“A destruição do litoral tornou-se a regra. Constituiu-se nas últimas décadas como uma força arrasadora, uniformizante, betonizante, ocupando vastas áreas com valor natural e cénico, reduzindo e fragmentando os habitats, descaracterizando a paisagem. Para quem anda nestas lides, para quem olha com olhos de ver, têm sido múltiplas as actividades humanas que acossam a zona costeira, com as praias, os estuários, os fundos marinhos, a paisagem, a biodiversidade e, englobando tudo, a qualidade de vida, a degradarem-se a um ritmo nunca antes verificado. Tudo em nome do progresso, da economia, do desenvolvimento. Melhor dizendo, em nome de um paradigma de desenvolvimento já ultrapassado.” (do prefácio do livro de Álvaro Reis “A Praia dos Tubarões – Ordenamento e Gestão da Orla Costeira)
A erosão costeira que se faz sentir no litoral do conselho de Ovar, durante muitos anos mereceu particular atenção e estudo do ambientalista natural de Ovar, Álvaro Reis, engenheiro, Mestre em Ciências das Zonas Costeiras, pela Universidade de Aveiro em que, defendeu uma tese sobre a “Avaliação da erosão costeira entre as praias de S. Pedro de Maceda e do Torrão do Lameiro (Ovar)” com vários livros publicados e uma intervenção critica à falta de um verdadeiro plano de ordenamento da orla costeira e, nomeadamente, à comoda solução do recurso às obras pesadas, que, no caso concreto da praia do Furadouro tem apenas adiado o problema e, através do modelo de “proteção maciça” da frente oceânica, com base na construção de esporões, molhes, paredões e enrocamentos, o resultado bem visível no litoral ovarense, tem sido uma forte degradação das estruturas naturais e o incremento da erosão costeira, como sempre tem alertado, sensibilizado e denunciado este ambientalista, cada vez mais acompanhado por mais vozes de inquietação, ainda que, quase votado ao ostracismo pelos decisores políticos na temática dos riscos na Orla Costeira com particular enfoque no litoral do concelho de Ovar.
Muralha de pedra
A já longa experiencia de luta com o mar que se trava no Furadouro tem resultado ao longo das últimas décadas na estratégia imediatista de enterrar pedra sobre pedra no areal da praia em cada ano mais reduzida, tratando-se da situação mais grave de erosão costeira da Europa, como é reconhecido pelo Departamento de Ordenamento e Regulação do Domínio Hídrico na Agência Portuguesa do Ambiente (APA) que aponta para o avanço do mar na ordem dos 100 metros em 50 anos.
Com ciclos de crise na orla costeira de Ovar, sujeita aos duros efeitos destruidores dos temporais cada vez mais curtos entre si, nos anos em que mais se fazem sentir as consequências da destruição de equipamentos e estruturas públicas, como tem acontecido, repetidamente, nos últimos anos na praia do Furadouro, tendo o ano de 2013 sido mesmo considerado um dos piores invernos na memória da população. A necessidade de proteção de equipamentos, da malha urbana e dos bens das pessoas, continua a não deixar espaço a outro tipo de estratégias, que não seja prosseguir a política da pedra para reabilitação da defesa aderente desta praia do concelho de Ovar.
A situação é de tal forma grave, que, ao contrário de ciclos anteriores de intervenção na construção e manutenção das defesas através de esporões e enrocamentos, tipo “fortificações” em pedra ao longo das praias entre Esmoriz, Cortegaça e Furadouro. A falta de intervenção no reforço destas defesas, são agora notadas apenas num só ano de ausência de obras de recuperação de tais defesas. Para atenuar os receios de quem tem convivido com imprevisíveis ameaças do mar a galgar com grande facilidade e a inundar as ruas do Furadouro, as obras para proteção da frente urbana, arrancaram ainda em setembro com a consolidação das defesas que têm sido construídas ao longo de várias décadas no Furadouro. Esta obra, que está avaliada em 713 mil euros para além da defesa costeira de toda a frente urbana, através da construção de uma estrutura longitudinal aderente, inclui ainda a requalificação da proteção dunar a norte. As obras em curso não escapam, no entanto, à visão crítica dos residentes do Furadouro, que temem continuar a ver a sua praia alvo de mero experimentalismo, que vem descaraterizando a olho nu a paisagem desta praia.
