“Em Ovar, os azulejos são um bem patrimonial e um elemento diferenciador que marca a imagem e a história da cidade. A expressão «Ovar, Cidade-Museu Vivo do Azulejo», atribuída por Rafael Salinas Calado(*), resulta da quantidade e diversidade de fachadas azulejadas e ornamentos datados do século XIX/XX. Para salvaguardar, valorizar e preservar o património cerâmico deste concelho, é criado, em 2000, o Atelier de Conservação e Restauro do Azulejo (ACRA) da Câmara Municipal de Ovar.” (lê-se no site do Município de Ovar).
Ainda que, sendo a promoção e valorização do património azulejar de Ovar, uma vertente da politica municipal assumida por sucessivos executivos, através de diversificadas estratégias e eventos como: criação e consolidação da ACRA em 2000 e toda a atividade desenvolvida na inventariação, catalogação, preservação e conservação da azulejaria ou reprodução de padronagens azulejares características deste tipo de revestimento das fachadas em Ovar; “Maio do Azulejo”; “Espaço Lúdico do Azulejo” instalado na Escola de Artes e Ofícios; “visitas guiadas”; iniciativas realizadas com a comunidade escolar do concelho, com a inclusão no programa da ação SOS Azulejo Escolas 2019, entre outras iniciativas a exemplo dos apoios económicos no âmbito do projeto municipal para preservação e conservação de fachadas azulejares. Tudo parece ser uma luta contra o tempo na valorização e preservação deste património arquitetónico de Ovar, tais são os sinais de situações críticas, que colocam em risco outras tantas fachadas, comparativamente com as que vêm sendo intervencionadas tecnicamente pela ACRA.
O mais flagrante e perturbador cenário de ruinas, que já algum tempo ameaça desmoronar a qualquer momento mais uma antiga fachada azulejar, pode-se observar na rua Gomes Freire, junto ao Parque Almeida Garrett, em que um edifício que se destaca nos seus vários elementos arquitetónicos pelas características azulejares de padronagem quase rara na cidade, ali se encontra em queda iminente, sem qualquer tentativa de pelo menos, salvaguardar o maior número de azulejos originais. Peças de arte cerâmica que lamentavelmente acabarão destruídas em bocados nos escombros que se acredita possam ser eminentes, tal é o estado do imóvel abandonado, com todas as consequências para a segurança dos próprios transeuntes.
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Com diferentes estados de degradação e riscos de queda de azulejos, facilmente se podem identificar outros tantos imóveis que nada ajudam a dignificar este património, que através de roteiro turístico se quer promover e divulgar.
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Sendo o azulejo, para além de um importante revestimento de fachada, uma expressão artística tipicamente portuguesa, a sua preservação está também indissociável da sensibilização dos próprios proprietários, mas de parte a parte não tem sido fácil ultrapassar dificuldades e condições que garantam uma adequada intervenção técnica que permita salvaguardar, dignificar e valorizar este património em coerência com a referida expressão «Ovar, Cidade-Museu Vivo do Azulejo».
Ao longo de décadas foram-se perdendo raros exemplares de padronagens azulejares característicos que revestiam as fachadas em Ovar, e apesar de todo o trabalho desenvolvido pela ACRA aos vários níveis de intervenção, bem como as propagandeadas medidas para reabilitação urbana da cidade. A diversidade de fachadas azulejares ao longo das ruas e a sua relevância artística, continua a correr o risco de se ver desaparecer mais alguns tipos de padronagens com suas especificidades próprias, em que predominam os padrões de motivos geométricos e florais, através da técnica de decoração mais utilizada como é a estampilhagem que faziam parte do autêntico mostruário que se podia admirar pelas ruas da cidade de Ovar. Um património que continua a exige mais atenção para a sua efetiva valorização, preservação e conservação.
(*)Falecido em 2006, era museólogo e professor, tendo sido o primeiro diretor do Museu Nacional do Azulejo e conservador no Museu Nacional de Arte Antiga. Tem publicada uma vasta obra sobre cerâmica e azulejo.
Texto e fotos: José Lopes
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