O facebook pode ter o seu lado negativo, mas também o tem positivo. E nessa última vertente, a possibilidade de se conhecer novas pessoas, com desconhecidas maneiras de estar e de ser; gente nobre, muito própria… sui generis.
E foi, a partir do facebook, que entabulamos contacto com Maria Antónia Viana, sem saber, na realidade, o seu verdadeiro nome. Pela referida rede social, ela apresenta-se como “Estátua Viva”, e, na verdade, traduz a arte (estática) que desenvolve, na rua, ou melhor dizendo, nas ruas de Monte Gordo, no Algarve.
José Gonçalves
(texto)
E foi, diga-se de passagem, muito interessante este encontro, para já telefónico, com a artista natural de Estremoz, mas que tem Évora como cidade de adoção, e que se encontra em Monte Gordo para dar apoio à sua mãe, e, por sinal, foi onde começou a desenvolver esta atividade.
Multifacetada em termos artísticos, esta alentejana de gema que adora magnólias, apaixonou-se à primeira vista com a arte da “estátua viva” há cerca de quatro anos, “pouco tempo”, diz, se tivermos em conta a atividade já desenvolvida durante décadas por outros artistas, como o famoso, e, internacionalmente, conhecido, António Santos.
E, a verdade, é que Maria Antónia Viana (na foto) abraçou a “estátua viva” com 55 anos de idade. Sente-se um pouco velha para início de atividade, mas ultrapassa isso com a paixão com que a desenvolve, e com mais paixão fica quando sente que deixa as pessoas encantadas com a sua estática “atuação” artística…
Vamos, então, saber o que é que levou esta simpática alentejana a ser uma “estátua viva”…

E logo de início, uma surpresa. Sim, uma surpresa, e causada, por nós. E isto porque, como começou por dizer Maria Antónia Viana, “desenvolvo a atividade há muito pouco tempo, por isso ter ficado surpreendida por me terem contactado. Este seria o meu quarto ano de estátua. Além de já ter uma idade avançada, não sou muito experiente, o que não quer dizer que a minha performance seja inferior a qualquer outro. Sou muito dedicada e tenho as várias ferramentas para isso”.
Mas, até que ponto, a idade é, em Arte, algo de impeditivo?
“Tem muito a ver com a criatividade da pessoa. Foquei a idade porque me lembrei do António Santos, que descobriu esta arte, por acaso, em Barcelona, e é graças a ele que hoje há «estátuas». E ele trabalha nisto há trinta anos. Eu só trabalho como «estátua viva» há quatro anos e eu tenho 59 anos!”
Todavia, e a ter em conta a reação que se segue de Maria Antónia Viana, o problema limitativo da idade já foi ultrapassado…
“Bem. Mas, de qualquer das maneiras, tenho maturidade para outras coisas. Aqueles que estão na rua há mais anos terão mais experiência, mas, ao mesmo tempo, eu também tenho uma maturidade que, se calhar, é necessária para desenvolver esta arte”.
“NUNCA TINHA VISTA UMA ´«ESTÁTUA VIVA» E QUANDO VI FIQUEI SURPREENDIDA E DELICIADA…”
Ora, agora sim, está lançada a conversa que envolve muita paixão, dedicação pelo que se faz com amor e que é arte… é Arte!
E tudo começou, portanto, há cerca de quatro/cinco anos, quando Maria Antónia Viana foi como que obrigada a deslocar-se para Monte Gordo, com o intuito de estar ao lado da sua idosa mãe. E eis que…
“Nunca tinha visto uma estátua viva, e quando cheguei a Monte Gordo vi uma, com uma futura colega, a fazer Fernando Pessoa, com uma estrutura etc., mais parecia uma estátua real, de bronze… uma coisa engraçadíssima. Fiquei altamente surpreendida e deliciada. Acredite, que ia vê-la todos os dias, e contribuía sempre que podia. Então, pensando cá para comigo, achei que também poderia fazer uma coisa do género”.
Pensado e feito. Começava aqui a nascer a “nossa” estátua viva, algo de presente em cada mais ruas de grandes cidades por esse mundo fora, e também, neste caso, em Monte Gordo. Mas, há um importante histórico, que leva Maria Antónia Viana a decidir-se por ser… estátua.
