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As Fontes e Chafarizes do Bonfim (4) – A Arca de Água de Mijavelhas

Maximina Girão Ribeiro

 

Desta vez, venho convidar-vos para visitarem e conhecerem melhor alguns dados sobre a existência da Arca de Água de Mijavelhas. Este elemento patrimonial não se encontra na rua, como outrora, mas localiza-se num patamar da Estação de Metro do Campo 24 de Agosto, no chamado mezanino da estação, desde a altura em que se procedeu às obras da linha A. Resgatou–se, assim, para a memória dos portuenses e visitantes, este vestígio histórico que se mantinha soterrado há muitos anos e que foi reconstituído, pedra por pedra, com uma criteriosa catalogação e numeração de todas as peças existentes. Desta forma, as ruínas encontradas durante as escavações ficaram expostas para que todos as possam apreciar.

Arca da Água, vista de cima, na estação de Metro do Campo 24 de Agosto

O Poço ou Arca de Água de Mijavelhas trata-se de um reservatório de água, captada  de mananciais, como o do Campo Grande. Foi construído no século XVI e situava-se no então Campo de Mijavelhas, o actual Campo 24 de Agosto, num terreno que era pertença da Quinta do Reimão.

Este topónimo “Mijavelhas” remete-nos para uma designação muito antiga relacionada, segundo parece, com o facto de as mulheres que vinham de Gondomar e de Valongo aí se “aliviarem”, antes de começarem a vender, no Porto, respectivamente os produtos hortícolas e o pão. O referido topónimo era já vulgar em 1385, segundo as palavras de Fernão Lopes, autor da “Crónica d’el-rei D. João I”, onde refere que “[…] em Mijavelhas  era copiosa a água de uma nascente […]”. Acrescenta que essa fonte devia ser de chafurdo, ou seja, era uma fonte em que se tirava a água por imersão da própria vasilha, portanto, uma fonte de mergulho, provida de dois tanques.

O historiador Carlos de Passos (Porto 1890 – Porto 1958) cita um documento do século XVII segundo o qual o nome “[…] resultaria de serem mulheres velhas, as antigas lavadeiras”. Seja como for, o nome pitoresco, ou até brejeiro, perdurou durante muito tempo, sendo alterado pela Câmara do Porto, através do edital de 1 de Agosto de 1860, publicado pelo Governo Civil, com a finalidade de homenagear a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820.

O aproveitamento da água da nascente, permitia a quem por ali passasse poder saciar-se e assear-se no chafariz, depois arca d’água, mas também, aliviar-se por entre a frondosa vegetação de castanheiros e nogueiras, por aí existente em tempos remotos.

Campo 24 de Agosto antes de eclodir a explosão industrial

Este arrabalde da cidade, dizem documentos antigos que esse regato serviu, “[…] durante longos anos, de limite oriental do concelho do Porto […]” era atravessado pelo Caminho para Valongo e Amarante, movimentando-se, por aqui, muita gente, desde os aguadeiros e as aguadeiras,

Aguadeiro
Aguadeiras esperando por sua vez

as lavadeiras que recolhiam nas casas particulares a roupa que lavavam nuns tanques adjacentes à chamada Fonte do Poço das Patas. Também por lá circulavam muitos operários da fábrica de tecidos de seda e algodão, até às muitas pessoas que acorriam às feiras do gado que, desde 1833, se realizavam neste local. Pelo final do séc. XIX, aí tinham lugar, segundo a descrição de Carlos de Passos “[…] a antiga feira de S. Lázaro, criada em 1720, com barracas de comes e bebes, de ourivesaria e quinquilharias, de diversões populares, gigos de regueifas de Valongo, tabuleiros de doces de Paranhos […].”

Em 1700, com as grandes alterações realizadas neste local, a Câmara do Porto mandou construir uma ponte sobre o curso de água, a chamada Ponte do Poço das Patas. Essa ponte está soterrada, perto da actual Junta de Freguesia do Bonfim. Mais tarde, dado o espaço desta zona ser alagadiço e ao assoreamento, por ser cruzado pelas águas de várias nascentes, de riachos e ribeiras, levou ao soterramento do poço das Patas, nome este que lhe advém do facto de, por aí, existirem muitos patos, nessas águas. O assoreamento acabou por determinar a subida do chão, na envolvente da arca d’água. Pelo ­final do séc. XVIII, o vale da ribeira tinha praticamente desaparecido e, com a expansão urbana do burgo, procedeu-se ao aterro e nivelamento do chão, já em meados do séc. XIX, em 1850.