Ainda no âmbito do Plano de Ação de Proteção e Valorização do Litoral (PAPVL) que prevê até 2015 a aplicação de 303 ações, destacando-se 153 de prioridade máxima, para um investimento global superior a 400 milhões de euros. Estão contempladas as praias de Esmoriz, Maceda e Cortegaça para beneficiarem de obras de reposição das defesas aderentes, sempre na linha do negócio da pedra, como resposta mais eficaz às inquietações dos residentes e seus bens, assim como dos autarcas que reclamam dos sucessivos governos intervenção na orla costeira, independentemente, da sempre adiada conclusão de soluções mais adequadas para a realidade da orla costeira ovarense.
Em estudo continua no Departamento de Recursos Hídricos na APA a viabilidade de se avançar ou não, para a defesa da praia e do aterro sanitário de Maceda através da designada “defesa submersa”, através da qual se procura diminuir a ação energética do mar. Sistema de defesa que tem animado e deixado na espectativa os autarcas locais.
Anos sucessivos de destruição
Os últimos anos têm deixado profundas marcas dos efeitos da erosão costeira no Furadouro com a destruição de equipamentos e estruturas. Particularmente a zona central da marginal tem sido a mais fustigada pela fúria do mar em invernos mais pesados, que têm resultado na degradação e fragilização dos sistemas de defesa aderentes, fazendo ruir pavimentos e muretes mesmo em frente da avenida Central e ao longo da marginal na parte sul do esporão norte.
Sinais de destruição que ainda são visíveis e que, no caso dos ocorridos até 2010 e 2011 deram origem a uma primeira fase de obras de reforço na praia do Furadouro, que passou pelo prolongamento da defesa então já existente entre o esporão norte e as escadas de acesso ao areal, como os primeiros 100 metros que procuraram responder aos riscos de destruição na zona central da marginal, de um total de 400 que serão concluídos na atual intervenção em curso.
Nesta fase inicial de intervenção nas defesas aderentes (2011), o contrato de obra assinado pela Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Centro e financiado pelo Programa Operacional de Valorização do Território, contemplava um orçamento de 310 mil euros, para uma obra que se propunha, como uma “solução mais duradoura”, defendida pelo executivo da anterior gestão da Câmara Municipal de Ovar, considerando a necessidade de fazer diminuir o galgamento das ondas do mar que se vulgarizaram a inundar a marginal e diversas artérias do Furadouro, através do reforço das estruturas de defesa longitudinal que foram entretanto sendo fragilizadas pelos temporais e a forte erosão costeira.
Defesa dunar
Simultaneamente às opções pelas obras pesadas e aos erros de políticas urbanísticas que descaraterizaram o Furadouro, desafiando o mar, as recentes intervenções têm manifestado alguma “sensibilidade” para a componente da defesa dunar, através de alternativas que conduzem ao restabelecimento dos volumes arenosos das praias. Assim, num espaço que funcionou como estacionamento de automóveis em frente ao mar, foi construído artificialmente um cordão dunar, através da empreitada de Requalificação Ambiental da zona sul que retirou os automóveis daquela zona na continuação da marginal, na perspetiva de assegurar a manutenção equilibrada desta zona costeira, ainda que cheia de contrastes ambientais e urbanísticos. Valeu, no entanto, a intenção, já que a consolidação de tal campo dunar, mesmo que artificial, permitiu restituir aos locais e aos veraneantes, mais um espaço agradável de lazer junto ao mar.