“FAZIA BONECOS DE BARRO, MAS TIVE DE VIR PARA MONTE GORDO, PARA ESTAR AO LADO DA MINHA MÃE, E TENHO TUDO DESMONTADO… AQUI NÃO HÁ ATELIÊS!”
Maria Antónia Viana, antes de descobrir os seus dotes para “estátua viva”, era já uma artista, se bem que em outra vertente.
“Anteriormente, fazia bonecos de barro, que os vendia, essencialmente, para colecionadores. Mas, tive de vir para cá com o objetivo de cuidar da minha mãe que é idosa e algo debilitada. A realidade, contudo, é que aqui, em Monte Gordo, não havia, nem há, espaço para montar um ateliê. Tenho-o, mas desmontado, com uma lona por cima, no terraço.”
Com este importante condicionalismo, mais uma razão para a nossa entrevistada abraçar, de corpo e alma, a arte na rua, e, mais concretamente, a “estátua viva”.
E é mesmo para contar com uma verdadeira artista, já que o histórico de maria Antónia Viana, é de ter em conta…
“Para além da minha criatividade, quando estive a estudar, fiz de modelo anatómico na Universidade, aprendendo, desse modo, a arte da quietude. E depois, já tinha feito Ioga em mais nova, o que quer dizer que a concentração também já cá estava. E pronto! Com isto tudo, achei que conseguia, experimentei, e já vou no quarto/quinto figurino…”
“A «ESTÁTUA» É DAS COISAS MAIS FASCINANTES QUE FIZ ATÉ HOJE”
Natural de Estremoz, mas tendo Évora, como “a minha cidade de adoção”, Maria Antónia Viana não coloca de parte a possibilidade de, mais tarde ou mais cedo, “voltar a estar a ligada ao artesanato. Vou fazer tudo para que consiga montar um ateliê”. Mas…” – e este “mas” tem muito que se lhe diga -, “nunca deixando a estátua, pois essa é das coisas mais fascinantes que fiz até hoje”.
O que é que, em boa verdade, fascina tanto Maria Antónia Viana nesta sua atividade?
“O que me leva a esta paixão, é sentir que estou a vender sonhos – vender que não os vendo, pois quem quiser contribui, quem não quiser, não o faz -, mas, ver aquelas expressões, tanto de crianças como de adultos, quando faço o agradecimento… aquela expressão de surpresa, de encantamento, é o estar a contribuir para o encantamento das pessoas”.
“JÁ ME SENTIA CONFIANTE E SEGURA PARA ME APRESENTAR EM FESTIVAIS… QUANDO SURGIU (QUEM PODERIA SER?!) A PANDEMIA E TUDO FICOU SUSPENSO“
E, como acontece com muito, mas mesmo muito (boa) gente, a pandemia criada pelo novo coronavírus, veio dar cabo, ou condicionar, alguns projetos. A nossa “estátua viva” não escapou aos condicionalismos da covid-19.
“Este seria o meu ano de «estátua», já me sentia confiante e segura para me apresentar em festivais. Como sabe há o Festival de Sintra, em setembro, o Festival de Espinho, que não sei quando se realizado, mas com o qual já tinha contactado através da sua organização. Disseram-me que o país está encerrado, mas que se fizerem algo queriam ver o meu trabalho. Este é um festival conceituado a nível internacional. Eles gostaram dos figurinos que enviei e em princípio eu enviei…
Portanto, devido à pandemia suspendi a minha atividade. Estive na Câmara de Vila Real de Santo António há uns dias, e nada sabiam quanto ao recomeço da arte na rua, porque aqui é necessária licença para estarmos na rua, porque senão corremos o risco de nos apreenderem coisas ou que nos mandem embora”.
E Maria Antónia Viana explica ao pormenor o seu interventivo trabalho e a “obrigatoriedade” de pagar a licença…
“Toda a construção da personagem faço-a na rua. Chego vestida normalmente, e depois faço toda a transformação em público, e esse processo demora cerca de 45 minutos, ou seja, desde que chego e começo a colocar o cenário, até ao momento em que subo para o pedestal. Todo esse tempo, e as tintas – que são caras -, seria um desperdício se fosse, entretanto, obrigada a siar do local. Depois, seria uma grande frustração”.
