Maximina Girão Ribeiro
Em Portugal, o séc. XIX foi marcado por uma contínua agitação política que consigo arrastou uma profunda agitação nos sectores económico, social e militar: foram as invasões francesas, a ausência da família real no Brasil, a revolução de 1820 e a posterior e difícil implementação do liberalismo de que resultou a luta entre absolutistas e liberais. Todos estes aspectos constituíram factores de instabilidade constante que foram obstruindo a necessária mudança que o liberalismo preconizava. A revolta da Maria da Fonte é um dos episódios mais marcantes da nossa história política do século XIX, porque representa um movimento liderado por mulheres e, neste caso, mulheres do norte.
Em Março de 1846, eclodiu no Minho esta revolta, quando um grupo de mulheres decidiu pôr em causa a nova lei que proibia o enterramento dos mortos no interior das igrejas, como até aí era tradição. Era uma medida que se enquadrava nas “Leis da Saúde”, que obrigava ao enterramento dos cadáveres nos cemitérios, locais recém-criados, à imagem do que já acontecia na Europa.
Foi este o rastilho que levou as mulheres a armarem-se com sacholas, foices e gadanhas, paus e varapaus, contra a política e a exploração económica imposta pelo ministro de D. Maria II, Costa Cabral que, desde 1842, liderava o país. Esta directiva de carácter higienista, bem como o registo de todas as propriedades e a feitura de matrizes prediais, constituíam um conjunto de procedimentos burocráticos relacionados com a cobrança de impostos, a que o povo chamava as “papeletas da ladroeira” e que foram motivo para uma forte contestação pois, sobretudo os camponeses sentiam-se oprimidos com esta pressão fiscal, o que fazia crescer uma enorme efervescência na população.
Maria da Fonte deu o nome a esta insurreição armada embora, até hoje, não se conheça ao certo a verdadeira identidade desta mulher. Sabe-se que os tumultos começaram com mulheres, numa aldeia do Minho, Fonte Arcada, na Póvoa de Lanhoso e depressa mais e mais mulheres aderiram, espalhando-se o conflito por Trás-os-Montes, Estremadura e Beira.
Costa Cabral deu ordens ao exército para reprimir os protestos, mas o efeito que teve foi o agudizar do conflito e a sua rápida propagação a outras zonas do país, transformando-se numa revolução – a Patuleia, uma guerra civil que só terminou com o pedido de intervenção, feito por D. Maria II, acudindo os exércitos ingleses e espanhóis que, em 1847 invadiram o País, os ingleses (por mar) e por terra os espanhóis. A Patuleia terminou com a Convenção de Gramido, assinada na Casa Branca, no lugar de Gramido, em Valbom, Gondomar. O acordo foi assinado entre os comandantes das forças militares espanholas e britânicas e os representantes da Junta do Porto, pondo fim à guerra civil que assolou Portugal, entre 1846 a 1847.
Esta revolta da Maria da Fonte foi um movimento em que as Mulheres tiveram um papel preponderante no decorrer desta acção, a qual teve consequências políticas muito para além daquilo que se poderia imaginar, dado que D. Maria II exonerou o ministro que, juntamente com o irmão (também este igualmente político) e ambos emigraram para Espanha, pondo fim à ditadura dos Cabrais.
Podemos considerar que esta mulher, camponesa do séc. XIX, ficou registada na memória colectiva do país, como o símbolo de um levantamento popular que acabou por desenvolver um amplo combate pela liberdade e pela justiça social. Maria da Fonte tornou-se um mito popular que pode identificar todas as mulheres que lutaram ou lutam por uma causa. Este mito atravessou gerações, não só através da tradição oral, mas também das múltiplas formas de arte, ficando assinalado na literatura, na pintura, na escultura, na música…
Durante a Revolução da Maria da Fonte, o maestro Ângelo Frondini compôs um hino popular conhecido por Maria da Fonte ou Hino do Minho, o qual continua a ser a música utilizada em muitas cerimónias cívicas e militares, cujo refrão assinala:
“É avante Portugueses/É avante sem temer/Pela santa Liberdade/Triunfar ou perecer”.
A mesma marcha popular tem sido sucessivamente recuperada e adaptada, ao longo do tempo, como algo de simbólico em relação ao momento que se vive. Citamos, por exemplo, Vitorino, ou José Afonso, através da canção “As sete mulheres do Minho“:
As sete mulheres do Minho
mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
correram com o regedor
Essa mulher lá do Minho
que da foice fez espada
há-de ter na lusa história
uma página doirada
Viva a Maria da Fonte
com as pistolas na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à nação.
Estas figuras que participaram na insurreição, conhecida por “Maria da Fonte”, bem podem ser consideradas como o símbolo da sublevação feminina, do inconformismo e as antecessoras portuguesas dos ideais de emancipação da mulher.
Fotos: Pesquisa Google
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