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“Tóquio 2021” – As auroras que falta descobrir

Maria Manuela Aguiar

 

1 – A participação portuguesa nos últimos Jogos Olímpicos é incensada pela generalidade dos políticos, dos comentadores desportivos, como “a melhor de sempre”. Dir-se-ia que marcou a transição para um patamar de desenvolvimento qualitativo. Pura ilusão… Na realidade, continuamos exatamente aonde estávamos antes – na cauda da Europa, em termos de investimento nas diversas modalidades desportivas (menos de metade da média europeia) de formação escolar: A Educação Física é menorizada nos “curricula” escolares, a compatibilização da vida desportiva e académica nas Universidades é descurada. É mínima a prática do exercício físico na infância, na juventude e em todas as idades é mínimo,  como mostram as tabelas de comparação a nível internacional. Em suma, vivemos pouco acima do grau zero, no domínio da cultura desportiva, cuja falta é revelada pelo somatório de todas as referidas e muitas mais deficiências, com inevitável repercussão na “performance” global em alta competição.

Mais um deprimente sinal nos foi dado, recentemente, pela despreocupação com que a DGS, o Ministério da Educação, os próprios professores encararam a rotura da prática desportiva durante a pandemia, dentro e fora das escolas, em absoluto  contraste com o alarme provocado pelo encerramento das aulas e a necessidade de recorrer a ensino não presencial…Ora, num balanço final, o que terá feito dano maior? Ter-se-ão perdido mais futuros doutores e engenheiros do que futuros campeões? E provocado mais insucesso escolar ou mais abandono desportivo?

Perguntas para as quais não tenho resposta – só uma certeza: o desporto amador, o desporto para todos e até o desporto profissional foram altamente negligenciados e prejudicados. Há no governo um denominado “Secretário de Estado do Desporto”, que não se sabe para o que serve, nem o que faz.

2 – A proclamada excecionalidade da participação nacional em Tóquio é relativa aos nossos próprios resultados olímpicos recentes, que, quando positivos, oscilam modestamente entre as duas ou três e estas celebradas quatro medalhas – parcas e limitadas ao atletismo em modalidades individuais, a evidenciar o mérito de cada atleta (e, eventualmente, dos seus clubes), muito mais do que o mérito de um projeto ou estratégia dos poderes públicos. Em boa verdade, na Europa, só estamos à frente de quatro países com populações entre três, seis ou cerca de vinte vezes inferiores à nossa (a Lituânia, com 2.794 milhões de habitantes, Chipre com 1, 224.216, o Luxemburgo com 643.196 e Malta com apenas 502, 633).

Muito se realçou, igualmente, o caráter “inclusivo” da delegação portuguesa, com esse adjetivo querendo significar a presença de estrangeiros naturalizados e de cidadãos de origem africana. Muito me regozijo com o facto de haver nesta modalidade maior abertura para o reconhecimento da dupla nacionalidades e para a atribuição do passaporte português. do que há, por exemplo, no futebol profissional, onde tanta polémica causou a justíssima chamada de Deco e de Pepe à seleção – dois brasileiros natos, que sempre deram provas de excelência desportiva e de dedicação à camisola das quinas (enfim, penso que o mesmo talvez não tivesse acontecido se representassem clubes de Lisboa, como é o caso de Pedro Pablo Pichero, de Nelson Évora, de Jorge Fonseca e como foi o do inesquecível Francis Obikwelo…).

Digo-o com todo o apreço pelos clubes que continuam a oferecer, hoje, medalhas e campeões de atletismo ao país, caso do SCP e o SLB, como, noutros tempos, o FCP o conseguiu, com os seus históricos títulos no feminino – o ouro de Aurora Cunha, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro.

E saúdo, naturalmente, o fenómeno de preponderância dos afro-portugueses na vanguarda do atletismo nacional, com três em quatro das nossas medalhas de Tóquio, a exceção sendo a do canoísta Fernando Pimenta, com fundas raízes nortenhas em Ponte de Lima, embora, do ponto de vista clubístico, se tenha mudado para sul. E só de Pedro Pichardo se pode afirmar que foi formado no estrangeiro (em Cuba) e se naturalizou já com um brilhantíssimo palmarés. Jorge Fonseca veio de São Tomé para Portugal com 11 anos e Nelson Évora, nascido em Abijan, de pais cabo-verdianos, também muito cedo aqui se integrou.

