13 de maio de 1906. Nascia, nessa altura, o Grupo Dramático “Aurora da Liberdade” na nobre terra de Matosinhos. Fundado por republicanos convictos, “o” passou a ser “a” “Aurora” por imposição do governo fascista de Salazar. A Associação Recreativa é uma referência no Grande Porto. João Lourival, filho e pai ( a entrevista divide-se entre os dois) falam do passado, presente e futuro de uma instituição sui generis e pela cultura com cordão umbilical ligada ao teatro. Com sete centenas de associados, a “Aurora” vai encontrando a sua própria Liberdade, enfrentando, contudo, as vicissitudes de uma vida atribulada, tal qual atribulada é a vida de outras instituições de referência.
Onze foram os fundadores (Alcino Glória, António Pinto, António José de Oliveira, Arnaldo José de Oliveira, Cesário Bento, Francisco Lavandeira, José Abreu, João Meireles de Matos, Júlio Dias de Oliveira (Carvalha), Manuel Beto e Raúl de Carvalho), os tais, que onde estiverem, estarão atentos aos que, hoje, continuam uma obra útil à comunidade ainda que, nem sempre, a comunidade tenha compreendido a sua obra.
Vamos começar esta entrevista do presente para o passado, primeiro com o João Lourival filho, e, depois com o João Lourival pai. Primeira questão: Como estão a correr as coisas?
“Estão a correr bem. A coletividade, quando tomei posse, estava como que parada, o que é natural, porque todas as coletividades atravessam, nesta altura, alguns problemas. Entretanto, a minha direção tem procurado realizar eventos para chamar as pessoas à instituição, e, a verdade, é que já estamos com duas a três atividades mensais, designadamente, bailes, exposições de pintura, e ainda espetáculos de dança, música e tunas. Para já, não temos qualquer peça em cena, pois estamos ainda a ensaiar uma…”
O teatro que terá sido a base de tudo que levou à formação desta coletividade?!
“O teatro é a base da coletividade! Desde que existe, há 106 anos, no “Aurora” o teatro foi a mola real da instituição”.
Vamos já há história. Têm sete centenas de associados, o que é um número a ter em conta nos dias que correm. Pergunto: são eles elementos participativos na vida da Aurora da Liberdade?
“Sim. E, nesse caso, é bom salientar alguns regressos. Essencialmente, há um núcleo de associados que está constantemente presente nas nossas atividades. Esses são mesmo indefetíveis. São cerca de duas centenas de pessoas”.

E quando é que o João Lourival filho conhece a “Aurora da Liberdade”?
“Desde que nasci, há 44 anos. Através do avô materno, José Silva, que foi uma das figuras importantes da instituição, e do meu pai. Praticamente, nasci aqui! Mas tenho outros familiares que também fizeram parte da fundação da Aurora.”
A juventude está arredada da coletividade, ou não?
“Quando comecei a vir para a Aurora da Liberdade era pequenino. Depois estive um pouco afastado e, quando regressei, tinha já os meus 18 anos. Nessa altura, parava por cá muita juventude. Entretanto, o mundo mudou – está a mudar! – e a Aurora da Liberdade, como a maioria das associações com este cariz, penso que não acompanharam o evoluir dos tempos. A juventude tem outras coisas lá fora. O teatro é para quem gosta! Fazer parte de uma coletividade e nela estar ativo dá muito trabalho.”

Mas há que atrair as pessoas para certas atividades?!
“Sim. No teatro nós já temos alguma juventude.”
Quantas pessoas fazem parte do Teatro?
“Atores e atrizes, dez. Entre técnicos e outro pessoal, somos, no total, cerca de vinte pessoas.”
Tendes feito peças próprias? Participam em algumas iniciativas teatrais?
“Promovemos, todos os anos, um encontro de teatro amador, que se inicia em meados de março. Estamos a preparar isso. Costumamos receber muitas “Revistas”, que é aquilo que as pessoas mais gostam, nomeadamente, do Sá da Bandeira que costuma vir cá todos os anos, assim como outras coletividades do Grande Porto.”
E como é que estamos em termos de relações entre a AR Aurora da Liberdade e a Câmara Municipal de Matosinhos?
“As relações sempre foram boas. Claro que estamos a atravessar uma fase difícil em que, com a nova Lei de Bases, é complicado haver patrocínios, pelo que a Aurora da Liberdade sobrevive só da quotização dos seus associados e daquilo que os espetáculos nos possam dar, porque os espetáculos são a pagar.”
Uma instituição de democratas

Sai o filho e entra agora o pai nesta entrevista. João Lourival é presidente da Assembleia Geral da Associação Recreativa Aurora da Liberdade, encenador e diretor artístico na coletividade. Falemos, então, e concretamente, da história desta instituição.
