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Das teorias da conspiração

António Pedro Dores

 

Circulam teorias sobre uma conspiração paga pelo Bill Gates para usar a Organização Mundial de Saúde (OMS) como instrumento para o controlo do mundo e seu enriquecimento pessoal, inventando uma pandemia. O que faz da Terra e da humanidade um gigantesco laboratório dirigido por meia dúzia de pessoas servidas por alguns milhares de gestores de fortunas sem escrúpulos e milhões de otários profissionais, apoiados por militares e polícias que esmagam qualquer oposição que escapa ao trabalho de propaganda organizado entre as escolas, as universidades e a comunicação social, incluindo as redes sociais em que se debita tudo ou quase tudo quanto se queira.

As teorias negacionistas dizem que não há pandemia ou/e não há vírus. É tudo mentira. O sucesso destas teorias deve-se ao facto de, em 2003, o presidente norte-americano e os primeiros-ministros de Espanha, Reino Unido e Portugal terem mentido ao mundo sobre armas de destruição maciça que existiriam no Iraque para justificar entrarem numa guerra sem inimigo determinado nem fim à vista. De então para cá, os drones matam sem controlo e aos eleitores norte-americanos são regularmente oferecidas presas, como Sadam ou Bin Laden ou Soleimani, para júbilo geral do país onde foi anunciada a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O problema da guerra não é um acto isolado que se esgota em sim mesmo. É uma decisão de organizar a guerra como forma de dominar qualquer oposição ou dissidência, interna ou externa, ao rumo determinado por esses dirigentes e quem se lhes seguiu. A declaração de guerra foi também uma declaração de medo, muito medo de algo indefinido, mas que se apresenta como letal.

O sucesso das teorias da conspiração deve-se ao estado de guerra em que entrámos, desde então. Na década seguinte, a União Europeia lançou uma campanha xenófoba contra os países do Sul, os PIGS, para justificar a imposição do resgate pelos contribuintes ao sistema financeiro global falido. Durante um pequeno período discutiu-se se as crises do capitalismo eram, afinal, incontroláveis mesmo por sistemas robustos de controlo político e social, cientificamente regulados, instalados no pós-guerra. O presidente francês disse que era preciso refundar o capitalismo, seguido pelo Economist. De facto, partidos belicistas e racistas começaram a aparecer e a tomar o poder por todo o mundo, sobretudo a partir de 2015, em cujo verão a Europa reprimiu, com o apoio da Turquia, uma forte vaga de imigração vinda da martirizada Síria. Galardoada com o prémio Nobel da Paz em 2012, em 2015 a União Europeia mereceu uma crítica singular da ONU por violação intencional e massiva dos direitos humanos (calcule-se a gravidade do que aconteceu e continua a acontecer, sobretudo na Grécia).

Tal como aconteceu com Obama, também galardoado a priori com o mesmo prémio, o incentivo do Nobel não foi suficiente para contrariar os abusos de poder organizados pelos dirigentes do mundo democrático, em nome da guerra de civilizações e das finanças sãs. Os movimentos neo-nazi-fascistas são consequências directas de tais perspectivas políticas belicistas e anti-humanitárias, ainda que Bush e Merkel não gostem e repudiem os resultados das políticas que protagonizaram. Do mesmo modo que Sadam e Bin Laden foram criações das políticas anti-iranianas e anti-soviética dos EUA, os Trumps, Bolsonaros e a internacional animada por Steve Bannon são efeitos nada colaterais de várias décadas de globalização: um desastre global.

A economia ocidental tem crescido apenas nos mercados financeiros e tem estagnado e, portanto, regredido na vida das pessoas comuns. O trabalho filantrópico de Bill Gates dirigira-se, há anos, para explorar o sector da saúde. O problema é como resolver os principais problemas de saúde da humanidade e fazer dinheiro com isso, isto é, tornar sustentáveis, ao mesmo tempo, o capitalismo das redes, de que ele foi um dos principais artífices, e a filantropia a que se dedica com os dinheiros arrecadados pelos seus sucessos empresariais. Informou o mundo da sua descoberta de haver um desafio/oportunidade especialmente importante: as pandemias. Ninguém se dedicava a prevenir um evento catastrófico como esse. Os custos previsíveis da prevenção são astronómicos: se não o fossem, o próprio Gates investiria nisso. O problema, portanto, foi como financiar essa actividade preventiva.

Curiosamente (ou talvez não) esse problema é o mesmo em muitos outros sectores de actividade. No sector criminal, por exemplo, os investimentos são praticamente todos dirigidos para aplicação (quase sempre ilegal) das penas, como nas prisões, mesmo em países, como Portugal, em que a lei prevê apenas um trabalho de ressocialização dos condenados que, porém, não é realizado. Também no sector da educação, embora estejam bem claros os efeitos discriminatórios do abandono escolar e da iliteracia (as falsas aprendizagens), todas as políticas investem quase só em gestão de edifícios, programas, professores e estatísticas de avaliação. Na saúde igualmente, as actividades preventivas são diminutas se comparadas com as necessidades e são terceira prioridade, atrás da cura de doentes e da gestão de edifícios, doentes e profissionais de saúde. Extraordinariamente (será para corresponder aos avisos de Gates?) a anunciada pandemia COVID-19 parou a sagrada economia mundial por decisão política de quase todos os governos do mundo.

Não houve nenhuma mudança de política que passasse a dar prioridade geral às tarefas preventivas na guerra, na educação, na saúde, na justiça ou noutro sector. Ao contrário: preparam-se as sociedades para fazer a guerra contra o vírus, uma tarefa tão impossível e indefinida como a guerra eterna declarada em 2003 ou a refundação do capitalismo de modo a que ele deixe de ser ganancioso. Estão, portanto, continuadas as condições políticas estruturais para os partidos e movimentos neo-nazi-fascistas – “vamos partir isto tudo!” – financiados por multimilionários que não sabem o que fazer ao dinheiro, apoiados pela comunicação social falida e arrastada pela raiva que se expressa nas redes sociais, satisfazerem os sentimentos de retaliação contra o mundo que cada vez mais gente desesperada vive.

Em tais circunstâncias, há que reconhecer o sentido de “partir isto tudo!” e dar-lhe uma direcção preventiva, que é mais económica do ponto de vista dos estragos humanos e materiais, em vez de uma direcção de “salve-se quem puder” neo-nazi-fascista. O problema é que a democracia, afinal, quando mais é precisa está bloqueada pelos partidos dependentes de fundos dos estados que organizam os mercados para darem liberdade aos políticos e empresários (dominados pelos que circulam nas portas giratórias), criando uma impunidade para esses e uma punitividade para os outros, a que devemos acrescentar a violação organizada de direitos para os que se coloquem no caminho, como Manning, Assange, Snowden e toda a lista de outros dissidentes menos conhecidos.

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Web

01fev21

 

 

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