É portuguesa de ascendência angolana, Patrícia Mamona, a única mulher neste glorioso quarteto de campeões, com uma medalha de prata que vale mais do que o ouro. Ela é a pura encarnação do espírito olímpico, da vontade de se transcender a cada novo dia. Teimou em praticar o triplo salto e em atingir o Olimpo numa modalidade para a qual, sendo uma predestinada, lhe faltava, diziam-lhe todos, uma característica física, a altura. Mede apenas 1,66 e, não é demais destacá-lo, e só perdeu para uma gigante de quase dois metros (mais precisamente 1,92).

Há uma outra medalha que Portugal não pode reclamar oficialmente, mas que é um pouco sua. Uma medalha de ouro, de que pouco se falou; a de Júlia Grosso, jogadora de 20 anos (da Universidade do Texas), que apontou, na final, de “penalty”, o golo decisivo para fazer da equipa de futebol feminino do Canadá campeã olímpica!

3 – O que motiva, num país de mentalidade tão avessa ao fomento da atividade física, na infância, na escola – que é onde, por todo o lado, se começa – os futuros campeões, rapazes e, igualmente, raparigas, (feito maior numa sociedade ainda tão misógina)? O que leva crianças de minorias étnicas, em quase todos os outros domínios marginalizadas, assim como outras de meios rurais, não menos desprivilegiadas, a superarem horizontes estreitos pela glória desportiva? É uma investigação que está por aprofundar no meio académico… O historial vai-se escrevendo, casuisticamente, por comparação de semelhanças e diferenças de circunstâncias, e precisa de ser bem melhor analisado, melhor contado, sem deixar nenhum nome para trás. Talvez, um dia, possam, todos esses percursos e personalidades figurar num grande museu nacional do desporto (um “hall of fame” português). Até lá, cada terra vai homenageando os seus heróis, como faz Espinho, ao guardar a memória de António Leitão no seu Fórum, Ponte de Lima com o projetado Museu Pimenta, o Porto com o Pavilhão Rosa Mota ou a Madeira na denominação do Aeroporto Cristiano Ronaldo…

“Tóquio 2021” deixa-nos, pois, contentes com os atletas, em concreto, com os medalhados, com os que só não o foram por uma questão de má fortuna num momento decisivo, e com os que trouxeram diplomas olímpicos – indicadores bastante mais numerosos, promissores de qualidade e de potencial, – mas, bem vistas as coisas, globalmente descontentes com  a falta de progresso geral, com o imenso desperdício de génios por achar.

Lembremos o exemplo da campeoníssima Aurora Cunha, que, por sinal, nunca foi feliz nas suas várias participações olímpicas, mas ganhou ouro de igual valor em campeonatos da Europa e do Mundo (tricampeã mundial, na década de oitenta) e muitas maratonas importantes, com a camisola azul e branca do FCP ou com a da seleção nacional. A sua biografia, “Uma vida de paixões” é de leitura obrigatória.

Aurora Cunha é um exemplo raro e intemporal, na sua trajetória de desportista e de cidadã, defensora dos valores do Desporto. Foi uma menina nascida com talento inato, uma jovem que teve a oportunidade de o cultivar graças a inexcedível energia e coragem, e, com o passar dos anos, cada vez mais é uma  mulher de causas –  o outro nome das suas paixões.

Sabem como foi descoberta para uma tão fantástica carreira? Por mero acaso, quando à saída da igreja, numa tarde de verão, alguém se lembrou dechamar adolescentes de ambos os sexos, para uma corrida popular, no estádio da terra. Aurora, de saia de malha e sapatos de cabedal, ganhou, destacadamente, à frente dos rapazes, muitos deles equipados a rigor. Tinha 14 anos, era operária fabril e sempre gostara de correr, sozinha, por montes e vales. O Clube Juventude de Ronfe logo ali a convidou para treinar e levar a competições, e, pouco depois, veio o contrato com o FCP.

Após a sua primeira grande vitória oficial, o “Mundo Desportivo” de 9 de junho de 1976 escrevia: “Quantas Auroras em potência haverá por esse país fora?” Quase meio século volvido, em Portugal, a pergunta mantém toda a sua pertinência.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01set21

 

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