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As Fontes e Chafarizes do Bonfim (6) – Fonte de Nossa Senhora de Vandoma

Maximina Girão Ribeiro

 

A fonte a que hoje nos referimos, é mais um chafariz do que uma fonte, porque não capta mais a água de uma nascente – é a Fonte de Nossa Senhora de Vandoma que é também conhecida por Fonte do Museu Militar, por estar enquadrada no edifício que, na actualidade, é ocupado por esta instituição militar. Trata-se de um imóvel com uma certa ancestralidade, tendo em conta a data inscrita por cima da porta da capela, anexa a esta casa e que ostenta a seguinte inscrição: “Esta capella mandou fazer o Capitão Mathias Alves Ribeiro, anno de 1724”.

Fonte de Nossa Senhora de Vandoma no Museu Militar do Porto

Recorrendo à obra do padre Agostinho Rebelo da Costa este regista que existiam, neste local, em finais do século XVIII, duas quintas, cada uma na posse de dois irmãos de apelido Guimarães. Com o decorrer dos tempos as propriedades foram passando por vários proprietários que foram introduzindo múltiplas alterações ao edifício, sobretudo em finais do séc. XIX, quando se procedeu a uma reconstrução, pretendida pela proprietária dessa altura, D. Maria Coimbra. Outras ocupações teve o edifício pois, em 1945, o Estado alugou-o para ser aí instalada a PIDE/DGS, acabando o imóvel por ser comprado pelo Estado, em 1948. Após a revolução de 25 de Abril de 1974 e o desmantelamento das organizações que foram a base do regime salazarista, o edifício foi entregue ao exército, com a finalidade de nele se criar um Museu Militar.

A fonte a que nos referimos, não foi especialmente criada para o lugar onde se encontra: num pátio, nas traseiras do edifício do Museu Militar, na rua do Heroísmo. Inicialmente esteve localizada na rua do Almada, a artéria que imortaliza o Governador de Armas do Porto, João de Almada e Melo, o político que gizou um verdadeiro plano urbanístico para o Porto. Depois, quando já não se justificava a presença da fonte na rua, esta foi deslocalizada.

A rua do Almada chegou a ter duas fontes, produzidas pela mesma altura, uma construída à custa do Senado da Câmara, outra por iniciativa de um particular que necessitava de uma porção de água para abastecimento de sua casa. É exactamente esta segunda fonte que esteve encaixada entre dois edifícios que, hoje, se encontra no Museu Militar, depois de ter estado, por muitos anos, na Quinta do Barão de Nova Sintra (SMAS). Em boa hora, a sua deslocação para o Museu Militar, foi verdadeiramente uma melhoria para um espaço que estava vazio e austero.

Medalhão com a Nossa Senhora de Vandoma

Esta fonte granítica apresenta um ar sóbrio. No seu espaldar, rematado por um frontão curvo, salienta-se uma espécie de medalhão amendoado, ostentando Nossa Senhora de Vandoma que segura ao colo o Menino Jesus. Esta figura é ladeada por duas torres amuralhadas. O medalhão é superiormente rematado por um laço que, dos lados, assinala a expressão latina “CIVITAS VIRGINIS”, um dos títulos que mais enobrece a cidade do Porto: “Cidade da Virgem”.

Brasão do Porto com a Nossa Senhora de Vandoma

Esta referência remete-nos para a tradição de uma devoção mariana, na cidade e do culto a Nossa Senhora de Vandoma que tem origem num episódio, ocorrido por volta do ano 990, no período da Reconquista Cristã da Península Ibérica, que ficou conhecido como a Armada dos Gascões. A ocorrência terá surgido na altura em que um nobre deste território peninsular, dom Munio Viegas liderou uma armada de cavaleiros, originários da Gasconha (região no sudoeste da França)  que, ao desembarcarem na foz do rio Douro, combateram os mouros que dominavam a região que hoje é o Porto. Junto com os gascões, viajou Dom Nónego, bispo da localidade francesa de Vendôme que, mais tarde, foi bispo do Porto. Acredita-se que foram estes cavaleiros com o seu bispo que trouxeram uma cópia da imagem de Nossa Senhora que existia na Catedral de Vandoma (Vendôme), a qual foi colocada no cimo da porta principal do burgo, situada nas muralhas que, por isso, se passou a chamar-se Porta de Vandoma.

Porta de Vandoma

Na Sé do Porto, existe uma imagem policromada, atribuída ao séc. XIV, que se encontra no lado esquerdo do transepto, para quem entra no templo. Esta antiga devoção da cidade a Maria, mãe de Cristo, valeu-lhe o título de “Civitas Virginis” e, a sua presença ilustra o brasão de armas da cidade.

Nossa Senhora de Vandoma na Sé do Porto

Mas,… retomemos a descrição da fonte.

Por baixo do medalhão, o espaldar é recuado, encimado por um friso, destacando-se uma pedra tripartida, sendo nos extremos rematada, na parte inferior, por uma espécie de borlas estilizadas, muito ao gosto da época. É na parte central deste conjunto que se destaca a data, escrita em numeração romana: MDCCLXXXVII [1787].

Na parte inferior do espaldar encontra-se uma bica, decorada com motivos vegetalistas, por onde, em tempos, jorraria a água. A rematar esta fonte existe um tanque rectangular, sem qualquer ornamento.

Mesmo sem água, a Fonte de Nossa Senhora de Vandoma mostra toda a sua dignidade no espaço em que está inserida.

 

Nota: Sobre as Fontes e Chafarizes do Porto poderão consultar a obra “As Nossas Memórias – as Fontes do Porto“ (Volumes I e II), trabalho de que sou co-autora com Arminda Santos, Rui Clare e Luís Pacheco, uma colectânea onde encontrarão outras abordagens diferentes, sobre estes equipamentos públicos.

 

  

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01ago21

 

 

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