“Esta coletividade nasceu a 13 de maio de 1906. Isto nasceu na sequência dos movimentos republicanos que existiam para derrubar a monarquia. Em 1906 fundou-se o Aurora, nesta mesma rua. Eram onze homens operários e artífices. Eram homens do operariado especializado. E fizeram um grupo de teatro… “dramático”, como se chamava antigamente, por isso é que o Aurora da Liberdade se chamou, primariamente, Grupo Dramático Aurora da Liberdade. Só mais tarde, nos anos cinquenta, é que por imposição do governo salazarista.”
Não lhes chocou o “Aurora da Liberdade”, mas mais o “Grupo Dramático”?!
“Se calhar chocou, só que se falou que se praticava na coletividade o que, naquela altura, se intitulava de “atividades subversivas”. Ora, isso não era verdade. Havia, naturalmente, muitos democratas dentro da instituição, mas o que lhes incomodava era o nome. Como não nos puderam pegar de forma nenhuma, então concordaram manter o Aurora da Liberdade, impuseram, de acordo com o código administrativo da época, mudar o nome de “Grupo Dramático” para Associação Recreativa, isto só para justificarem o absurdo de terem fechado a sede social durante uns dias por causa das alegadas atividades subversivas.”
“Aurora da Liberdade” não é um nome inocente?!
“Claro que não! Se nasceu em 1906, na parte final da monarquia, a Aurora da Liberdade já tinha a ver com os ventos republicanos.”
“O maior símbolo cultural de Matosinhos”
“O” e, agora, “a” Aurora da Liberdade teve, como deve ter, um papel de relevância na vida cultural de Matosinhos?!
“O Aurora da Liberdade é o maior símbolo – até pela sua antiguidade – ligado ao Teatro. Esta é a grande embaixadora do concelho fora de portas. Este sempre foi um grupo de amadores, mas que foi aprimorando as suas performances, transformando-se num grupo com muitas caraterísticas profissionais no ponto de vista da própria representação.”
O nosso jornal tem vindo a fazer como que um périplo por algumas coletividades republicanas no distrito do Porto, e é curioso constatar que todas elas estão ligadas ao teatro, ou têm no teatro uma importante vertente…
“Nessa altura, o que mais se divulgava era o Teatro e a Música. A Música através de bandas filarmónicas. O Teatro é uma arte que, em Portugal, sempre teve grande tradição. Sempre se fez muito Teatro no nosso País! Repare que, no princípio do século passado há já grandes atores, como Alves da Cunha e etc e tal, e o Teatro estava na moda. O futebol, praticamente, não existia, nem o andebol ou outra qualquer modalidade. O Teatro, nessa altura, tinha mais importância que o desporto.”

Em Matosinhos, há, digamos assim, uma mescla entre homens ligados ao mar, outros ligados à terra e outros a ofícios. Os vossos associados representam um pouco disso tudo?
“Sim. A nossa coletividade foi sempre muito popular, que procurou, naturalmente, manter um determinado perfil de associados. Gente humilde mas não humílima. Operários e também quadros… trabalhadores de serviços. Mas, numa fase inicial foram, fundamentalmente, os artífices, até alguns deles qualificados: serralheiros, alfaiates… pintores. Com o decorrer dos tempos também a classe piscatória também muitos deles foram nossos sócios: mestres de traineira, ou até mesmo camaradas.”
Alguns deles deram-se no palco?
“Numa primeira fase não era tão fácil, porque eles desenvolviam um tipo de atividade que não lhes permitia tempo disponível para poder ensaiar. Iam para o mar à noite, e os ensaios eram à noite.”
“Os jovens por cá vão ficando”
Quando é que o João Lourival entra cá?
“Bem, o meu avô foi um dos fundadores. Quando tinha os meus 14/15 anos, a minha mãe aconselhava-me a vir para aqui, até porque cá tinha um primo (Edmundo Oliveira) que também era do Teatro, e eu um dia entre pela sede dentro, que ainda era na rua Brito Capelo, na esquina com a 1.º de dezembro, e estavam a ensaiar os miúdos da minha idade. Perguntaram-me quem eu era; viram logo que eu era da família dos fundadores e, pronto, a partir daí por cá fiquei.”
E, hoje, acontece o mesmo com os jovens?
“Acontece, principalmente quando há peças infantis, Ou por intermédio de colegas ou mesmo pelos familiares. Vão ficando!”
Quais são os objetivos da “Aurora da Liberdade” para o futuro de acordo com o quadro real em que vivemos?
