José Luís Montero / Tribuna Livre
Estamos cansados de fumar. Contemplamos como a vida se desfaz como o fumo que enviamos para o ar depois de beijar profundamente o cigarro. Vivemos com problemas próprios e alheios. Fumamos; queimamos constantemente alguma coisa quer por vontade própria ou pela vontade do governo de turno que dizendo que nos está a salvar, nos empurra mais um bocadinho para a cova.
Há bastantes anos, presentemente muito mais, os economistas e especialistas em economia emanam conhecimentos; verdades; mentiras; gráficos; estatísticas e um sem número de expressões e palavras herméticas que – muitas vezes- penso que estou a ouvir ou a ler um iniciado nalguma coisa transcendental e não numa ciência que resultou ser ciência nenhuma.
Não há muitos anos, existiam muitas moedas na Europa. Existiam o escudo, a peseta, o marco e em cada País tinham um preço de mercado; no mercado interno e externo. Sabíamos que se um empresário (foco este agente social porque na sociedade capitalista em que vivemos dizem que é peça fundamental no aparelho produtivo.) algarvio se aproximava a um Banco e pedia dinheiro, sabíamos o preço desse dinheiro; depois, sabíamos que se um empresário do Minho fazia o mesmo movimento, sabíamos que esse dinheiro tinha o mesmo valor-preço para ele. A moeda era uma e seu preço era único. No entanto, hoje, na Europa, temos em muitos países moeda única. Temos o euro. Criamos este novo brinquedo e quando o inventamos fizemos arraias e talvez tenhamos bebido aguapé. Sentimo-nos felizes e uns casaram-se; outros foram passar férias às Caraíbas e outros comeram bacalhau como se fosse Natal.
No entanto, essa Europa não era homogénea; como dizem os fabricantes de eufemismos para evitar pronunciar as palavras pobres e ricos: existiam desequilíbrios. O comité de sábios que desenhou a nova moeda através das suas contas macros e mais um sem fim de nomes irreconhecíveis para o cidadão médio, pensou: para que esta moeda seja estável será necessário corrigir os tais desequilíbrios. Como se faz? Criando economia produtiva. Os políticos de aqui e além Pirenéus e os equilibrados do Norte (leia-se Alemães, etc.) comprometeram-se a criar, gerar a tal economia produtiva nos Países do Sul coxos e desequilibrados para não dizer pobres.
Evidentemente, o dinheiro estava onde está sempre porque se o guardamos no colchão chamam-nos atrasados. O dinheiro estava na Banca alemã. Que fez a Banca? Que fizeram os políticos de aquém e além Pirenéus? Vender o lindo sonho da classe media. A classe colchão. A classe que pode ter apartamento na cidade e na praia; carro para o cão e para o gato e televisão ao pé do tacho e da barbecue.
Para tal sonho era preciso ter cartão de crédito e falar com o banco… E os apartamentos floresceram e a televisão no WC começou a ser uma boa companheira porque desta forma não se perderia nada deste dramático e trágico Big Brother. Economia produtiva? Onde? Já a tinha Alemanha e Cia e precisavam de vender. O sul desequilibrado, o sul pobre virou consumista; virou mercado. Comprou tudo incluídos fatos de banho a prestações.
Neste processo que levou a tanta coisa e ao suicídio existem culpados e evidentemente os poderes políticos e financeiros possuem os meios para criar e amoldurar opiniões. Em primeiro lugar, a culpa, dizem, é do cidadão porque comprou… Em segundo lugar a culpa é do político ou políticos que já não estão e seguidamente é dos Banqueiros que foram atrapados. Evidentemente, a culpa pode ser de todos estes, mas, também é em grande parte dos presentes. A necessidade de consumo, todos sabemos isso, é uma necessidade que se cria e na qual se investe muito dinheiro. Portanto, eu como cidadão só posso ser culpado no grau de embaucado. Não comprei mais do que devia; só comprei o que tinha facilidade para comprar. E eu como cidadão só me posso acusar de me deixar levar pela publicidade.
Mas, e os outros?
Quem gerou essa vontade de consumo e quem deu essas facilidades e quem permitiu que o dinheiro fosse para o consumo e não para a economia produtiva segundo indicaram os “sábios do euro”? Esses que são? Quem foram? Foram os Bancos Centrais de cada um dos países; foram os governos dos países; foi Bruxelas; foi o Banco Central Europeu porque não fizeram o que deveriam ter feito. São todos e no seu conjunto culpados porque todos e cada um tinham obrigação supervisora; fizeram? Não.
Então, enterrado o paraíso da classe media, arribam, quão manhã de nevoeiro sebastianista, uns troicos, uma Merkel, a contar ao sul como se pode solucionar a questão. Em primeiro lugar: tu que estás na miséria, se queres dinheiro pagas o dinheiro mais caro. O euro para ti tem um preço e não é o mesmo que tenho eu; é mais caro. Imagino que algum político do sul, talvez enganando-se, tenha perguntado: temos que produzir, portanto, o dinheiro diretamente para a produção como é? Também, mais caro… Imagino que esse político do sul estava num dia de enganos e continuou a fazer perguntas: mas, as nossas economias apoiam-se fundamentalmente na pequena e média empresa e se o dinheiro é caro para este tipo de empresas terão que fechar; como solucionamos isso? Fecham ou reduzem salários.
Decididamente o nosso político do sul estava num dia azarento e continuou: mas, então o desemprego será maior; o consumo cairá e não teremos solução possível. Teremos que sair do Euro? Não, isso não! Se o sul sai do euro também caímos nós. Vocês cortam na Saúde; na Educação; nos funcionários; nas reformas e deus dirá…
O nosso político do sul ficou além de azarento, confuso; procurou um bar e enfrascou-se em aguardente velha. Foi pensando e disse em voz alta, já meio bêbado, a um transeunte: o Euro tem dois preços diferente para um empresário de parafusos na Moita e para um que esteja em Munique. Logo, somos obrigados a ser competitivos porque temos que ter qualidade e preço. O parafuso da Moita é mais caro; como poderá fazer o Zé da Moita? Pagar menos e que os trabalhadores trabalhem mais. E fica como o mau da fita e o Zé de Munique como o bom da fita… Então, este nosso querido político do sul que fez? Denunciou a situação ao seu cidadão e eleitor? Não; calou e aplicou as medidas; decidiu ser o maior dos traidores ao seu Povo e o melhor dos mordomos dos que enriquecem cada vez mais e produzem com o euro barato.
01-jan-14
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Gostei! detalhado, informativo e com humor. Que pena o final ser infeliz….
Excelente trabalho!