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Gostos não se discutem…

Weihua Tang

 

 

A China abriu a sua porta para o mundo há mais de quarenta anos. Todavia, nos anos de oitenta, era ainda muito exigente e rígida nas entidades públicas.

Naquela altura, existiam as regras disciplinares típicas para professores, médicos, polícias e militares, etc., etc…, pois era preciso manter uma imagem ou compostura correta pela sua profissão. Por isso mesmo, nunca cheguei a furar as minhas orelhas para usar brincos, porque, era professora de inglês na China. Contudo, a situação mudou imenso durante o Século XXI.

Confesso que já me habituei aos fenómenos ocidentais diferentes, durante estes dezoito anos. Mas, mesmo que seja assim, fiquei admirada quando reparei que algumas portuguesas tinham mais de dez brincos, somente numa orelha e, ainda por cima, fiquei arrepiada no momento em que alguém me mostrou o piercing na língua. Conseguem imaginar a minha reação espontânea, quando uma fulana me mostrou as partes intimas com os piercings?!

– “Calma Candy, aqui é na Europa, não é na China.” – pensei eu.

Pois é. “Gostos não se discutem”, citando um ditado português.

Por coincidência, temos um ditado chinês idêntico, o qual tem uma  interpretação literal que é: “Legume e nabo, cada um tem o seu preferido”.

Além disso, mais um fenómeno me chamava a atenção: a tatuagem. De facto, era raríssimo ver alguém com tatuagens, na minha infância. Sinceramente, quando estava na China, não conhecia nenhuma chinesa que tivesse tatuagens. Quanto ao masculino, a única recordação era o filho do um vizinho, que tinha tatuagens nos braços.

Na realidade, tentava afastar-me dele quando possível. Parecia que era um homem perigoso. Aliás, ouvi dizer que ele tinha sido detido por um assalto e ficado na prisão, durante muitos anos. E, não só, nos filmes de Hollywood, quase todos os criminosos exibem as tatuagens que têm. Portanto, tinha uma “impressão negativa” que ficou marcada na minha memória.

Contudo, comecei a mudar este “preconceito” depois da chegada a Portugal. No início, estranhamente, fiquei curiosa quando via todos os tipos de pessoas que têm tatuagens no corpo, ora no rosto, ora no pescoço, ora no peito, ora nos braços, ora nas costas das mãos, ora nas pernas, ora nos pés… Meu Deus! Tantas?!

Porém, a vida sempre brinca connosco. Um certo dia, o meu filho voltou da faculdade e levantou uma discussão polémica, como se fosse “uma pedra a agitar mil ondulações”, como diz um ditado chinês.

– “Mãe, quero fazer uma tatuagem no braço”, disse ele calmamente.

– “O quê?! Estás a brincar connosco?!” Nem queria acreditar no que ouvi.

– “Não estou a brincar, mãe. Estou a falar a sério”, continuou ele.

– “Na nossa família, ninguém fez isso. Vais quebrar a tradição?! A tinta tem

química e faz mal ao corpo. O teu avó materno não vai gostar”, tentei convencê-lo.

– “Mas eu gosto. Muitos dos meus amigos têm. Vou fazer um coração com seis palavras dentro: Amor, Família, Amizade, Respeito, Sorte e Confiança.”…Silêncio…

– “Ou vou tatuar o teu nome no meu braço, se não gostares desta ”, acrescentou ele para ver a minha reação.

– “Olha filho, não somos ocidentais. Temos a nossa tradição e cultura chinesa. Respeito todos os tatuadores. Mas és o meu filho único, eras tão obediente antes. Estás contra a nossa vontade. Porque é que te tornaste tão rebelde agora?!” – refutei.

– “Já tomei a decisão. Vou marcar a data na clínica de tatuagem”.

– “Tinhas tanto medo de agulhas, quando tomaste injeção na China…Não vais conseguir aguentar tantas picadas, durante duas horas. Vais arrepender-te, e, vai doer muito mais se quiseres removê-la.”- comecei a falar alto.

– “Não te preocupes, mãe. Vou aguentar”- insistiu ele.

– “Não consigo aceitar. Não entras na minha casa se fizeres tatuagem”, enfatizei no fim.

A discussão acabou sem resultado satisfatório entre nós.

Após uns dias de “guerra fria”, teimosamente e endividamente, ele foi fazer uma tatuagem em forma de “coração” em cima do ombro direito. De forma drástica, ele admitiu que lhe doeu bastante, durante o processo.

– E a mim?! Doeu-me ainda mais pelo sofrimento no meu coração! Com relutância, fui comprar creme na farmácia e preparei o filme transparente para ele proteger a tatuagem, quando fosse tomar banho.

Afinal,  não só deixei o meu filho entrar na minha casa como, ironicamente, também fui pagar duzentos euros por essas doloridas e inúmeras picadelas…

 

 

Foto: BAIDU

 

01set21

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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1 Comment

  1. Anabela Caldevilla

    Um texto muito interessante e que nos leva a reflectir… Realmente os gostos não se discutem.
    Como sempre a minha querida amiga Candy a encantar-me. Obrigada

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