Orlando Esteves
Caminhava, há dias, numa ruela bem sombria até que, de forma surpreendente, um menino com os seus sete/oito anos chamou por mim.
Sem o conhecer, dirigi-me a ele e tentei perceber o que o teria levado a chamar-me, tendo sido surpreendido com um simples pedido que se baseava na simples cordialidade de o deixar acompanhar-me até ao final daquele longo e escuro caminho.
Naquela genuinidade a que todas as crianças deviam ter direito, perguntou-me se eu era feliz. Respondi, muito rapidamente, que sim, que era, independentemente dos dias menos bons que nós, adultos, temos. Sem pestanejar, questionou se era mesmo assim.
Assumo que, perante aquela insistência do miúdo, comecei por questionar, em pensamento, a resposta que havia dado e, como consequência, duvidar dela. Assim, sem querer desenvolver muito aquele tema, expliquei apenas que, antes de ser feliz, é mais fácil estar feliz e, para me defender e, acreditava eu, tornar menos séria a conversa, pedi-lhe que me desse uma resposta à pergunta que me tinha feito no início.
Começou por afirmar que, não só estava feliz, como era feliz, porque tinha sonhos.
Uau! Fiquei verdadeiramente surpreendido com as palavras daquela criança que, com tão pouca idade, soube dar-me uma resposta com tanto para pensar.
Ainda distantes do nosso destino, quis saber quais eram os sonhos dele e, como devem imaginar, não teve vergonha de os revelar.
Primeiro, parou de caminhar e, com os olhos fixos no céu, contou-me que tinha perdido, recentemente, a bisavó com quem passava muito tempo mas, logo a seguir, sorriu para mim e abraçou-me.
Retomámos a caminhada e a conversa sobre os sonhos, tendo ele reforçado que, todos os dias, antes de dormir, pensava neles e no quão bom seria vivê-los
Coloquei-lhe a mão no ombro num sinal de incentivo, encorajando-o a manter esse ritual, partilhando com ele uma ideia em que acredito: “se tens esse sonho, é porque ele te escolheu por isso, acredita: se ele foi ter contigo, é porque acredita que poderás torná-lo realidade”.
Olhou para mim com ar de caso, atirando, meio desconfiado, que o que ele sonhava estava tão longe, mas tão longe, que seria muito difícil de acontecer.
Naquele momento, fiquei preocupado, pois defendo que as crianças não deviam conhecer a palavra “impossível” ou algo que se assemelhe.
Pedi-lhe para ser mais claro relativamente a esses sonhos e, quando o solicitei, voltou a parar, dizendo-me que quase todos estavam relacionados com futebol.
Soltei uma gargalhada e o rapaz, incomodado, baixou a cabeça.
Voltei à minha postura inicial e clarifiquei que a minha reação não era de alguém que estava a ridicularizar o que ele tinha dito, mas sim a de uma pessoa que gostava do tema e que considerou toda aquela situação como sendo uma boa coincidência.
Convencido, desabafou que já tinha partilhado com algumas pessoas aquilo que, entretanto, partilharia comigo mas que, até àquela data, foram poucos os que valorizaram as palavras dele, havendo alguns que lhe falaram na tal palavra proibida: “impossível”.
Sosseguei-o e pedi-lhe para retomarmos o nosso caminho.
A passo mais acelerado, segredou-me então que, um dia, queria trabalhar no mundo do futebol, embora não soubesse exatamente como. Entusiasmado, referiu que conhecia muitos clubes e vários dos jogadores que neles jogavam, porque costumava jogar FIFA. Falou-me do clube dele, das idas ao estádio do clube da cidade, dos cromos que colecionava, da admiração com que olhavam para ele sempre que, com os pais, entrava num café e pegava nos jornais desportivos, entre outras questões.
Fiquei deliciado com aquele miúdo. Refleti que, sobre o futuro, há poucas certezas, mas tive vontade de o ver ser feliz porque, claramente, a paixão por futebol morava nele.
Com o cruzamento bem iluminado que marcava o final daquela ruela à vista, decidi abraçá-lo e agradecer-lhe pela conversa que tínhamos tido.
Antecipando-se às minhas palavras de despedida, retribuiu os agradecimentos e, com a intenção de me surpreender, anunciou que, na verdade, me conhecia muito bem e que tinha orgulho no meu percurso.
Feitas as despedidas, segui em frente e, até hoje, não o voltei a ver mas, admito, lembro-me muitas vezes dele, daquele menino que me acompanhou pela ruela sóbria até ao cruzamento iluminado, do menino que sonhava e merecia ser feliz.
01dez22