Menu Fechar

Camilo Castelo Branco (1825 – 1890)

Camilo Castelo Branco e a cidade do Porto interpenetram-se e andarão para sempre de mãos dadas, pois é inegável que esta figura ilustre é considerada, por muitos, como o maior dos escritores portuenses, se tivermos em conta que, em muitos dos seus romances, o Porto burguês e endinheirado do séc. XIX aparece como cenário, onde actuam personagens de genuíno perfil portuense.

Camilo nasceu há 190 anos, em Lisboa, mas foi no Porto que viveu a maior parte da sua existência, uma vida muito atribulada, especialmente, sob o ponto de vista amoroso.

Embora esta cidade fosse por muito tempo a “sua casa”, o certo, é que Camilo tinha para com ela uma relação de quase amor/ódio, atracção/repulsa, dado que a tratou com ironia e até com um certo sarcasmo, denunciando em irreverentes crónicas, pessoas, vidas, usos e costumes…

Este admirável romancista, considerado como o criador da novela passional portuguesa, foi também colaborador de jornais políticos e literários, dramaturgo, cronista, crítico, poeta e tradutor. Fez investigação histórico-genealógica, cultivou acerrimamente a polémica e, de um modo espontâneo e simples, também, a epistolografia.

Foi dos escritores portugueses que maior quantidade de obras produziu e, talvez, a maior figura literária do Romantismo português, inserindo-se como figura central do Ultra-Romantismo. No entanto, numa última fase, fez incursões no Realismo corrente que inicialmente criticou e até ridicularizou, mas que acabou por seguir, produzindo obras de cariz realista.

É de salientar que este escritor multifacetado foi o primeiro de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários.

Foi o segundo filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, solteiro, cuja alcunha era “O Brocas” e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, sua criada. A proveniência familiar do pai de Camilo vinha da aristocracia rural, supondo-se que tivesse uma remota ascendência cristã-nova. Talvez devido às origens humildes da progenitora, Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, só sendo perfilhado pelo pai, após a morte da mãe, a qual teve lugar quando Camilo tinha apenas 2 anos. Aos 10 anos faleceu-lhe o pai e, esta orfandade prematura levou-o, mais tarde, a considerar que este desamparo lhe criara “um carácter de eterna insatisfação com a vida”.

Ele e a sua irmã mais velha, Carolina, foram entregues a uma tia paterna que se encarregou de os educar, em Vila Real, terra que acabaria por influenciar, também, muitos dos contos e novelas que Camilo escreveu. Com esta infância penosa e com desentendimentos com a sua tia, duas vezes tentou fugir-lhe, uma vez para o Porto e outra para Lisboa, mas sempre foi obrigado a regressar, acabando por ser entregue a um tio padre, na aldeia de Vilarinho de Samardã, que lhe deu as primeiras lições de latim e o iniciou na leitura dos clássicos portugueses, em troca de o ajudar nas missas.

O seu espírito irrequieto levou-o, com 16 anos, a uma paixoneta por uma jovem de 13 anos, Joaquina Pereira de França (natural de S. Cosme, Gondomar), com quem casou e com ela viveu em Friúme, Ribeira de Pena. Desta relação, que pouco tempo durou, nasceu em 1843 uma filha e, no ano deste nascimento, Camilo fixou-se pela primeira vez no Porto, numa casa da Rua Escura.

Na cidade do Porto, em 1844, frequentou vários cursos, pois começou por se matricular no 1º ano de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica, depois em Química, na Academia Politécnica e também no primeiro ano do Curso de Medicina, voltando a inscrever-se na Escola Médica, no ano seguinte. No entanto, perdeu o ano por faltas, dado que era mais ligado a uma vida boémia, frequentando cafés e botequins e os famosos “abadessados” ou “outeiros de abadessados” que tinham lugar junto aos conventos, quando era escolhida uma nova abadessa e, com a investidura desta no cargo, havia uma “festa”, uma espécie de recital poético, que costumava durar três dias e três noites, durante os quais os poetas glosavam motes lançados pelas Monjas, através das grades do convento, oferecendo elas aos participantes, em troca, a rica doçaria conventual e outros manjares, acompanhados de vinho fino.

E, nestas manifestações poéticas, começou Camilo a salientar-se, quer literariamente, quer em conhecimentos… Foi no Mosteiro de Ave Maria que se relacionou com a freira D. Isabel Cândida Vaz Mourão, também poetisa, com quem Camilo manteve uma prolongada relação amorosa, desde o “outeiro” de 1860.

A sua vida, cheia de amores tumultuosos foi complicada, pois conhecem-se-lhe outros relacionamentos, como aquele que teve com a prima Patrícia Emília do Carmo Barros, de Vila Real, com quem fugiu para o Porto e de quem teve uma filha.

