Menu Fechar

As Estátuas do Bonfim (01) – Camilo Castelo Branco e Afonso Costa

Maximina Girão Ribeiro

 

Na azáfama do dia-a-dia deslocamo-nos, a maior parte das vezes, sem observarmos o que nos rodeia e, podemos passar mil vezes pelo mesmo sítio que não damos conta de pormenores significativos implantados na cidade. Tal como diz o Poeta Eugénio de Andrade, num dos seus poemas “Passamos pelas coisas sem as ver…” É o caso, por exemplo, das estátuas que povoam as localidades, como arte pública que, enquanto obras de escultura, são criadas para representar uma entidade real ou imaginária e, muitas delas, como forma de homenagear e lembrar figuras que, de alguma maneira, se distinguiram na sociedade do seu tempo.

É nosso propósito percorrer o território do Bonfim e desvendar alguns pormenores sobre a estatuária existente, seus autores e respectivas figuras representadas. Atrevo-me a dizer que o Bonfim deverá ser a freguesia do Porto com mais estátuas, se tivermos em atenção o conjunto que se encontra no Jardim de S. Lázaro ou no Jardim Paulo Valada (mais conhecido como Jardim das Pedras, na Alameda de Fernão de Magalhães), para já não falar das muitas que se encontram em domínio privado, como é o caso do Jardim da Faculdade de Belas Artes, na Avenida Rodrigues de Freitas …

Começamos pelo busto de Camilo Castelo Branco (1825-1890), situado na Avenida Camilo, com frente virada para a parte lateral do edifício da Junta de Freguesia do Bonfim.

Busto de Camilo

Este monumento a Camilo é da autoria do escultor Henrique Moreira, datado de 1925 e resultou de uma homenagem promovida pelo Jornal ‘O Comércio do Porto’, no centenário do nascimento do escritor, comemoração que teve o apoio das Câmaras Municipais do Porto e de Vila Nova de Famalicão, local onde Camilo viveu, em São Miguel de Seide, localidade em que residiu, aquando da sua união com Ana Plácido e onde o mesmo se suicidou.

O ‘Comércio do Porto’ era na altura dirigido por Bento Carqueja, uma figura muito prestigiada pois, o seu envolvimento com a cidade levou-o a conhecer com profundidade os grandes problemas sociais da urbe e a contribuir para a resolução dos mesmos, nomeadamente com a construção de bairros sociais e creches para os filhos dos mais desfavorecidos.

Foi com a intervenção pessoal de Bento Carqueja que o grande escultor Henrique Moreira (1890 – 1979) esculpiu o busto de Camilo. Henrique Moreira frequentou a Academia Portuense de Belas Artes e foi, nesta cidade que deixou um conjunto notável de obras reconhecidas em múltiplas distinções que recebeu, das quais se destacam as medalhas de ouro com que foi galardoado nas exposições em Lisboa e Sevilha e, em 1968, quando a Câmara Municipal do Porto lhe concedeu a ‘Medalha de Ouro de Mérito’.

O Programa da Comemoração deste centenário de Camilo foi noticiado como se segue (segundo a grafia da época):

“Deposição de uma placa de bronze no tumulo de Camillo, no cemiterio da Lapa / Cortejo civico de homenagem a Camillo partindo da Praça do Infante D. Henrique / Coroação do busto de Camillo em uma das praças da cidade / Esta solemnisação liga-se com a que se realizará, no mesmo dia, em Vila Nova de Famalicão”.

A escolha de Henrique Moreira para esculpir esta estátua de Camilo deve ter criado alguma afronta ao escultor Teixeira Lopes (Filho), segundo depreendemos da notícia publicada no ‘Comércio do Porto’, em 4 de Março de 1925:

“O busto de Camilo, ou melhor, os bustos, visto não serem iguais, apesar da sua singeleza, constituem dois enunciados académicos, é verdade, mas de um academismo diferente do estrito naturalismo de Teixeira Lopes, como o demonstra a interpretação que este último fez de Camilo, para cujo centenário viria a modelar um gesso, intitulado’ Lux’ , cujas imagem enviou para os jornais e revistas, também nos começos de 1925, com a informação de que se destinava a ser reproduzido em pequena escala, para que aquele grupo escultórico pudesse ser adquirido pelos “apreciadores da verdadeira arte.” in ‘O Commercio do Porto’, ‘O centenário de Camillo’, 4/3/1925, p.1.

