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O Porto e o acordo de Liverpool

José Manuel Tavares Rebelo

Vou contar um episódio que se passou comigo numa sexta-feira pelas quatro da tarde.

Subia eu a Rua de Camões, pelo lado esquerdo, enquanto estava atento aos sons dos carros e, ao mesmo tempo, distinguindo o canto de um melro negro de bico amarelo que, pousado numa árvore, surpreendentemente conseguia superar o barulho dos carros.

Estava a caminhar vagarosamente, mas com alguma segurança, a bater a bengala nas paredes da esquerda, quando, subitamente, fui empurrado de modo violento por uma trotinete eléctrica, que sem ruído, descia a toda a velocidade. Não cheguei a cair, mas fiquei com uma perna bastante magoada e com dores. A pessoa que conduzia a trotinete era minha conhecida, pela sua presença na comunicação social. Era o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, que tendo estacionado aflito, se desfazia em desculpas e perguntava se necessitava de ajuda.

Curiosamente, o senhor presidente não trazia capacete e vinha vestido de fato azul e gravata. Colocando a minha mão no seu braço, disse-lhe: “O senhor presidente não está a dar o exemplo aos seus munícipes e a indumentária que traz não é adequada para este meio de transporte.

Além de incorrer numa transgressão gravíssima, está a pôr em perigo a sua própria vida e a dos peões que por aqui passam”.

“Peço muita desculpa, isto não se repetirá. Se me permite, a razão desta pressa é chegar a tempo para uma reunião com o mayor de Liverpool, Mr. Peter Brennan.” – retorquiu Moreira. Depois explicou-me que tinha estabelecido um protocolo de colaboração entre os dois municípios, para tentarem fugir às implicações negativas do Brexit.

O primeiro intercâmbio tinha sido a troca de motoristas, com a obrigação do motorista de Mr. Brennan, Charlie, ficar dois anos ao serviço na Câmara do Porto, com o compromisso de aprender português. O motorista de Rui Moreira, de nome Vicente, já tinha ido para Liverpool com as mesmas funções e a obrigação de aprender inglês.

Rui Moreira, muito aflito, informou-me: “É que já só faltam 15 minutos para a reunião e ainda queria comprar uma embalagem de tripas à moda do Porto para lhe oferecer, para que possa comer a caminho do aeroporto. Embarca às 20 horas.” Ao que eu respondi: “Pode telefonar ao motorista Charlie e mandá-lo comprar uma embalagem de tripas ao catering do Madureira, na Rua do Moreira”. “Ah! Tem razão, vou já ligar-lhe. Charlie, vá já à Rua do Moreira e compre uma dose de tripas para oferecer ao senhor mayor de Liverpool.” Charlie retorquiu: “Ah, eu não saber que senhor presidente ter rua no Porto”. Rui Moreira, exasperado: “Eu não tenho rua nenhuma, seu ignorante! É uma rua antiga.”

Estávamos nisto, quando aparece um cão Boxer, rosnando-me, provavelmente com cara de poucos amigos. Rui Moreira olha para o cão e diz: “Só me faltava esta! É o meu cão Tamisa, que fugiu de casa e me seguiu até aqui.” No entretanto, o cão agarra na minha bengala e começa a mordê-la, ao que o Dr. Moreira gritou: “Larga a cana do senhor!”. Então eu disse: “Desculpe, senhor presidente, não é cana, é bengala branca, símbolo mundial da cegueira”. Rui Moreira dá-lhe um berro e diz: “Be quiet!”. O cão senta-se e agacha-se para fazer uma necessidade.

Logo, Rui Moreira berrou: “Não faças aí, vai fazer ao canteiro da árvore do lado!”. Nisto ouve-se uma espécie de cavalo da GNR a galope, enquanto uma jovem elegante, com uns saltos altos tipo agulha, começa a empurrar as pessoas que nos rodeavam, gritando: “Sou Inês, a secretária do senhor presidente, deixem-me passar!” Avança aos tropeções, chega-se à beira do presidente e, ofegante, pergunta-lhe: “Senhor presidente, está bem? Ouvi dizer que um invisual foi contra si e o magoou”. Ao que Moreira responde, um pouco embaraçado: “Aqui não há ninguém invisual, eu é que fui contra este senhor cego.”

Nisto, passa em voo rasante uma gaivota, que dejecta um grande “bolo biológico” no fato azul de Rui Moreira, cada vez mais exasperado, ao que eu comento: “Tenha calma, senhor presidente, olhe que teve muita sorte. Imagine se as vacas tivessem asas?!”

Mensagem inerente a esta história imaginada – a Câmara Municipal do Porto tem de ter regulamentos para:

Dar prioridade aos peões nos passeios do Porto;

Não permitir que os veículos eléctricos circulem nos passeios, nomeadamente em contramão;

Controlar a população das aves que produzem lixo, como as gaivotas e as pombas;

Colocar em todas as ruas zonas reservadas às necessidades dos caninos;

Diminuir a circulação dos veículos, de modo a tornar a atmosfera mais livre de monóxido de carbono e diminuindo também a poluição sonora;

Melhorar urgentemente os transportes colectivos;

Permitir que se ouçam os sons da natureza, de modo a ouvir-se a ramagem das árvores e os cantos dos pássaros;

Garantir que as pessoas cegas e/ou portadoras de outras deficiências transitem nas ruas com segurança acrescida, mais concretamente nos semáforos e nas passadeiras.

 

01jul22

 

 

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