Ana Costa
O ambiente que se vive numa sala de aula do primeiro ciclo é diferente de qualquer outro. Para já, nestas salas respira-se vida! Basta entrar uma criança e há logo conversa, sorrisos, beijos e… barulho. Quando entra mais do que uma criança, tudo se multiplica, sendo óbvio, que uma turma inteira nos transmite vida, animação, alegria, conversa e…barulho.
As crianças falam umas com as outras, deixam cair coisas (até cadeiras ou mesmo eles também caem da cadeira), tiram lápis da caixa de material remexendo em todos os outros, tudo isto de forma muito natural, claro. Este ambiente faz parte do quotidiano de uma sala de aula. Poucos são os momentos de silêncio, raramente há paragens.
Na minha sala e com todas as minhas turmas isto também acontece, e é por isso que os professores são (re)conhecidos por falarem alto. Não porque ouvem mal, que eu até ouço bem demais, nem por serem autoritários… É que as crianças têm um botão que desliga a voz dos adultos (infelizmente esse botão desaparece com o crescimento, o que, na minha modesta opinião, é uma pena…Comigo seria usado em algumas ocasiões e com determinados adultos).
Ora, este botão que desliga a voz dos adultos é fortemente usado pelos mais pequenos e há alturas em que funciona durante muito tempo, daí que muitas vezes os professores tenham necessidade de elevar a voz, até porque estamos a falar de uma turma, numa escola, e não de um filho ou dois, em casa. Mas enfim, faço aqui o ‘mea culpa’ que, às vezes falo mais alto e projeto bem a voz…Podendo até soar um pouco mal aos demais ouvintes, eu sei…
Mas como costumo dizer, só quando calçamos os sapatos dos outros, é que conseguimos perceber se lhes doem os pés, ou seja, para quem está de fora, pode até dizer que esta professora fala alto, mas é preciso estar e viver naquele contexto, para realmente perceber o que se passa. Falo alto porque me zango ou falo alto porque há sempre barulho? (Ou, então, como disse uma vez um pequeno, “o teto da sala é muito alto e é por isso que parece que a professora fala alto, mas não”).
Isto tudo para dizer que assim que entro na sala de aula, quer sejam oito e trinta ou nove e quinze, se há lá crianças, já começo a trabalhar. E claro, ao longo de um dia inteiro, tudo se repete, tudo se multiplica pelo número de alunos presentes. Ninguém consegue imaginar a quantidade e originalidade de respostas que as crianças conseguem dar a um desafio simples como “vamos pintar este círculo de azul.” Mas enfim, as crianças são mesmo assim, em constante renovação e é isso que me faz apaixonar-me por elas, todos os dias.
Isto tudo para dizer que há uma pergunta que se faz muito, em todas as salas, e que até revela boa educação, e contra isso nada a apontar. Só que para mim, transforma-se numa coisa repetida e que, na realidade, me irrita. Falo da célebre “Posso ir à casa de banho?” É banal, não é? Muito simples, até porque defendo, começando por mim, que ninguém deve impedir alguém de ir à casa de banho quando quer. É de facto, uma pergunta inofensiva e respeitadora…
Só que estamos a falar de crianças, certo? E as crianças têm bexigas pequeninas e, portanto, vão várias vezes à casa de banho. Mas imaginando, por exemplo, uma turma até pequena, quinze alunos. Se cada um for uma vez à casa de banho, são quinze perguntas. Se for duas vezes, são trinta perguntas… E cada criança é diferente de outra, portanto vamos lançar assim número de perguntas, tipo quarenta vezes! Quarenta vezes a mesma pergunta! E num só dia! E a mim, nos meus ouvidos…Para não falar das crianças insistentes e que fazem também o insistente e irritante “Posso? Posso? Posso?”
Quem me conhece, sabe que tenho uma capacidade auditiva acima do comum, e, portanto, ouvir a mesma coisa tantas vezes, de forma repetida, facilmente se tornou para mim muito enervante.
Então, decidi reunir comigo mesma, e a determinada altura deste meu percurso como professora, decidi dar autonomia aos meus alunos, e nenhum deles me precisa pedir para ir à casa de banho. Só têm mesmo que me avisar que vão, não vá eu dar conta que falta uma criança e não saber do seu paradeiro. Também não precisam de avisar todos os outros, nem por dedos no ar. Um simples “vou à casa de banho” no meu ouvido, e está ótimo.
Pronto, eu sei, às vezes não é lá que vão…Vão ao recreio, dão uma volta, outros até ficam a brincar um bocadinho ou a conversar com alguém que encontram no corredor…Sinceramente até acho alguma piada e não me faz confusão nenhuma. Quem não gostaria de ir ao recreio de vez em quando? O problema é que nem todos podemos e depende da profissão, claro…
Mas na minha sala pode-se! E pode-se ir à casa de banho sem perguntas e sem requerimentos, só um aviso. Ninguém faz ideia como as crianças se sentem orgulhosas e independentes quando têm responsabilidades, mesmo que sejam simples, como esta.
E a responsabilidade de ir à casa de banho, transforma-se em algo muito mais importante que apenas uma necessidade fisiológica. É o ser-se autossuficiente, é o não depender do outro e mais que tudo isto, é o outro (eu!) confiar na criança e acreditar nela.
Só assim consigo entender os meus relacionamentos com as crianças, uma relação bilateral, de confiança mútua e de crescimento saudável. E não se pode confiar ou acreditar em alguém que tem de dar autorizações para uma simples ida à casa de banho, pois não?
01fev23

Como é bom ler estas palavras!!!