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Poeira e alegoria

Miguel Correia

O sossego do pequeno povoado foi, subitamente, interrompido pelo barulho intenso de motores e chiadeira de travões. Num ápice, ávidos de curiosidade, os habitantes locais saíram de suas casas para verificar o motivo de tanto frenesim. Desde algumas semanas, graças à construção de um novo edifício industrial, a rotina estava alterada. Máquinas e camiões eram frequentes durante a semana. Mas… autocarros? E ao Sábado?

Os que chegaram primeiro, às imediações da obra, repararam num funcionário que, com extrema destreza, preparava uma placa em mármore com inscrições e um rolo de tapete vermelho. Depois de tudo arrumado, dirigiu-se, quase a correr, para um pequeno púlpito colocado, estrategicamente, no meio do nada, no outro oposto da vedação, num espaço coberto por terra remexida e alisada dias antes.

Em poucos minutos, o parque da obra ficou, completamente, lotado com viaturas topo de gama e mais autocarros, repletos com engravatados, que se desdobraram em constantes apertos de mão, apreciando tudo em seu redor. Entre eles, e como dita o protocolo, o presidente do poder local. Foi ele que deu o sinal de partida para percorrer vários metros, entre terra e poeira (ideal para sapatos reluzentes!), disfarçada por um estreito tapete vermelho, e ouvir um discurso sobre as verbas libertadas para a construção, apesar das dificuldades! Aplausos! Júbilo! E regressaram pelo mesmo tapete empoeirado. Partiram!

Ao longe, o pobre funcionário ficou sozinho. Desmontou o púlpito, retirou a placa e enrolou o tapete sujo. A inauguração está terminada…

cronicas dos tugas

  

01ago15

 

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