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SEIS ANOS DE TERTÚLIAS NO MUSEU DE OVAR ASSINALADOS COM MAIS UMA CONVERSA ÚTIL COM… AURELINO COSTA

Como começou por realçar o escritor Carlos Granja, o entusiasta dinamizador e moderador das tertúlias realizadas há seis anos no Museu de Ovar, esta foi a 85.ª sessão do evento literário, entretanto designado Conversas Úteis com…, que no dia 6 de setembro teve a participação do poeta Aurelino Costa, que, surpreendeu os participantes com o seu ar “pasmado” a contemplar e a afirmar “gosto dos cheiros”, na sala, “viva de lage granítica e de um céu de castanho e de carvalho”, em que se reuniram amigos poetas, ou da pintura, fotografia, literatura e representação, entre os demais dialogantes presentes, que, como viria a agradecer o poeta convidado, “iluminaram a noite e nos espevitam de vida!”.

Para início de conversa, foi inevitável falar da sua infância e da sua origem, afirmando que, “a minha vida foi feita de metáforas”, lembrando quando a mãe lhe dizia, “estás sempre pasmado”, a propósito dos seus pasmos ali partilhados na sala destas conversas, em que Aurelino Costa parava os diálogos ao toque das horas dos sinos da Igreja Matriz que ali entoavam poeticamente. Pasmos que em sua opinião, “nos leva a representar as várias artes”, ainda que, como sublinhou, “no mundo das artes não nos interessam as regras da imposição do poder”, porque como acrescentou, “a arte para mim é uma interrupção da vida”.

A arte nas suas diferentes vertentes ganhava destaque na conversa moderada por Carlos Granja, que envolveu os presentes numa animada reflexão sobre, “a arte é uma resistência” ou “a arte também é uma forma de libertação”, olhando por exemplo para as fotos de Jorge Bacelar e a pintura de Emerenciano Rodrigues, artista presentes, que lembraram, que, “vivemos o tempo da fotocópia”, por isso, como lembrou Emerenciano, “a arte pode ser importante se a estética não estiver sozinha!”. Nesta relação entre as artes “representadas” nesta assinalada edição de tertúlias, o pintor Emerenciano ainda concluiria, “é preciso ler muito”, porque, “quem não lê não pensa”, e “a imagem precisa da palavra”. Por fim lamentou, “hoje não temos crítica de arte”.

O envolvimento dos participantes nesta conversa útil assumiu o verdadeiro espirito de uma tertúlia poética em que Aurelino Costa falou igualmente dos seus livros, como Gadanha, editado em 2018 pela Modo de Ler, que foi finalista do prémio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em que constam textos, como, “declaração de amor à professora primária”, entre outros que o poeta declamou e acrescentou que, “o leitor também pode refazer a obra”. O poeta surpreendeu ainda os presentes quando partilhou o momento de uma entrevista, em que a jornalista lhe fez uma inesperada pergunta sobre o seu primeiro beijo, e ele responder, “foi a uma vaca”, trazendo assim mais uma vez ao diálogo a sua infância em meio rural dos “silêncios” e dos “cheiros” de que gosta e que identificam a sua obra.

Ainda a propósito da deixa de Carlos Granja, sobre a identificação dos autores de diferentes artes, em que referiu que, “quando se olha para uma obra de pintura de Emerenciano ou para as fotografias de Jorge Bacelar, identificam-se logo”, a exemplo da literatura em que a artista Aurora Gaia, realçou que, “reconheço a origem do texto, nomeadamente do Aurelino”, acrescentando o seu testemunho como leitora (já após os sinos voltarem a tocar para assinalarem a meia-noite e os presentes cantarem os parabéns ao seu aniversário), sobre o “sofrimento da leitura”, quando se “lê um escritor que tem fome de escrever”, e já “não temos idade para um tal ritmo”, desabafou a aniversariante na sua voz poética também inconfundível. Numa noite em que as várias artes dominaram a tertúlias a verdadeira alma destes eventos no Museu de Ovar, deixou ainda um apelo sobre a necessidade de se criar “uma corrente” que permita o artista ovarense Emerenciano Rodrigues concretizar o seu manifesto desejo de doar o espólio da sua obra ao Município de Ovar, o que até ao momento ainda não mereceu resposta.

Os seis anos de tertúlias no Museu de Ovar foram assim assinalados com “alma grande” do poeta e advogado Aurelino Costa, que nasceu em Argivai, Póvoa do Varzim em 1956, autor de uma obra extensa e diversificada, na produção poética e antologias, como: Poesia Solar, (1992); Pitões das Júlias, com Anxo Pastor, (2002); Amónio, (2003), (com 2ª edição em 2006, bilingue, castelhano-português); Na Terra de Genoveva, (2005); Gadanha, (2018). Ou antologias como: A Poesia é Tudo, (2004); Na Liberdade-30 anos-25 de Abril, (2004); Vento-Sombras de Vozes / Viento-Sombra de Vocês, (2004); Os Dias da Criação, (2006); Canto de Mar, (2005); hotel ver mar, (tradução bilingue Português- Alemão), (2009), entre outras obras.

Texto e fotos: José Lopes

01out19

 

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