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Sahara Ocidental… primo de Timor-Leste

António Pedro Dores

O reino de Marrocos anda muito activo na discussão dos valores que devem conduzir a vida em sociedade. Jennifer Lopez foi acusada de ter desrespeitado o estatuto das mulheres marroquinas, por ter sido sexualmente sugestiva num concerto oferecido naquele país e transmitido pela televisão. No país vizinho, as mães de Bragança foram substituídas por um bando de homens incomodados com a sua própria excitação: ameaçam reclamar junto dos tribunais por danos sofridos pela difusão das imagens da diva da pop. O produtor e a cantora arriscam penas de prisão.

Jennifer Lopez
Jennifer Lopez

Como sempre, a história repete-se. Públicas virtudes intolerantes e privados vícios pervertidos. Aziza Brahim, cantora e autora saaraui, foi escoltada por forças de segurança finlandesas para poder actuar no festival World Village, ameaçada por forças marroquinas – que trabalham indirectamente com capangas a soldo. A perseguição, neste caso, deve-se ao facto de Marrocos estar empenhado no genocídio do povo natural do Sahara Ocidental e, portanto, simplesmente pretender sequestrar toda a gente para que deixem de existir em vida.

sahara ocidental

As sequelas da colonização estão ainda muito vivas. Neste caso, o abandono da colónia espanhola, há quarenta anos, foi pretexto para a tentativa de anexação de Marrocos (actualmente aliada a Espanha e sobretudo a França nesta sua cruzada genocida). O estrebuchar do povo saaraui ouve-se aqui e ali, mas, como noutros casos, quem os quer ouvir?

Em 1975, quando o estado português abandonava Timor-Leste à sanha indonésia, com o acordo tácito da Austrália e dos Estados Unidos da América, o ditador Franco agonizava e a realeza ainda não mandava em Espanha: o estado espanhol abandonava o Sahara Ocidental à sanha marroquina, com o beneplácito norte-americano e europeu.

Em Timor-Leste, a conivência estendeu-se também à Holanda, antiga potência colonial da Indonésia e concorrente do imperialismo português, em várias ocasiões e latitudes. As imagens do massacre de Sta. Cruz (Lusa, 2011) foram a base de uma campanha internacional contra o genocídio do povo maubere.

Em 1999, aquando do referendo para a independência organizado pela ONU, o estado e o povo portugueses elevaram o direito à auto-determinação e ao respeito da integridade das populações a problema internacional, para surpresa de todos.

bandeira timor-leste

O paralelo entre Timor-Leste e o Sahara Ocidental é grande. O povo do Sahara Ocidental já sofreu também o seu massacre: a repressão ao acampamento de Gdeim Izik – 08 de Novembro 2010 – quando 20 mil saharauis se organizaram numa acampada (Associação de Apoio ao Povo do Sahara Ocidenta, n.d.) como depois tunisinos, egípcios, espanhóis, norte-americanos haveriam de realizar também nos meses seguintes. Mas nenhum apoio internacional chegou, embora as decisões das Nações Unidas sejam antigas (de 1957), reiteradas mas impotentes: a França sempre veta qualquer tentativa da ONU de sequer inquirir o que se passa no território da África Ocidental, ainda formalmente administrado por Espanha mas de facto ocupado, segregado e explorado por Marrocos. Reino que isola o povo saharaui, em campos de refugiados no lado argelino da fronteira, desde há 40 anos. Expulso militarmente do seu próprio país através de um muro de milhares de quilómetros que impede os sarauis de tentar chegar à costa atlântica, onde a riqueza dos seus recursos piscícolas é oferecido às potências europeias.

Em 1975 Marrocos, antiga colónia francesa, organizou a ocupação do território ainda actualmente ocupado, aproveitando o vazio de poder em Madrid. Todas as condenações internacionais votadas na ONU não impedem o genocídio de continuar a ser perpetrado por um país a quem as potenciais ocidentais reconhecem capacidades de interrogatório sob tortura, subcontratadas para presos de Guantanamo ou para candidatos subsaarianos a imigrantes na Europa, à procura de Ceuta ou Melilla, enclaves espanhóis no Marrocos. Quem tem moral para condenar o genocídio em curso?

O povo saraui luta praticamente sozinho pela sua sobrevivência, contra a miséria moral do mundo “protector” da honra das mulheres, controlando-lhes os movimentos, fechando-as em casa. Julgam que podem manipular quem vive e quem morre, a seu bel-prazer. E contam com a nossa cumplicidade? A resposta ao site http://aapsocidental.blogspot.pt.

Fotos: Pesquisa Google

Fontes:

Associação de Apoio ao Povo do Sahara Ocidenta. (n.d.). Sahara Ocidental Informação. Acesso em 25 de Maio de 2015, http://aapsocidental.blogspot.pt/

Lusa. (2011). Timor-Leste: Max Stahl recorda massacre de Santa Cruz. Acesso em 25 de Maio de 2015, http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=2118082

Acesso em 25 Maio 2015, http://lifestyle.publico.pt/noticias/349582_jennifer-lopez-investigada-por-concerto-sexualmente-sugestivo

Acesso em 06 de Junho de 2015, http://aapsocidental.blogspot.pt/2015/05/cantora-saharaui-da-bofetada-ao-regime.html

 01jul15

Por vontade das autoras, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o artigo inserto nesta “peça” foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa

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