Este novo espaço de lazer no sul do Furadouro permite ainda observar na linha do horizonte o impressionante avanço do mar pelas dunas a dentro mal termina a “muralha de pedra”. Uma porta verdadeiramente escancarada á fúria do mar que já engoliu literalmente toda a duna primária até ao Torrão do Lameiro e, entra aceleradamente numa área de terreno dunar que ironicamente a ORBITUR S.A. mantêm bem assinalado com marcos reforçados e renovados, dando conta da sua irónica pretensão da posse sobre tal estranho património numa área que tarda em ser assumida como património ambiental protegido, que ponha fiz a qualquer tentativa de projeto imobiliário ou outro, numa área dunar tão apetecível.
Também na parte norte da praia do Furadouro igualmente sujeita à pressão da erosão costeira sobre as dunas. O sistema de defesa que já alguns anos foi construído através de passadiços em madeira, para preservar e consolidar uma significativa área dunar natural, através da qual é assegurado o aceso ao areal da praia sem destruir as dunas e suas plantas. Está a beneficiar de intervenção no âmbito das obras em curso nesta nova fase de reforço das defesas aderentes que se estendem para a zona norte da praia em que curiosamente já se encontra pedra de obra de outras décadas (anos setenta) ali no Furadouro.
As dúvidas mantêm-se
Voltando às teses de Álvaro Reis, um ambientalista incómodo para os autarcas e decisores políticos, “As praias não engordam, nem as dunas têm deixado de recuar com a construção dos campos de esporões (…)Tão pouco a linha de costa tem deixado de recuar com a presença de enrocamentos e de paredões…” e acrescenta ainda no seu livro A Praia dos Tubarões, “Há, pois, que usar o bom senso e utilizar a opção ou opções que mais se aproximem da solução de cada problema, mesmo que para tal, seja necessário abandonar a opção mais cómoda – as “fortificações” em pedra. Até porque em outros países pioneiros em lidar com os problemas litorais a opção das obras de «defesa pesada» está totalmente ultrapassada.” E concluiu. “Afinal, a história da humanidade mostra que em muitos outros campos, as estratégias e as tecnologias que fizeram época, logo foram sendo substituídas quando consideradas inapropriadas ou obsoletas. Com a defesa do litoral português, caso esta constitua uma opção sine qua non, terá que acontecer o mesmo.”
Texto e fotos: José Lopes
(correspondente “Etc e Tal Jornal”, em Ovar)
01-jan-14






Os leitores do Etc e Tal Jornal merecem que se deixem aqui mais algumas notas sobre a evolução da erosão costeira, nomeadamente sobre a área critica em que se transformou a zona sul do Furadouro, de que os autarcas pouco falam e os governantes escamoteiam, centradas que estão as atenções na parte frontal do Furadouro e do ataque do mar aos apoios de praia junto ao areal cada vez mais curto.
Na sequências das últimas investidas do mar, o inevitável aconteceu a sul, com o mar a romper fácilmete a zona dunar já delapidada e facilitadora para autenticos canais de água do mar correrem para zonas baixas, bem perto das casas mais indefesas, como são as casas de habitação social. Ficaram na paisagem verdadeiras lagoas que testemunham e deixam antever o que está para acontecer nos próximos tempos em que são previsiveis grandes alterações na paisagem da linha de costa no Furadouro.
Uma vez mais, o “Etc e Tal Jornal” antecipou-se, em interesse informativo, e na verdade dos factos à realidade. Realidade que se veio a confirmar nos últimos dias com a revolta do mar. Este artigo é revelador de uma chamada de atenção, publicada a 01 de janeiro de 2014, mas que tem anos de história, e só hoje o sr. ministro do ambiente se deslocou precisamente a Ovar… à tal praia de pedra do Furadouro, e com pedras o mar fez a sua intifada recentemente.
Parabéns ao diretor deste jornal, que acompanho há já algum tempo, pela passagem do seu quarto aniversário, e ao autor do artigo (José Lopes) que tem assinado artigos de interesse .