Estátua de Camilo

Descrevemos a estátua, com as palavras de José Guilherme Abreu:

“Compõe-se o monumento do Porto de um busto em bronze de patine esverdeada assente sobre elevado plinto de mármore branco formado por dois pilares que se encaixam formando uma cruz. O frontal, saliente e mais alto, sustenta o busto cuja configuração em “V” lhe confere leveza e dinamismo, enquanto sobre o transversal repousa uma coroa de louros que posteriormente envolve a base do busto, compensando as diferenças de altura. O retrato, de contornos pouco vincados, representa o escritor envergando uma capa lançada vigorosamente para trás sobre o ombro esquerdo, em contraponto com a gola que estaticamente repousa sobre o ombro direito, formando assim uma composição assimétrica, responsável por uma certa tensão na representação. Junto à base, um friso em baixo relevo de ornatos fitomórficos, circunda o plinto. Na frente, abaixo do busto, também em baixo relevo, uma inscrição de caracteres estilizados, em lettering art déco, consagra-lhe a memória.” (Abreu, 1999:3)

Estátua de Afonso Costa

Não muito longe deste monumento a Camilo Castelo Branco encontra-se uma outra estátua, no Campo 24 de Agosto, que homenageia Afonso Costa, o advogado, professor universitário, jurista, político republicano e estadista português, que nasceu a 6 de Março de 1871, em Seia, distrito da Guarda. Formou-se em 1894, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde lecionou durante 15 anos e onde também se doutorou. Em 1900, entrou para o Parlamento defendendo, a partir daí, a substituição da monarquia pelo sistema republicano.

Como estadista, foi um dos grandes vultos políticos da 1.ª República, definindo uma parte significativa da sua estrutura legislativa. Assinou a Lei da Separação do Estado das Igrejas que pretendia a laicização do Estado com a expulsão dos jesuítas, a criação do registo civil, a lei da família e a lei do divórcio, a abolição do delito de opinião em matéria religiosa, legalização das comunidades religiosas não católicas, privatização dos bens da Igreja Católica, proibição das procissões fora do perímetro das igrejas, proibição do uso das vestes talares (religiosas) fora dos templos, etc.

Afonso Costa foi por diversas vezes chefe de Governo e ministro das Finanças. A 30 de Junho de 1980 foi agraciado a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

A estátua que o representa é pedestre, estando a figura representada de pé, em vulto perfeito. É feita em bronze, com o plinto em granito, onde se lêem, no frontal, alguns dados biográficos de Afonso Costa e, em baixo, indica-nos sobre de quem partiu a iniciativa de erigir a estátua: MONUMENTO ERIGIDO POR SUBSCRIÇÃO INICIADA POR REPUBLICANOS DO PORTO COM O PATROCÍNIO DO JORNAL REPÚBLICA.

O que está escrito na parte frontal do plinto

Nesta estátua de Afonso Costa destaca-se a sua expressão facial, revelando um certo entusiasmo e o movimento dos braços que parecem traduzir o seu dinamismo e a sua vocação de político de reconhecida capacidade de retórica.

Pose de Afonso Costa como se estivesse a discursar

O autor desta peça escultórica, datada de 1988, é o escultor Laureano Guedes (Ribatua) que foi também professor e pintor.

Assinatura do escultor Laureano Ribatua

Laureano nasceu em S. Mamede de Ribatua, no concelho duriense de Alijó, a 20 de Dezembro de 1938. Aos 8 anos de idade instalou-se com a família, na cidade do Porto sem, no entanto, deixar de manter uma forte ligação à terra de origem, aliás bem patente no nome artístico que veio a escolher – Laureano Ribatua. Detentor de um forte poder criativo, procurava a “alma das coisas” para as interpretar e materializar escultoricamente.

No próximo artigo iremos abordar outras estátuas, esperando o vosso bom acolhimento.

 

Bibliografia consultada

ABREU, José Guilherme, ‘Os Caminhos da Escultura Pública do Porto II. Do Novecentismo ao Estado Novo, (1999), tese/dissertação de Mestrado, FLUP, Porto.

REIS, Tereza Ribeiro, ‘Laureano Ribatua – 40 Anos de Escultura” (1999), Edições Asa, Porto.

 

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do ‘Etc. eT al jornal’, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

01mar23

 

Partilhe:

1 Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.