“É manter e ser capaz de sustentar a coletividade de acordo com o quadro terrível em que vivemos. Já não é só de agora! A crise das coletividades, hoje em dia, é maior porque há menos meios, mas há uma década que as coletividades têm problemas.”
“As pessoas não gostam muito de ser criticadas nos palcos”
Além dessa crise direta, mas indiretamente ligada à mesma, há um forte protesto nacional por parte de quem promove a cultura.
“Pois. Não há apoio das entidades! As autarquias? Sim, são as entidades mais próximas. Mas também a nível do país. Pois se os orçamentos são escaços e o da Cultura é, extremamente, mitigado, as autarquias estão condicionadas e o que sobra é mais para o futebol do que, por exemplo, para o Teatro. Aliás, o Teatro sempre foi o parente pobre, porque as pessoas não gostam muito de ser criticadas nos palcos. Agora, a coisa não tem assim tanto impacto, mas, antigamente o Teatro tinha muita força! O Teatro era uma força de provocação …
E há muitas coletividades de teatro amador reconhecidas a nível nacional, e não só…
“Há grandes coletividades de teatro amador sediadas no Grande Porto, nomeadamente, em Avintes. Nós, “Aurora da Liberdade”, e os dois principais grupos de Avintes, nos anos 60, fizemos chegar, grandes peças ao Teatro da Trindade, em Lisboa…”
E havia nessa altura um concurso, do qual não me recordo o nome, que reunia todas as trupes, ou grupos dramáticos do país…
“Era o Concurso Nacional de Arte Dramática, do Secretariado Nacional de Informação (SNI). Havia júris que vinham ver as peças, e que, depois, as selecionavam para as finais, em Lisboa. “
Já depois da Censura ter entrado em atividade?!
“A Censura havia. As peças eram todas censuradas!”
Mas havia aquela ginástica intelectual para dar a volta ao texto.
“O que eles cortavam tinha que se ultrapassar!”
Intercâmbio e dinamização cultural
A “Aurora da Liberdade”. 2012. Século XXI. Como está?
“Está como a sociedade civil. Está um pouco anémica. Está como o País… anémico! Temos grandes dificuldades, não há dinheiro e vamos aguentando o barco. O nosso objetivo, como já referi, é manter a coletividade viva, atuante! Se não fizer cinquenta atividades por ano – como fazíamos – que, pelo menos, faça trinta. O importante é manter a coletividade em animação, pelo menos, ao fim-de-semana, para conseguir chamar os sócios e a população. Isto com ranchos folclóricos, ou com tunas musicais, ou com espetáculos de teatro intercambiados com outras instituições…”
Há um intercâmbio institucional.
“Sim. Fazemos um espetáculo de teatro por ano. Este ano não foi possível, mas, mesmo assim, ainda trouxemos cá alguns grupos. Vieram cá representar umas “Revistas”, umas Comédias, depois espetáculos de variedades. Proporcionamos também as nossas instalações para proporcionar espetáculos organizados por instituições do concelho. Recentemente, e com casa cheia, tivemos a III Gala da Unidade Local de Saúde “Horizonte”. Essa Unidade promove, anualmente, uma festa para os seus utentes e quem é que participa na festa? Os próprios utentes! Uns fazem teatro, outros cantam o fado… enfim, tivemos um grande espetáculo!”
O, ou a, Aurora da Liberdade teve uma secção de colecionismo. O que é feito dela?
“O Aurora teve, durante muitos anos, uma secção de colecionismo. Era de numismática, filatelia e filumenismo e depois também medalhística. Ela está agora um pouco adormecida, na medida em que as pessoas, que estavam ligadas a isso, também foram envelhecendo, e o interesse pelo colecionismo esmoreceu um pouco. Um dia ressurgirão os colecionadores e, então, nessa altura, teremos instalações e condições para os receber”.
“Remodelação do nosso teatro nunca passou do papel”
E têm as instalações adequadas para exercerem a vossa atividade?
“Sim. Era suposto termos o teatro completamente remodelado, mas. a verdade em que em 2006, o atual presidente da Câmara de Matosinhos esteve aqui, prometeu, solenemente, na data do nosso aniversário, uma remodelação do teatro; chegou-se a fazer um projeto muito bonitos; chegou a ser um projeto que serviu para campanha eleitoral; chegou esse projeto a sair nas revistas da Câmara pensando as pessoas que a obra estava feita, mas não, a obra nunca passou do papel! Chegou a haver no Orçamento 35 mil contos, que era o que custava por aqui um teatro de bolso moderníssimo. O dinheiro estava lá mas foi retirado para outras coisas. Aqui, nem um prego foi pregado! Foi um ludíbrio absoluto, que nos desanimou muito! Além disso saiba que a coletividade, há mais de dez anos, não recebe um único subsídio.”
