltado a convergir com a União Europeia. Numa trajetória forte no crescimento do emprego, de diminuição das desigualdades, e da consolidação das nossas finanças públicas. A Covid mudou tudo subitamente, e sabemos que vai demorar tempo até passar a marca desta nova crise. Mas, tal como em 2016, hoje, sabemos bem que perante a crise só há uma atitude: é enfrentá-la através da confiança de que é possível fazer mais e melhor”

“É por isso”, continuou o primeiro-ministro, “que a ironia da demora burocrática administrativa de licenciamento judicial de todo este processo, nos conduziu de novo a um momento em que, tal como em 2016, é absolutamente fundamental dar confiança e acreditar nesta capacidade empreendedora para reconstruir o País.

Felizmente já não temos de fazer tudo a partir do zero, porque a consolidação do ecossistema de empreendedorismo, nos permite, hoje, estar em melhores condições do que estávamos em 2016.

Mas, agora, falta fazer o que ainda não foi feito”.

Assim sendo, António Costa acreditar no projeto do Matadouro, e valoriza-o, e é “com muita satisfação”, diz, “que vejo este projeto arrancar, e arrancar através de uma empresa que já deu todas as provas, no País e no Mundo, de ser uma empresa que agarra as obras e as leva até ao fim. E numa cidade, que ao longo de toda a sua história demonstrou bem que sempre foi Invicta, e que nunca foram as crises, as pandemias, que a derrotaram, muito pelo contrário, soube sempre encontrar a força necessária para poder vencer”.

ESTE PROJETO VAI SER, FORTEMENTE, TRANSFORMADOR DA CIDADE

O chefe do Governo tem, assim, a “certeza, que este projeto vai ser fortemente transformador da cidade, uma âncora para a regeneração urbana para toda a zona oriental, podendo ter um interface excelente com a rede de transportes, seja acionada pela ferrovia, seja pelo Metro do Porto… aqui na vizinhança do Estádio do Dragão. Será seguramente um grande polo de dinamização cultural e será também um novo espaço de empreendedorismo e de inovação.

E é para esse esforço que temos de continuar a trabalhar e apoiar. E é por isso que, no conjunto dos próximos anos, vamos dispor, quer de recursos financeiros no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência, para podermos investir em habitação; para podermos desenvolver a rede de Metro do Porto; para desenvolvermos projetos de dinamização da cidade… mas vamos também ter uma verba importante destinada a desenvolver a rede nacional dos UBS Inovadores de forma a fortalecer ainda mais esta dinâmica de empreendedorismo e de inovação”.

E António Costa valoriza e mostra-se, extremamente satisfeito com um facto que dá, sem dúvidas, esperanças a Portugal. Trata-se realmente de um facto:

“Temos este ano letivo, o maior número de alunos a entrarem para o Ensino Superior e, como tenho dito, este é o maior sinal de confiança que os portugueses podiam ter no futuro do País, que, mesmo neste ano de crise, de enorme incerteza, ter sido o ano em que se bate esse recorde. Isso significa que este fluxo de qualificação da nossa populaça, das novas gerações, é fluxo que continua. E que temos de saber aproveitar esse fluxo, esse capital, essa riqueza, esses recursos humanos que o País está a formar, e que a única forma de o fazer é sermos capazes de criar mais e melhor emprego, que não leve esta geração a partir, mas escolher ser aqui, no nosso País, nesta cidade do Porto, que decidirão desenvolver e construir a sua vida”.