Relativamente ao marco da Orbitur S.A. o escândalo é flagrante, mas até hoje ninguém (responsáveis autárquicos e do poder central) quer assumir posição concreta, apesar de quem está por detrás destes enorme patrimínio ambiental no Sul do Furadouro com tais marcos quase a serem engolidos pelo mar, ser capital com interesses imobiliários que não desarma dos seus projectos (atentados ambientais)!
Por outro lado, e relativamente ao cenário de medo que a furia do mar tem provocado nestes dias, a verdade é que os “ciclos” cada vez mais curtos entre si, dos temporais com maiores impactos de destruição na orla costeira ovarense. São de tal forma inquietantes, que nem dão tempo de qualquer eficácia às obras pesadas, já de si discutiveis sobre a sua eficiencia, como mais uma vez parece estar a ser provado, desde logo no Furadouro! Resta assim transformar estes dias de temporal e destruição repetida das próprias defesas que tentam edificar nas praias de pedra sobre pedra, em romarias para deputados, governantes e autarcas, reivindicando aos governos em sucessiva alternância, soluções, que não são mais do que repetir a estratégia das últimas décadas. Ou seja, enterrar pedra na areia, sem eficácia visivel com oa tais “ciclos” de destruição cada vez mais curtos e até estranhamente facilitados pelas obras que têm sido feitas, proporcionando uma entrada do mar ainda mais triunfante. Algo estranho, mas bem real na orla costeira de Ovar.
Quando se vão sentar à mesma mesa os vários especialistas na matéria (ambientalistas, universidade, governnates, autarcas e até a sabedoria popular)? Naturalmente para salvaguardar alguns dos graves erros cometidos ao longo de décadas por autarcas e governantes de várias cores. Erros e aventuras, que à muito estão a ser suportadas pelos impostos de todos nós de forma tão inglória… enterrando pedra sobre pedra nos areais destas praias.
Não se diga que só há uma solução, porque esta que nos querem impingir, já ficou provado que não suporta, nem vai travar o avanço cada vez mais acentuado do mar. É preciso assumir consequências politicas da gestão do passado e tirar conclusões. É preciso ter coragem politica, mesmo que pouco popular. Deixar originar “cabos” nesta zona costeira, vai costar ainda mais no futuro. Cortegaça/Praia é já um cabo acentuado e assim está a ficar o Furadouro com o mar a lamber as dunas a Norte e a Sul.
Concordo em grande parte com o relatado anteriormente, apesar de entender que é necessário ter a consciência que os problemas atualmente não se resolvem de forma tão linear.
São várias as variáveis que existem neste ecossistema tão particular, e quando se deveria ter dado as devidas atenções não se deram, logo, hoje surgem os verdadeiros e galopantes problemas tornando as decisões mais complicadas.
Só umas sugestões:
1 – Desafio a averiguar a zona a sul do Furadouro (o marco da Orbitur SA encontra-se muito mais próximo da linha de costa; isto se o mar não o levar durante a madrugada desta noite [04.01.2013]).
2 – O colapso da defesa aderente entre os esporões do Furadouro, colocando em iminência a derrocada da esplanda do Apoio de Praia Completo (1/2 Praia Caffé).
3 – A fustigação devido ao espraiamento da ondulação na zona norte da praia do Furadouro, onde foi alvo de requalificação.
E ainda podemos andar mais um quilómetros para norte:
1 – Espreite a Praia de São Pedro de Maceda
2 – A zona de acesso à praia de Santa Marinha (Esporão de Cortegaça Sul)
3 – Zona de areal junto ao Parque de Campismo de Cortegaça
Existem muitas outras particularidades, mas acho que já são as suficientes!
P.S.: Lancei o desafio mas alerto para que essas averiguações sejam feitas em dia que o mar esteja calminho e quando não existir alerta amarelo/laranha e/ou vermelho relativamete à agitação marítima.
Consultar: https://www.ipma.pt/pt/