A arca que é tema deste artigo, proporcionava o abastecimento de água às populações para consumo caseiro, para regar os campos de cultivo, ou fazer mover as mós dos moinhos que existiam perto da Quinta do Prado, propriedade do Bispo Porto, nas proximidades da encosta do Monte do Seminário, por onde essas águas se despenhavam até entrarem no rio Douro. Além disso abastecia, ainda, a fonte da rua Chã.

Antes da vulgarização da água canalizada, aí se abasteciam as populações, se não possuíssem poços, nos quintais, ou nos campos, bem como os aguadeiros, maioritariamente galegos e as aguadeiras, ambos se encarregavam do serviço de vender água na rua ou levá-la às casas particulares. Pelo menos, até Março de 1882, para a maior parte dos portuenses o procedimento quanto à água era este. Mas, a partir daquela data, foi assinado um contrato para abastecimento de água ao domicílio, entre a Câmara e a Compagnie Général des Eaux pour l’Etranger. Assim, os mais abastados passaram a ter água canalizada, em casa e, muito lentamente, a canalização foi-se generalizando.

Como já referimos, a Arca de Mijavelhas foi recuperada, aquando das escavações para o Metro do Porto, durante a construção da Estação de 24 de Agosto. A arca, onde se armazenava a água, é constituída por um poço com mais de seis metros de profundidade.

Arca de Água

 Na arca foi encontrada, na galeria a Poente e na parede Nascente, uma pedra com as armas reais, brasão que está gravado no frontispício de uma das paredes. Serão estas as armas a que se refere um livro manuscrito, arquivado nos serviços das Águas Municipais, o qual refere na folha 52 que “[…] pela câmara, em 22 de Setembro de 1548, com o foro anual de 160 réis estava incluído este terreno como pertença da Quinta do Reimão e era nele que existia a referida fonte (Manancial de Mijavelhas), metida numa arca que tinha em cima as armas reais, sinal bem claro de pertencer à cidade […]”?

Brasão de Armas

 Trata-se de um escudo do tipo dito Peninsular, com sete castelos, três deles na parte cimeira, dois de cada um dos lados laterais e dois na parte inferior. Supõe-se que o brasão esteja incompleto pois poderia ter tido, a encimá-lo, uma coroa. Apresenta uma curiosa pedra, onde está gravada a letra P (de grande dimensão), que se pensa ser a inicial da palavra “Porto”.

 

A misteriosa letra “P”
estado actual da Arca de Água na estação de Metro do Campo 24 de Agosto

A arca era coberta por uma abóbada de berço, existindo também dois tanques fronteiros, com dois muretes de cantaria encaixados nas quebras da superfície rochosa e levantados perpendicularmente entre si.

Ao longo dos tempos esta velha arca de água de Mijavelhas, que remonta à Época dos Descobrimentos Portugueses, foi conhecida por diversos nomes, como Fonte das Velhas, ou do Poço das Patas. Será porventura o mais antigo reservatório de água da cidade que abastecia a parte mais antiga e nobre do velho burgo do Porto: os morros da Pena Ventosa e da Cividade.

Neste espaço da estação do Metro de 24 de Agosto, destaca-se uma intensa circulação de transeuntes anónimos que, nem sempre têm oportunidade de parar e observar o que está à sua volta, sobretudo descodificar o mural / linha cronológica da vida deste equipamento urbano, pertencendo ao passado da cidade. Este sítio arqueológico, bem preservado, relata um fragmento da História do Porto.

 

 

Fotos: Arquivo e pesquisa Web

 

01jun21

 

 

 

 

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1 Comment

  1. Maria José Neves

    Maravilhosa descrição sobre o aparecimento da Arca de Água de Mijavelhas, relata bem um dos momentos históricos da nossa Cidade do Porto!
    Obrigada, pela partilha!

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