QUANDO O TRATAMENTO SURGIR; QUANDO A VACINA CHEGAR… TEMOS DE ESTAR PREPARADOS PARA APROVEITAR A RECUPERAÇÃO ECONÓMICA QUE TEMOS DE EMPREENDER

Enquadrando tudo o que atrás referiu no projeto do Matadouro, António Costa referiu que “espaços desta natureza são fundamentais para poderem acolher essa força de iniciativa e para ela se poder prolongar. Sabemos bem que é também importante criar um ambiente favorável à inovação e, por isso, até ao final do ano aprovaremos o Quadro Legal para a Criação das Zonas Livres Tecnológicas, de forma a poder criar, em parceria com os municípios, em zonas adequadas, espaços de experimentação tecnológica, para iniciativas inovadoras, como por exemplo, os carros autónomos, como a rede 5G que tem rapidamente que ser desenvolvida e implementada no nosso País”.

Para o primeiro-ministro, “é criando este quadro legal, amigo da inovação, é criando meio financeiros que incentivem, é criando iniciativas como esta do Município do Porto, que o país pode encarar com confiança o futuro e acreditar na sua recuperação.

Quando o tratamento surgir, quando a vacina chegar temos de estar preparados para aproveitar a recuperação económica que temos de empreender, sabendo que tudo aquilo que fez do Porto um grande destino turístico, que fez de Portugal um país fortemente inovador, que fez a nossa juventude fortemente empreendedora. Tudo isso está cá, só que está confinado. Mas, a partir do momento em que nos libertemos deste confinamento deixemos florir essa energia e demos novos passos; novas vidas a estes espaços para acolherem mais trabalho, mais vida que é isso que todos nós precisamos”

TÍVEMOS (António Costa e Rui Moreira) QUE NOS APOIAR EM DESABAFOS MÚTUOS DURANTE AS DIFICULDADES QUE IAM SURGINDO, MAS A VERDADE É QUE, HOJE, CHEGAMOS AQUI, A ESTE PONTO!

E a terminar a sua intervenção, António Costa relembrou o momento mais díficl do processo relativo ao Projeto do Matadouro, que é como quem diz e é verdade, o chumbo por parte do Tribunal de Contas.

O primeiro-ministro também não ficou satisfeito com a situação, mas, pronto, são como que coisas do passado.

“Sei bem que esta luta foi difícil. Que tivemos que nos apoiar em desabafos mútuos durante as dificuldades que iam surgindo. Tivemos que puxar pela imaginação legal para ultrapassar e vencer as barreiras que iam surgindo, mas a verdade é que, hoje, chegamos aqui, a este ponto. Demoramos mais de quatro anos, mas levaremos muito menos do que isso para podermos estar aqui a poder inaugurar esta obra”.

E finalizou sendo brindado, tal como Rui Moreira, com uma grande salva de palmas.

Quatro anos. Um projeto. Muitas contrariedades. Muitas lutas. Mas, ao fim, e ao cabo, e depois do cabo (… das Tormentas), eis que os trabalhos para a construção de um espaço único na cidade Invicta vão começar para dar uma nova vida à zona oriental, desprezada que ela sempre foi durante décadas, câmaras e câmaras…

O “Etc e Tal” sempre acompanhou de perto o evoluir de todos os acontecimentos relacionados com este projeto, assim como todos os que valorizaram, valorizam e valorizarão a zona oriental, deixando para si, em especial, as imagens que se seguem, e que são do nosso arquivo, mais ou menos, recente…

Kengo Kuma, o arquiteto, autor do Projeto do Matadouro

Como se encontra atualmente o “Matadouro” – Foto: Mariana Malheiro
O Presidente da República de visita ao Matadouro, em janeiro de 2019 (foto: Miguel Nogueira)
Foto: Miguel Nogueira (Porto.)
Foto: Miguel Nogueira (Porto.)
Foto: Miguel Nogueira (Porto.)
Executivo camarário e autarcas em força, contra o chumbo do TdC (foto: Miguel Nogueira)

Venham daí as obras! Carago! Ganhámos! – terá dito alguém (foto: Miguel Nogueira)

Ficam os registos, para sempre se recordar! Agora, faltam as fotos do decorrer das obras, e da sua inauguração.

 

01nov20

Partilhe:

1 Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.