“O PÚBLICO AINDA NÃO ESTÁ VIRADO PARA ESTA VERTENTE ARTÍSTICA”
Olhando à sua volta, a nossa entrevista é da opinião que “o público ainda não está muito virado para esta vertente artística. Há pouca gente. Eu vejo um colega de rua que toca guitarra e canta, e não vejo que ele esteja a safar-se muito bem. As pessoas têm ainda receio de se aproximar; de criar um ambiente festivo para que estas coisas tenham o seu sucesso, que aconteçam com uma certa dignidade.
Todavia, não é por essa, ou outras razões, que Maria Antónia Viana desiste, muito pelo contrário, continuará, quando retomar a sua atividade, “entre hora e meia a duas horas. Às vezes mais, poucas vezes menos. O meu mínimo é hora e meia”, em cima do pedestal, fazendo de “estátua viva”.
E o tempo de “atuação” é, como atrás referiu, de “hora e meia em estátua, porque as pessoas saem de casa, às vezes, de propósito para irem ver as «estátuas». Se lá não estiver, é um bocado como que defraudar as expectativas. Sobretudo as crianças, a quem os pais prometeram levá-las para ver a «estátua», e depois chegarem lá e a estátua estar desmontada?!… Não! Normalmente as pessoas sabem que chego a determinada hora e que, depois a partir de determinada hora, me vou embora, mas até aquela hora é seguro lá estar”.
“O ESTADO NÃO ESTÁ A AGIR BEM COM A CULTURA… COM A «ARTE DOS PEQUENOS»…”

Sem nenhuma associação, ou outro organismo, formado para defender, no fundo, a Arte na Rua, o que certa medida, Maria Antónia Vieira explica através da “liberdade que carateriza o artista; o artista que tem aquele sentimento de que vou onde quero ir. Mas, por outro lado”, continua, “neste momento, sinto que o Estado não está a agir bem com a Cultura… com a Arte dos pequenos. Mas não tendo dinheiro para este tipo de intervenção, tem-no para continuar a injetá-lo nos bancos”.
“E falo da «Cultura dos pequenos», referindo àqueles que têm um dom ou uma vontade qualquer de fazer coisas e não se querem agarrar ao sistema… à Segurança Social, ao Desemprego, ou a isto, aquilo ou aqueloutro. Querem é autonomia para fazer coisas, dando cor e brilho aos espaços, às cidades, e encanto às pessoas, e isso o Estado não valoriza minimamente. Nada!
E não se fala só no Estado, pois “as autarquias deviam ter uma certa responsabilidade no meio disto tudo. O que elas pensam, e por exemplo aqui, é no dinheiro que pagamos – e não é pouco! -, para termos as licenças e, assim podermos trabalhar”.
“HOUVE QUALQUER COISA ANTES, PARA CHEGAR ATÉ ONDE CHEGUEI. ISTO NÃO É INSTANTÂNEO!”
E quando a crise, ou as crises, apertam, vem ao de cima, algum sentimento de revolta, pelas injustiças que a, ou as, mesma(a) provoca(m), e, ao mesmo tempo, não há quem salvaguarde os direitos a quem os merece… como é o caso de António Santos.
“Uma pessoa que tem recorde de Guiness, entre outros recordes mundiais; que foi convidado pelo Cirque du Soleil… uma pessoa que está lá em cima e que ajuda tanta gente; que organizava festivais entre outras concentrações, antes da pandemia, vive como todos, e porque todos estamos no mesmo barco, as dificuldades que o estado provoca ao não apoiar quem deve. Aqui é já o Estado a criar este tipo de problemas!”
Mesmo revoltada, e com motivos revelados para que isso seja uma compreensível realidade, Maria Antónia Viana, pode dizer que, em quatro anos de atividade, e que já tem os seus seguidores, salientando também quem a ajudou, e a ajuda, na arte da “estátua viva”.
“Aqui, não tenho seguidores. As pessoas seguem-me, essencialmente, no facebook. Mas tenho a consciência que tem de ter havido qualquer coisa antes para chegar até onde cheguei. Isto não é instantâneo! Além da atividade desenvolvida na Universidade, fiz ainda teatro amador. Um dos nossos encenadores foi a Teresa Lima que é diretora da Voz do Bando. E depois ter encontrado uma colega, já eu estava a fazer «estátua viva», a Mafaldaandanalua, que também faz estátua viva e conhecemo-nos em Monte Gordo. Ela limou-me algumas arestas, porque veio do Chapitô… e teve uma outra formação”.
Quanto ao futuro? Que novidade nos reserva Maria Antónia Viana?!
