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Poesias sonoras e Fado em tempo real (05)

Cristóvão Sá-TTmenta

Quando passei a assistir a sessões de fado dito “vadio”, é mesmo dito, porque de vadio nada tem, habituei-me a ouvir os cantores pedirem aos músicos a melodia que iriam cantar. Mas também diziam em que tom o fariam. Igualmente passei a fazê-lo – à terra onde fores ter faz como vires fazer. Ainda hoje me espanta a capacidade/competência dos músicos de fado tocarem sem pauta. Muito mais de aplaudir quando diferentes cantores pedindo a mesma melodia em Ré, Fá, Dó… Lá, o fazerem com maestria. Notável. Parabéns guitarristas e violas de fado. Uma das mais pedidas é a Marcha. Mas acrescentam “… do Marceneiro”. E destacam este pormenor pois há outros fados conhecidos por Marcha. São disto exemplos a Marcha do Correeiro, a de Manuel Maria e outras.

Alfredo Marceneiro
Alfredo Marceneiro

Tenho a convicção que a Marcha de Marceneiro é uma das melodias mais cantadas nos círculos do fado. Talvez por isso, numa das sessões da Oficina de Escrita, foi-nos pedido para escrever um poema para esta melodia. Ao ouvi-la, excelentemente tocada pelo António Reis, pus-me a escrever algo que percecionei depois não se adequar ao tom nostálgico, mesmo triste da melodia. Inspirei-me então num acontecimento que me marcou muito e ainda hoje o relembro, com mágoa e saudade. Depois da inspiração veio o trabalho. Do qual resultou o poema FUGA, adiante.

Cristina Gonçalves (fadista)
Cristina Gonçalves (fadista)

Para este poema a fadista Cristina Gonçalves, uma das cantadeiras que conheci durante as minhas viagens pelos territórios do fado, pediu-me para o cantar na melodia do Fado Vitória (Povo que Lavas no Rio, por exemplo, https://www.youtube.com/watch?v=NMLUxxjSVMs). Disse-lhe que sim. Saliento este aspeto pelo facto de haver muitos exemplos de o mesmo poema ser cantado em diferentes estruturas musicais de fado tradicional. A Cristina ajustou, com a minha autorização, que pediu e anui, a sequência dos versos. Não o matou e acrescentou sentimento, já que a intenção e as palavras assim o pediam.

Como tenho feito anteriormente, vou apresentar-vos o poema e um exemplo da melodia para que foi escrito, tal e qual como foi originariamente escrito.

Música: Fado Marcha (Alfredo Marceneiro)

Exemplo: José Rodrigues (https://www.youtube.com/watch?v=rTxE6Oyz3v4)

FUGA

 

Barca aporta o cais

Esfria alma sofrida

A espuma guarda flor

Prenhe de dores e ais

Chorando folha perdida

Transformada em calor

 

Foste lesto sem pedir

E ter minha permissão

Vazio de não dizer

Fiquei mudo do partir

Tão rápida ascensão

Calou fundo o meu ser

 

Pouco contigo estava

A vida criou barreiras

Olhámos juntos os sonhos

O torpor os separava

Abrimos lonas e esteiras

Mas cerro olhos tristonhos

 

De não poder construir

Agora minha vontade

De te prender e atar

Força que está por vir

Reforçando amizade

Dando morte ao passar

 

Foto e cartoon: pesquisa Google

 01jul18

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