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“Miúpe”

Joaquim Castro

 

 

Fiquei estarrecido ao ouvir um professor universitário, médico, e uma comunicadora e jornalista, pronunciarem “miúpe”, várias vezes, num programa da Antena 1, em 15 de dezembro de 2022. Ora, a palavra escreve-se e pronuncia-se “míope”, dado que é uma palavra esdrúxula, isto é, acentuada na antepenúltima sílaba. A forma errada “miúpe”, se existisse, seria uma palavra grave, ou seja, acentuada na penúltima sílaba.

A conversa radiofónica foi em horário, em que muita gente se deveria estar a deslocar nos seus meios de transporte, talvez, até, com crianças que iam para a escola. Por isso, é muito natural que tais “miúpes” tenham ficado na memória desses estudantes. Pelo que explico, este foi um programa que contribuiu para baralhar e enganar tais jovens estudantes. Este caso dos “miúpes” fez-me lembrar um outro caso, já aqui tratado. Falo da palavra “periúdo”, muitas vezes pronunciada, em vez de “período”.

Convém acrescentar que quem é míope sofre de miopia, um erro refractivo do globo ocular, fazendo com que a imagem dos objectos no olho é focada de modo errado. A visão dos objectos distantes apresenta-se turva. Semicerrar os olhos pode fazer com que os objetos distantes pareçam mais nítidos.

 FRASES IMPERFEITAS

No Jornal de Notícias, li: “A aeronave (chinesa) ainda não recebeu permissão para voar dos reguladores da Europa e Estados Unidos”. A frase certa, deveria ser: “A aeronave ainda não recebeu permissão para voar dos reguladores da Europa e dos Estados Unidos”. Segundo o e-konomista, o erro de concordância “acontece sempre que algo não está em harmonia dentro de uma frase, havendo tipos de concordância que, por vezes, não são respeitados, comprometendo a qualidade do discurso na língua portuguesa.

Devemos, pois, ter particular atenção, para evitarmos este tipo de engano – tão comum, mas que não deveria ser cometido”. Infelizmente, este tipo de erro, é cometido, vezes sem fim, em tudo o que é discurso, falado ou escrito, com relevo para os rodapés da televisões. Outros exemplos: “A ex-miss Croácia, “tem somado gostos…nas redes sociais e em todos os recintos “que marca presença” (nos estádios do Qatar)Oraa frase certa, a negrito, é em que marca presença. 

Ainda outro exemplo: “O valor a partir do qual os salários e pensões fazem retenção de IRS aumenta em janeiro para 762 euros. Claro que deve ser os salários e as pensões. Nos comboios, onde às vezes viajo, embirro sempre que ouço a gravação de voz: “Este comboio tem destino a estação de Porto – São Bento, parando em todas as estações e apeadeiros”. Acontece que, estação é uma palavra feminina, apeadeiro é uma palavra masculinaEntão, a frase certa é: parando em todas as estações e em todos os apeadeiros. É uma frase feita, errada, que se ouvirá centenas de vezes, de noite e de dia.

 O DIA TAL E ESTAR DE GREVE

“Recluso saiu da prisão dia 24 para passar o Natal em casa e foi detido no dia seguinte por resistência a e coação”. Esta frase foi lida num jornal nacional. O caso é que, onde se lê “saiu da prisão dia 24”, deveria estar escrito, saiu da prisão no dia 24. Tanto assim é, que, logo a seguir, se lê “foi detido no dia seguinte”. Esta nova moda de omitir o artigo definido o, neste caso, masculino, e em outros casos similares, não cumpre as regras da boa escrita. Mas é um erro que prolifera em tudo quanto é escrito e, às vezes, dito, parecendo um erro de simpatia.

Num plenário da Assembleia da República, o seu presidente, Augusto Santos Silva, irritou-se ao não ver cumprida uma ordem dada às forças policiais presentes, para que abrissem as portas do parlamento destinada ao acesso do público às galerias. Depois de tantas ordens, em tom irritado, o presidente utilizou a fórmula “determino que as forças de segurança que abram as portas das galerias”. Foi um momento de sururu nas bancadas. Depois, uma senhora que estava na mesa, ao lado do presidente, transmitiu-lhe que não havia público para entrar e que os polícias “estavam de greve”. Foi este “estar de greve” que me chamou a atenção, pois costumo ouvir “estar em greve” e não “estar de greve”.   

 PORTO-SANTENSES

Estava a ver o programa “Portugal em Direto”, na RTP 1, em 26.12.2022, quando reparei que estava escrito portossantenses, referente aos naturais de Porto Santo, uma ilha do arquipélago da Madeira.

Nunca tinha pensado nesta terminologia, que me pareceu estranha. E tinha razão. De facto, os naturais de Porto Santo chamam-se “porto-santenses”. Do mesmo modo, os naturais de Cabo Verde chamam-se cabo-verdianos, mas nas redes sociais, como ainda hoje li, alguns escrevem, indevidamente, a palavra “caboverdianos”. No mesmo programa “Portugal em Direto”, acima referido, fui surpreendido com o facto de um médico, dizer que durante uma colonoscopia (um exame invasivo que captura imagens em tempo real do intestino grosso e de parte do íleo terminal…), se podiam retirar os “polipos” palavra aguda, para se evitar cancros futuros.

Ora, como sempre ouvi pronunciar “pólipos”, palavra esdrúxula, fui consultar o Dr. Google. E, de facto, a minha dúvida tinha razão de ser, pois o termo registado é “pólipo”. Ouço muito a Antena 1 e vejo também as emissões televisivas da SIC e da SIC Notícias, onde encontro erros sucessivos, diariamente.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

 

01jan23

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