António Pedro Dores
Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.
Martin Niemöller (1892-1984)
Depois de explorarem o tema da corrupção, animados com a desorientação das políticas ocidentais, os neo-nazi-fascistas entenderam entrar a matar com o tema racismo. Este mês a Polícia Judiciária anunciou estar em campo para saber quem está a organizar uma campanha de ameaças credíveis de violência física contra quem usa da palavra no espaço público.
Democracia, descolonização e desenvolvimento, os três Ds, foram os objectivos apontados pelos revolucionários de 25 de Abril de 1974. Quase meio século depois, muita água passou por de baixo das pontes. Os derrotados desse dia não resistiram à aliança entre os colonizados e os militares. Hoje, aparentemente, a vergonha pela derrota perdeu validade.
O desenvolvimento continua à espera que a corrupção permita que se façam investimentos com sentido. A democracia está em crise. Os colonizados, hoje, somos nós. Os imbecis acham que usar a cor da pele para fazer política pode dar frutos. E não é que têm razão?
Nos balanços tecnocráticos feitos dos resultados práticos da revolução, tornou-se consensual afirmar que os dois primeiros foram cumpridos; só o desenvolvimento é que ficou menos bem resolvido. Será assim mesmo?
As milícias pró colonialistas de extrema-direita dão sinal da sua existência. A credibilidade das suas ameaças de transformar a política numa sucessão de casos de polícia decorre dos treinos de vários meses organizados pela nova internacional inspirada na vitória do sr. Trump. As seitas lusas que foram doutrinadas para se sentirem colonizadores na própria terra estão a ser financiadas. Como quaisquer mercenários, se não derem sinais de existência serão despedidos. O grande objectivo é unir a acção dos infiltrados nas polícias e a acção dos bandidos que gostam de polícias.
A democracia recua nos EUA, na Europa e também em Portugal. As polícias são chamadas ao palco principal da política. As práticas colonialistas, sob a forma de imposição abusiva de dívidas, ocupam o centro das políticas da União Europeia, de forma pública e notória desde a crise de 2008. Os nacionalistas mais toscos não se lembram de mais nada senão copiar os movimentos supermacistas que consideram Portugal e os portugueses como PIGS. Imaginam-se donos da Terra e autorizados a colocar cada pessoa no seu lugar.
Como mostra o célebre dito em epígrafe, a finalidade dos neo-nazi-fascistas não é combater a corrupção ou manter a pureza do sangue. Isso e tudo o mais são meros pretextos para se autorizarem viver a protecção do estado para humilhar e matar quem lhes apeteça, em vez de argumentar. Gostam da excitação das práticas de humilhação e homicídio de pessoas indefesas, como ocorrem nas guerras. Querem poder fazer isso em paz e querem ser tratados como heróis nacionais.
A corrupção foi um dos primeiros motivos de mobilização política bem-sucedidos dos movimentos neo-fascistas, em Portugal e no mundo ocidental. A corrupção não foi prioridade política para a democracia. Os neo-nazis sabem que a autoridade policial e judicial é o que resta para fazer esse combate. Portanto, concluem, se transformarmos a democracia num estado policial ficaremos livres da corrupção.
Mutatis mutandis, ao fazer com que as polícias sejam chamadas para lidar com os próprios neo-nazi-fascistas, a sua política ganha notoriedade política e oportunidades de maior infiltração nas, e mais coordenação com as, polícias de estado.
Por que razão, então, os democratas não lembram aos eleitores que os regimes nazi fascistas elevaram a corrupção à discricionariedade do ditador e dos seus amigos próximos, na Alemanha, em Itália, em Espanha, na Grécia e em Portugal? Como na América Latina no tempo das ditaduras? Porque não lembram a manipulação das polícias e dos tribunais para fins políticos de manutenção do poder do grupo limitado de amigos do regime?
Na América Latina, é evidente, a democracia que durou uns anos não lutou contra a corrupção. Moldou-se à corrupção. Em Portugal, como na Europa, a corrupção só é menos evidente que na América Latina por razões de coração: como gostamos deste país e nos sentimos portugueses e europeus, orgulhosos da nossa falsa superioridade moral, custa-nos a admitir o que se passa. Nem o desmantelamento de praticamente toda a banca nacional é suficiente para aceitarmos estar ao nível da América Latina, no que toca a corrupção (os rankings de transparência são feitos com a opinião dos inquiridos). Felizmente, de facto, não estamos ao mesmo nível em número de homicídios.
A história da luta contra a corrupção em Portugal, que o digam Costa Brás, Garcia dos Santos, Saldanha Sanches ou Paulo de Morais, é uma história rara de oposição política ao actual regime democrático. Até hoje, o regime fechou-se em copas, arrastando os pés e lançando falsas políticas de moralização. O financiamento dos partidos, quem o ignora, é o calço que deixa a porta aberta para quem, com a devida autorização, quiser entrar.
É por essa brecha, por onde geralmente entram os das portas giratórias entre o estado e as empresas, que estão a entrar os anti-democráticos eleitos para as mais altas instâncias políticas da democracia. Demagogos corruptos gritam contra a corrupção e contra as elites democráticas corruptas, com o apoio de pessoas zangadas e excluídas da democracia. É efectivamente repugnante a sucessão de histórias de desvios de dinheiro em todos os sectores, com cumplicidades ao mais alto nível. São tantas as denúncias que o Ministério Público, finalmente desperto para a questão, não pode fazer mais do que deixar passar o fundamental: como diz Maria José Morgado, a polícia anda sempre atrás. Só a política pode antecipar-se. Mas não o faz.
A ideia de haver uma relação íntima entre a democracia e a luta contra a corrupção – que era uma ideia forte durante o período revolucionário, ao menos em meios de classe média que eu frequentava – e que obrigou o regime democrático a criar a Alta Autoridade Contra a Corrupção, perdeu-se algures, entretanto. Foi incapaz de evitar que a chuva de dinheiro da Europa para comprar o sistema político nacional ao serviço das políticas europeias, jamais discutidas, produzisse em Portugal o que produziu em Espanha e na Grécia. Até que um dia, na sequência da falência do sistema financeiro global, em 2008, Portugal passou a ser tratado com PIGS (acrónimo de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, que significa porcos em inglês). Versão animalista de cigano ou preto.
O desenvolvimento ao serviço da União Europeia hegemonizada pelos interesses nacionais dos países mais poderosos revelou a sua fragilidade, de forma inequívoca, nos primeiros anos da década que agora acaba. Sofre agora, uma década depois, outro rombo de peso, com a crise pandémica a encobrir as manobras políticas de reconfiguração das práticas de obediência imperial.
O erro político cometido pelos Portugueses, enquanto apoiantes da democratização do país, foi aceitar a superioridade moral da Europa no que concerne aos pergaminhos democráticos, em vez de dar prioridade política ao processo – sempre inacabado – de democratização.
A democracia é o contrário de aceitar uma dádiva ou uma esmola dos ricos e dos poderosos. O facto da democracia que temos ser outra coisa do que deve ser uma democracia não diz nada sobre a boa vontade ou as conquistas de Abril. Podemos perfeitamente reconhecer uma diferença, para melhor, entre a vida pública antes e depois do 25 de Abril e, ao mesmo tempo, reconhecer igualmente a verdade: imaginámos, erradamente, que a democracia era uma dádiva gratuita da União Europeia. Não é: vamos ter de lutar por ela, se percebermos como se pode fazer isso.
Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
Foto: pesquisa Google
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