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O Natal Alegre de um Menino Triste

Cristóvão Pimenta

 

Simeao vivia num país longínquo, onde as neves, vindo o Inverno, cobriam tudo até ao fim da Primavera. Os primeiros flocos caídos provocavam-lhe uma imensa tristeza. Até gostava de toda aquela brancura. Sonhava muito enquanto construía e moldava os seus heróis, enterrando os seus deditos gelados, apesar de protegidos por grossas luvas, naquela preciosa matéria-prima. Esse tempo de brancura pueril anunciava o Natal. O aperto no coração ficava mais intenso. Já há muitos anos que, especialmente no Natal, não sentia o colo da mãe e o aconchego dos abraços fortes do pai, quando noite adentro bebia o leite achocolatado que apressadamente a mãe lho preparava, metendo-o de imediato na cama.

O pai de Simeão andou em batalhas que os senhores das guerras entendiam que tinham de fazer para defender petróleo, diamantes, propriedades e interesses mesquinhos. Tais como sustentar alarvemente as indústrias da guerra. Guerras até onde entendiam ter de libertar outros povos do jugo da opressão. Estranhamente ganhavam as guerras e logo de imediato outros títeres – surgidos de processos eleitorais com fidedigna supervisão internacional, para dar credibilidade aos morticínios seguintes – adotavam práticas piores que as antigas. O pai de Simeao calcorreava mundos. Tinha espírito guerreiro e um prazer mórbido de matar e massacrar. Para além disso os salários de guerrear eram interessantes.

De um momento para o outro a paz fez-se em muitos sítios. O pai de Simeao ficou sem emprego. O regresso ao seu país de origem era-lhe penoso. Muitos lhe conheciam e não apreciavam a sua forma de viver. O país estava mal…emprego era escasso e o que havia era mal pago. Decidiu-se continuar a estar em terras estranhas, que lhe garantia bem-estar.

A mae de Simeao, que nunca sabia com que dinheiros contar vindos do pai, esgotava energias em tarefas e trabalhos vários. Sempre mal pagos e em situação de permanente precariedade. Saía de casa por volta das sete horas e regressava depois das nove da noite. Esgotada, sem tempo para mimar Simeão.

Simão refugiava-se na parafernália de instrumentos sofisticados que os pais lhe davam. Nos aniversários, nas festas grandes, a qualquer momento tudo para o compensar das suas ausências. Era o MP 3, o MP 4, o Iphone, o Ipad, a TV Led Hbi, a consola de jogos, o computador, o telemóvel. Enfim o seu quarto era um mundo de tecnologia que o poria em contacto com o Mundo, até com o pai, através do Messenger ou do Skype. Mas Simeão entristecia cada vez mais. A ausência do calor dos pais junto do si deprimia-o. Tudo aquilo era interessante, mas nao tinham, cara, olhos e essencialmente coração. Ah! E eram frios.

Neste Natal a situação tinha piorado. As renas adoeceram todas. Os trenós parados porque as Huskies e os São Bernardos tinham feito greve, por melhor alimentação e condições de trabalhos dignas. As outras pessoas andavam atarantadas, pois não percebiam o que se passava no país. Faltava magia.

Próximo da noite de Natal, deambulando na neve que circundava a sua casa, encontrou três idosos com ares de sábios. Como o viram triste perguntaram-lhe a razão de tanta tristeza, pois poderiam resolvê-la. Afinal há muitos, muitos anos, percorriam grandes distâncias guiados por uma estrela procurando um Menino que traria alegria a toda a Humanidade. E nessas viagens, para além de levaram prendas para entregar a esse Menino que nasceria de vinte e quatro para vinte e cinco de Dezembro, também satisfaziam desejos a todos que iam encontrando na sua jornada.

Perguntaram a Simeão qual o presente mais desejado para receber na noite de Natal. Respondeu muito simplesmente que queria ter o pai e a mãe junto a ele nessa noite e nada mais. Os sábios estranharam a sua resposta, perguntando-lhe se já não os tinha. Disse que sim. Então ótimo, disseram – pensaram até que já tinham morrido – se os teus pais estão vivos, quererás com certeza uma prenda bonita totalmente diferente das que já tens.

E Simeão, com as lágrimas nos olhos, disse-lhes que já não se lembrava do pai, tinha saudades do roçar da sua face de barba farta no seu rosto. Dos seus abraços, e do seu hálito de homem adulto. E da mãe também. Queria voltar ao seu colo, sentir na cara o calor dos seus seios e as mãos a cofiarem os loiritos caracóis.

Os sábios insistiram com Simeão: mas então não há mesmo nada que queiras, para brincar, um poney, uma bicicleta, uma televisão nova… . Não e não, respondeu Simeão já muito irritado, com baba e o ranho a inundar-lhe o rosto e repetindo soluçando: eu só quero o meu pai e a minha mãe. Sendo assim os sábios, embora tristes, continuaram a sua jornada, deixando Simeão sozinho, confundindo-se na neve.

Regressou a casa. Ao abrir a porta ouviu barulho de tachos. Assustou-se. Armou-se de uma vassoura e pé ante pé foi entrando silenciosamente e surpreendeu-se ao ver a mãe a cozinhar, muito airosa e bonita como ele nunca vira. Chegou-se a ela, abraçou-a violentamente e ela cobriu-o de beijos como antes nunca tinha feito. Esteve tempos infindos à sua volta, aspirando-lhe o perfume e alimentando-se da sua presença. Passado algum tempo, sentiu alguém atrás de si. Ato imediato duas mãos lhe taparam os olhos. Eram mãos de homem, calejadas, O seu corpo foi inundado por odores que bem conhecia e deixou-se ir inebriado num forte abraço masculino. Oh, pai… és tu? Que bom! Estás diferentes disse-lhe. E o pai respondeu-lhe: também tu meu filho e eu perdi tanto do teu crescer. E choraram os três fortemente abraçados.

Olhou para o calendário e só então percebeu que aquele momento era o início da melhor noite de Natal que iria ter e que outros prendas não queria.

 

15dez20

 

 

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