Em 1846, Camilo combateu ao lado da guerrilha Miguelista, na Revolta da Maria da Fonte e, nesse mesmo ano, morreu a sua esposa legítima, Joaquina Pereira de França seguida, no ano seguinte, da morte da filha de ambos. A relação que mantinha com a prima Patrícia Emília, começou a deteriorar-se até se romper definitivamente, quando Camilo abandonou Patrícia e fugiu para casa da irmã, residente nessa altura em Covas do Douro. A menina que ambos tiveram, Bernardina Amélia Castelo Branco, começou por ser colocada na Roda dos Expostos, depois esteve, temporariamente, em Samardã e, por fim, foi entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, amante de Camilo.

camilo - 1

Depois de ter estado na casa da irmã, e, seguidamente, em Folgosa, Camilo fixou a sua residência no Porto, em 1848, alojando-se no Hotel Paris, na Rua da Fábrica. Foi este um período de afirmação para Camilo, sendo recebido pela melhor sociedade portuense, integrando o grupo dos “Leões”, constituído pelos frequentadores do famoso café Guichard que era um ponto de encontro de intelectuais, situado na Praça de D. Pedro, actual Praça da Liberdade. Foi a época de frequentar os cafés, os salões burgueses, os teatros e os bailes da moda.

Existem referências que o dão a vaguear pelas ruas da cidade, de casaca azul e botas “à Frederico”, a envolver-se em brigas e duelos, a conversar à mesa de cafés e nas tertúlias literárias das livrarias Moré e Cruz Coutinho, a assistir às missas da moda, a frequentar bordéis e camarins…

Sempre sedutor, Camilo embrenhou-se numa nova e arrebatadora paixão proibida, aquela que ficou mais conhecida por todos, até aos nossos dias – apaixonou-se por D. Ana Augusta Plácido, proveniente de uma família distinta do Porto, uma jovem que estava noiva de outro homem: Manuel Pinheiro Alves, um “brasileiro” como, depreciativamente, eram apelidados os portugueses que voltavam para Portugal, depois de terem tido negócios no Brasil. Quando Ana Plácido se casou com Pinheiro Alves, Camilo teve uma crise espiritual e ingressou no Seminário Episcopal do Porto, onde cultivou estudos religiosos, entre 1850 a 1852, pretendendo mesmo seguir a vida religiosa. Mas, a desilusão da vida no Seminário, fez-lhe renascer o desejo de conquistar Ana Plácido, o que acabou por conseguir, tendo com ela uma relação adúltera (crime punível na altura), de que resultou um processo de adultério e a prisão dos dois amantes, na Cadeia da Relação, no Porto.

camilo - 2

Este amor, à revelia das convenções e imposições sociais da época, levantou toda uma série de conjecturas e polémicas na opinião pública. Camilo e Ana Plácido estiveram presos durante um ano e acabaram por ser absolvidos dos crimes a que tinham sido condenados. Inicialmente, foram viver juntos em Lisboa, mas enfrentaram problemas económicos, o que os fez mudaram-se para o Porto, acabando depois por fixar residência, a partir de 1864, na quinta de S. Miguel de Seide, no Concelho de Vila Nova de Famalicão, antiga propriedade de Manuel Pinheiro Alves.

Em S. Miguel de Seide, Camilo entregou-se fervorosamente à escrita, mas sempre carregando a sua orfandade e os muitos desgostos que foi sofrendo e que, aos poucos, lhe foram retirando a vontade de viver. As suas palavras no final de uma carta, embora manifestem uma certa ironia, demonstram bem a vida tormentosa que não o largara nunca:

P.S. A mulher de meu filho [Nuno] morreu; morreu-lhe também a filha única. Meu filho Jorge sempre mentecapto. Nesta casa desaguam torrentes de felicidade dos mananciais divinos.”

As sucessivas aventuras sentimentais, numa incessante procura de um regaço onde se pudesse acolher e a vida desregrada que sempre levou, criaram-lhe uma instabilidade afectiva que se ia revelando numa amargura desesperada, num desânimo contínuo e numa tristeza profunda, com uma total desesperança da vida.

A cegueira agravou-lhe o modo depressivo com que encarava a vida e o desfecho foi trágico: suicidou-se com um tiro de revolver, no dia 1 de Junho de 1890, há 125 anos!

Revisitar o intemporal Camilo, cuja obra será sempre intemporal, é reavivar a memória deste grande escritor, personagem de grandes paixões, que não deixou, nem deixará, nunca ninguém indiferente.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: Pesquisa Google

01ago15

 Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.