“Um dos meus figurinos é o autorretrato da pintora mexicana Frida Kahlo, de quem tinha uma versão – foi essa com que comecei – e, agora, ramifiquei em quatro. Tinha para vários momentos da vida de Frida Kahlo e várias abordagens. A escolha da personagem, uma vez que não sabia se era capaz – e não tinha dinheiro, dada a minha situação bastante precária naquele momento -, achei que o podia fazer com muito pouco, usando roupas minhas adaptando-as ao personagem. Foi tudo muito caseiro”.
“Por quê Frida Kahlo?! Primeiro, porque pensei que não queria fazer uma «estátua de pedra», uma vez que já a havia em todo o lado. Queria que fosse algo de diferente, até porque não tinha maquilhagem para isso, e teria de ser algo que conseguisse fazer com curtos meios. Então, pensei: não posso fazer uma estátua, vou fazer um quadro, que também é estático. Depois pensei: quem é que vou fazer? A primeira que me lembrei foi van Gogh, mas não, e, então, veio á ideia uma das melhores pintoras do mundo, como é Frida Kahlo. Entretanto, também inventei um personagem masculino: um pirata. Gosto muito dele…tinha de fazer algo que viesse do mar, ou não me encontrasse em Monte Gordo”.
“VAMOS ESTAR MAIS UNIDOS QUE NUNCA”
E é, assim, Maria António Viana, uma mulher que se sente “feliz e realizada”.
“As pessoas ficam contentes e isso é muito importante para mim. Mas, há também o lado oposto. Há indivíduos que, vendo uma pessoa parada e indefesa, se aproveitam para a provocar, mas são muito poucos. Numa roda muito grande, há sempre alguém que afasta essa gente. Mas, mais que uma vez fui vítima de atitudes que achei que devia não as permitir. O que transborda, efetivamente, é o encantamento das pessoas. Isso vale por tudo.
E os “aplausos” ou “a satisfação das pessoas, só vejo quando vejo. Fico com os olhos abertos mas fixos num ponto e não os mexo. Com o passar do tempo, os olhos desfocam. Quando faço o agradecimento, por ouvir cair uma moeda, não consigo focar de imediato e perco, por vezes, o olhar da pessoa”.
Quanto ao futuro da arte…
“Ela está organizada e em muitas cidades espalhadas pelo mundo, graças ao nosso António Santos. Imagino dois cenários para o futuro desta arte: o que consigo vislumbrar é a parte economicista. Parece que os incomoda este tipo de Arte, a eles, ao Estado. E o outro cenário, é que muita gente vai arranjar outros trabalhos e e abandonar a arte. Mas, também se pode se dar o cenário oposto, que é o de muitos – que já eram estátuas, como outros que vêm nisto, agora, e dada a situação que se vive um recurso financeiro – decidirem-se pela autonomia que as Artes dá, e iniciarem um percurso. Os que ficarem, e eu quero ficar, vamos estar mais unidos que nunca…”
“HÁ PESSOAS QUE CONFUNDEM ESTE TIPO DE ARTE COM MENDICIDADE”

Depois há o Turismo, que, de acordo com a nossa entrevistada “é importante com certeza. Mas, tudo depende da sensibilidade da pessoa. Há pessoas que pouco têm e muito dão. Depende da sensibilidade das pessoas que olham. É o gosto! Também há aquelas pessoas que confundem este tipo de arte com a mendicidade, já que há outras que imitam a estátua para fazerem mendicidade. Não param quietos; não têm figurino; não têm cenário; pintam-se no corpo com qualquer branco ou outro material e depois rebolam-se na areia é uma mendicidade à custa da estátua”.
“Depois”, continua Maria Antónia Viana, “temos pessoas que não têm o olhar educado suficiente para perceberem o que é uma estátua com figurino, com cenário, e que tem de se construir todo um personagem. E há pessoas que pensam que estão a dar uma esmola, quando na verdade não é essa a ideia. É um contributo para a arte! Isso, sim!
Isto dá muito trabalho, e é quase viciante. Estou a preparar mais figurinos. Neste momento não posso ter um trabalho específico porque estou a cuidar da minha mãe que precisa muito da minha ajuda. É tudo o que eu posso fazer nas horas em que não estou a cuidar dos assuntos dela. Mas vou continuar a trabalhar. Claro!”
Fotos: cedidas pela entrevistada e pesquisa Google (pG)
01jul20





