Cristóvão Sá-TTmenta
Quando passei a assistir a sessões de fado dito “vadio”, é mesmo dito, porque de vadio nada tem, habituei-me a ouvir os cantores pedirem aos músicos a melodia que iriam cantar. Mas também diziam em que tom o fariam. Igualmente passei a fazê-lo – à terra onde fores ter faz como vires fazer. Ainda hoje me espanta a capacidade/competência dos músicos de fado tocarem sem pauta. Muito mais de aplaudir quando diferentes cantores pedindo a mesma melodia em Ré, Fá, Dó… Lá, o fazerem com maestria. Notável. Parabéns guitarristas e violas de fado. Uma das mais pedidas é a Marcha. Mas acrescentam “… do Marceneiro”. E destacam este pormenor pois há outros fados conhecidos por Marcha. São disto exemplos a Marcha do Correeiro, a de Manuel Maria e outras.

Tenho a convicção que a Marcha de Marceneiro é uma das melodias mais cantadas nos círculos do fado. Talvez por isso, numa das sessões da Oficina de Escrita, foi-nos pedido para escrever um poema para esta melodia. Ao ouvi-la, excelentemente tocada pelo António Reis, pus-me a escrever algo que percecionei depois não se adequar ao tom nostálgico, mesmo triste da melodia. Inspirei-me então num acontecimento que me marcou muito e ainda hoje o relembro, com mágoa e saudade. Depois da inspiração veio o trabalho. Do qual resultou o poema FUGA, adiante.

Para este poema a fadista Cristina Gonçalves, uma das cantadeiras que conheci durante as minhas viagens pelos territórios do fado, pediu-me para o cantar na melodia do Fado Vitória (Povo que Lavas no Rio, por exemplo, https://www.youtube.com/watch?v=NMLUxxjSVMs). Disse-lhe que sim. Saliento este aspeto pelo facto de haver muitos exemplos de o mesmo poema ser cantado em diferentes estruturas musicais de fado tradicional. A Cristina ajustou, com a minha autorização, que pediu e anui, a sequência dos versos. Não o matou e acrescentou sentimento, já que a intenção e as palavras assim o pediam.
Como tenho feito anteriormente, vou apresentar-vos o poema e um exemplo da melodia para que foi escrito, tal e qual como foi originariamente escrito.
Música: Fado Marcha (Alfredo Marceneiro)
Exemplo: José Rodrigues (https://www.youtube.com/watch?v=rTxE6Oyz3v4)
FUGA
Barca aporta o cais
Esfria alma sofrida
A espuma guarda flor
Prenhe de dores e ais
Chorando folha perdida
Transformada em calor
Foste lesto sem pedir
E ter minha permissão
Vazio de não dizer
Fiquei mudo do partir
Tão rápida ascensão
Calou fundo o meu ser
Pouco contigo estava
A vida criou barreiras
Olhámos juntos os sonhos
O torpor os separava
Abrimos lonas e esteiras
Mas cerro olhos tristonhos
De não poder construir
Agora minha vontade
De te prender e atar
Força que está por vir
Reforçando amizade
Dando morte ao passar
Foto e cartoon: pesquisa Google
01jul18
Parabéns Cristóvão por mais esta aventura bem sentida e bem conseguida!