Menu Fechar

Poesia no Elevador

Carmen Navarro

 

Num elevador tudo pode acontecer… subimos e descemos, muitas das vezes até usamos todos os dias, mais que uma vez ao dia e nem damos conta da preciosa ajuda dessa caixinha que nos poupa muito esforço e tempo. Os elevadores fazem parte da nossa vida, e se falassem certamente contavam muita coisa interessante…

Na maioria das vezes partilhamos um pequeno espaço com desconhecidos, que nem dizem o elementar bom dia, boa tarde ou boa noite e ali ficamos confinados segundos enquanto a maquineta ou sobe, ou desce, ou vai parar, para mais um outro entrar, e por vezes acontecem cenas hilariantes, ou embaraçosas, enquanto o tempo passa, disfarçadamente se observam pormenores de com quem se viaja na vertical, e o nosso pensamento fica ocupado e voa, há quem leia o que vai no quadro de avisos, coisa que já foi lida dezenas de vezes, ou dê uma espreitadela ao espelho.

E se num daqueles quadros existentes nos elevadores colocássemos um poema que seria renovado com periodicidade. Talvez trouxesse um pouco de alegria e sonho às nossas vidas que usamos a maquineta.

Os elevadores

são pequenos
espaços justos,

outros largos,

outros utilitários,

outros elevadores,

são requintados,
estofados de sonhos.
Os elevadores

são torres

que nos levam

a viajar na vertical,

os elevadores

sobem, sobem,

podiam ir até ao céu,

atravessar

nuvens de sonhos,

e descer, descer,

com o calor

de um belo olhar!…

C.Navarro

A humanidade engendrou um sistemas de roldanas básico e fez elevadores rudimentares que serviam para elevar pratos como refere Eça de Queiroz no seu belíssimo romance “ A Cidade e as Serras” do fim do século XIX . Até que se chegou aos elevadores super modernos.

Tenho uma curiosidade que certamente desconhece!…

A Cidade do Porto teve o seu primeiro elevador domestico, e talvez um dos primeiros em Portugal no século XIX em 1850. Esta maquina maravilhosa funcionou no numero 80 do Largo de S. Domingos, esta casa era na época uma das mais altas da cidade, cinco andares.

O seu proprietário José Gaspar da Graça negociante  e tido como capitalista, homem elegante, que se mexia bem na alta finança tinha Comercio de papelaria e confeções muito bem frequentado no rés do chão deste prédio que era também a sua habitação e da família, foi também Escrivão do Tribunal do Porto, gostava de viver numa certa opulência e comodidade, ter que subir e descer tantos andares não era coisa muito interessante, e mandou construir um elevador que não era mais que uma caixa de madeira que só dava para uma pessoa e se movimentava por roldanas e a força braçal, tinha um travão que podia ser acionado também no interior para poder parar nos andares.

Foto de “O Tripeiro”

Pouca utilidade teve porque as pessoas tinham medo da andar na maquineta e assim passado um século se tornou peça de museu pelo querer  de Manoel Francisco de Araújo Júnior da  Papelaria Araújo & Sobrinho que o ofereceu ao Museu Etnográfico e Historia do Porto.

Museu que hoje não existe, se situava no Palácio de S. João Novo. Edifício maravilhoso de Estilo Urbano Barroco dos finais do século XVIII. Projeto de Nicolau Nazoni ou do Mestre Arquiteto António Pereira. Um incêndio em 1984 potenciou a sua degradação.

O acervo do Museu está depositado em diversos Museus para sua conservação e guarda. Muito Lamento que já não exista, faz falta na cidade do Porto um Museu Etnográfico em que os riquíssimos usos e costumes da região estivessem representados.

Algumas fotos de elevadores antigos de referencia da cidade Porto

Elevador da Ribeira

Elevador dos Guindais

Elevadores da Ponte da Arrábida

Vamos ver alguns dos poemas que poderiam ser afixados nos elevadores…

No elevador pode acontecer uma fala…

 

Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões
Poeta do movimento surrealista português.

Nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa,
Faleceu a 21 de agosto de 1986, em Lisboa

 

Fala

Fala a sério e fala no gozo

Fá la pela calada e fala claro

Fala deveras saboroso

Fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração

Falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá la bem

Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala francês fala béu béu

Fala fininho e fala grosso

Desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar

Fala com elegância muito e devagar.

Alexandre O’Neill

 

António Tomás Botto

Poeta, contista e dramaturgo

Nasceu a 17 de agosto de 1897, em Concavada (Abrantes)

Faleceu a 16 de março de 1959, no Rio de Janeiro

 

Se Me Deixares, Eu Digo

Se me deixares, eu digo

O contrario a toda a gente;

E, n’este mundo de enganos,

Falla verdade quem mente.

Tu dizes que a minha boca

Já não acorda desejos,

Já não aquece outra boca,

Já não merece os teus beijos;

Mas, tem cuidado commigo,

Não procures ser ausente:

– Se me deixares, eu digo

O contrario a toda a gente.

António Botto, in ‘Canções’

 

Florbela  d’Alma da Conceição Espanca, batizada como Flor Bela Lobo,

Poeta e Jornalista

Nasceu a 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa

Faleceu a 8 dezembro de 1930 em Matosinhos

 

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde,

Que em todos os namorados

Uns amam muito, e os outros

Contentam-se em ser amados.

 

Fico a cismar pensativa

Neste mistério encantado…

Diga prá mim: de nós dois

Quem ama e quem é amado?…

Florbela Espanca

Olha para mim, amor, olha para mim;

Meus olhos andam doidos por te olhar!

Cega-me com o brilho de teus olhos

Que cega ando eu há muito por te amar.

Florbela Espanca

 

Fernando António Nogueira Pessoa

Poeta, dramaturgo, ensaísta, tradutor…

Nasceu a 13 de junho de 1888 em Lisboa

Faleceu a 30 de novembro de 1935

 

Eu amo…

Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já me não dói

A antiga e errónea fé

O ontem que a dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

 

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

 

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage

Poeta do Arcadismo Lusitano

Nasceu a 15 de setembro de 1765 em Setúbal

Faleceu a 21 de dezembro de 1805 nas Mercês em Lisboa

 

Morrer é pouco, é fácil; mas ter vida

Delirando de amor, sem fruto ardendo,

É padecer mil mortes, mil infernos.

Bocage

 

António Fernandes Aleixo

Poeta popular e cauteleiro

Nasceu a 18 de fevereiro de 1899 em Vila Real de Santo António

Faleceu a 16 de novembro de 1949 em Loulé

 

Esta mascarada enorme

com que o mundo nos aldraba,

dura enquanto o povo dorme,

quando ele acordar, acaba.

Porque o povo diz verdades,

Tremem de medo os tiranos,

Pressentindo a derrocada

Da grande prisão sem grades

Onde há já milhares de anos

A razão vive enjaulada.

António Aleixo

 

Não me deem mais desgostos

porque sei raciocinar…

Só os burros estão dispostos

a sofrer sem protestar!

António Aleixo

 

Para não fazeres ofensas e

teres dias felizes,

não digas tudo o que pensas,

mas pensa tudo o que dizes.

António Aleixo

 

Fotos: Pesquisa Google

 

 

01fev21

 

 

 

 

 

Partilhe:

1 Comment

  1. Anónimo

    Gostei muito desta sua colaboração. Aliás, leio-as sempre com muito gosto. Desta vez, abordou um tema muito curioso, falando de elevadores. Um abraço muito amigo. Saudades.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.