O teatro “Constantino Nery” e o “show-off
Foi uma falta de consideração por parte da autarquia?
“Não. Eu achei, e acho, que foi uma falta de perspetiva cultural, no sentido de que tudo o que não é uma atividade cultural de massas – esta não é uma atividade cultural de massas -, isso não lhes interessa. A verdade, é que não existe atividades culturais de massas, pelo que foi mais importante para a Câmara fazer uma obra, para o show-off externo, do “Constantino Nery”, onde gastaram uma pipa de dinheiro. Esse teatro foi abaixo. Foi gasto um balúrdio para o reconstruir.
O que lá está é muito mais show-off do que Matosinhos precisava, porque quem pratica cultura como verdadeiramente deve ser – sem interesse económicos ou financeiros – são as coletividades. Elas é que são o suporte cultural do concelho. Nós é que somos o ex-libris cultural do concelho. Somos o repositório da história cultural de Matosinhos! O Teatro (Constantino Nery) que ali está, não é para as instituições, porque destina-se a um grupo de profissionais, que trazem umas pessoas do Porto às quais lhes pagam a peso de ouro, que dizem que aquilo está sempre cheio, mas, entre nós, não é bem assim. O “Constantino Nery” não dá lucro. A cultura não é para dar lucro, mas também não é para dar tanto prejuízo!”
“Não andamos por aí a pedinchar”
Quer com isso dizer que as coletividades não têm apoio da autarquia?
“Quero! Apoios as coletividades tiveram noutros tempos! Há cerca de 13 anos para cá, pelo menos, o “Aurora da Liberdade” nada tem tido! E veja que a crise só começou, como dizem, há dois anos! Arranjam sempre uma desculpa para nada nos dar, mas nós, mesmo assim, não andamos por aí a pedinchar. Temos uma história, temos um trabalho próprio”.
A Aurora da Liberdade acompanhou o evoluir de Matosinhos, porque, o concelho, nada tem a ver com o Matosinhos de há duas ou três décadas?
“Acompanhou! Mas a vida das coletividades é muito difícil. A juventude, por exemplo, é, hoje, muito mais difícil de reter nas coletividades citadinas. Uma coisa é termos uma coletividade em Avintes – como devido respeito por Avintes – e outra é ter uma coletividade em Matosinhos. Como antigamente, no Porto, Os Fenianos tinha um movimento extraordinário, e agora, é o que é!” As pessoas, antigamente, não tinham muitos locais para onde ir e, como tal, iam para as coletividades. Agora, a oferta é brutal.”
Mas as coletividades têm de reagir.
“E as coletividades reagem. Se não tivessem reagido já todas tinham fechado as portas. E reagem porque têm atividades, já não têm é tanta vida, tanto pulsar, por isso é que temos de enveredar, há uns anos a esta parte, por atividades permanentes ao fim-de-semana, de caráter lúdico-cultural.”

Uma instituição democrática
Têm danças de salão?
“Estamos a preparar uma secção de danças de salão. Está na calha. O que poderá trazer mais juventude à nossa instituição”.
Portanto, em termos de futuro…
“… em termos de futuro é mantermo-nos firmes. A nossa instituição teve sempre uma grande preocupação de liberdade e, internamente, fomos sempre uma instituição democrática. Aqui nunca houve política partidária, nem religião. Dentro da nossa coletividade nunca se fez um grupo clandestino para atuar ali ou acolá.”
É cultura, cultura e mais cultura…
“Cultura e liberdade.”
Continua-se à procura da aurora?
“Todos os dias as podemos encontrar. Tanto a aurora como a liberdade. Depois do 25 de abril andávamos todos contentes porque tínhamos liberdade, mas liberdade só não chega. Hoje, a liberdade é a de sermos explorados e não podermos reagir. É uma liberdade estranha, não é? Temos a liberdade de poder falar sobre aquilo que nos acontece, mas isso também não leva a lado nenhum. Falamos, falamos, falamos e eles não se importam que nós falemos, o que eles não querem é que nós atuemos.”
A Aurora da Liberdade recomenda-se. Está bem de saúde?
“Recomenda-se! Estamos a lutar para que a coletividade mantenha a sua identidade e não perca a sua pujança pelo menos para ver se continua a estar ativa, o mais ativa dentro do possível, para poder continuar a servir a comunidade e cumprir a sua história o seu destino… o destino que os fundadores lhe deram em 1906!”.
Texto: José Gonçalves
Fotos: António Amen





