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O riso está a um nariz do choro

Luísa Camarinho

 

Disse Millôr Fernandes que “entre o riso e a lágrima há apenas o nariz”, e eu não podia concordar mais. Há qualquer coisa de trágico em todos os risos, seja o típico “rir da desgraça alheia” ou o riso que nos invade a face quando já não nos resta nada a não ser um esgar de impotência perante uma vida que às vezes teima em ser malvada.

Mais do que uma distância física, esta frase estabelece uma distância emocional, bastante curta, entre a alegria, a que o ato de rir é associado, e a tristeza, de que são representantes máximas as lágrimas. No fundo, é como se estivéssemos todos a um pequeno passo de evoluirmos de um estado de euforia para uma disforia melancólica que nos consome.

Estou certa de que o humorista brasileiro proferiu esta frase, não pela semelhança das duas emoções, mas pela sua duração. A verdade é que, como diz a sabedoria popular, “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe” e, deste modo, nem a felicidade é tão inabalável como imaginamos, nem a infelicidade tão durável quanto os nossos cérebros, toldados pela mágoa, nos fazem pensar.

Se consultarmos o dicionário, a palavra felicidade aparece definida como o “estado de quem é feliz” e a infelicidade como a “qualidade ou estado de infeliz”, ou seja, ambas são descritas como meros estados, o que indica o seu carácter passageiro e, acima de tudo, volúvel. Esta volatilidade deve-se, em grande parte, às circunstâncias que nos rodeiam e à fase de vida em que estamos, pois o que agora nos parece um problema semelhante à guerra fria, daqui a uns meses pode tornar-se apenas num mísero queixume.

Concluo esta crónica dizendo que já todos chorámos de alegria e rimos de tristeza e isto não significa que estejamos a ser antagónicos face às emoções que realmente sentimos, nem sequer que não as sintamos, de verdade, significa, apenas, que o riso está a um nariz do choro e, assim sendo, estamos todos tão próximos do apogeu como do abismo.

 

 

Foto: pesquisa Web

 

01ago22

 

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