António Pedro Dores
Já não é possível ignorar aquilo que se poderia saber faz anos, caso houvesse imprensa ao serviço da humanização das sociedades e interesse cidadão pela gestão da coisa pública, na Europa. Há, faz muito tempo, gente “como nós”, desarmada, a fugir à guerra cercada por muros que a impedem de escapar do teatro de conflito armado. Sobretudo mulheres, crianças e velhos. Esses muros foram construídos, continuam a sê-lo e estão também a ser reforçados pelos estados, incluindo europeus, que alegam respeito pelos direitos humanos (Turner, 2007).
Neste verão, além das centenas de mortos no mar, vindos sobretudo da Líbia, perante a invasão por terra através da Turquia e dos Balcãs, na Alemanha recrudescem os assaltos racistas (já habituais) aos abrigos para refugiados. Felizmente também recrudescem as manifestações de bom acolhimento dos refugiados. Nova versão das lutas fascistas-anti-fascistas do tempo da segunda guerra mundial. Nos países por onde o fluxo migratório passa, constroem mais barreiras físicas e usa-se a força para impedir e explorar de todas as formas a luta pela sobrevivência de milhares de pessoas.
Geralmente, nas notícias, os migrantes são apresentados como facínoras irracionais e inconscientes. Gente pobre à procura de sítio para cometer crimes. É uma descrição brutal que posiciona o julgador como proprietário do território e dos bens que serão partilhados pelos que chegam. Produzindo assim, antecipadamente, uma especulação discriminatória sobre o valor em alta das mercadorias, excepto da força de trabalho imigrante, em baixa.
Em Agosto de 2015, porém, as notícias tiveram uma conotação diferente. Outras preocupações – como o estoiro financeiro na China – poderá ter influenciado os jornalistas e o público para aceitarem ser compassivos com milhares de migrantes, muitos deles a falar correctamente inglês e a reclamar que são iguais a nós, ocidentais. Apenas viviam na Síria. Houve reportagens em que as próprias polícias destacadas para conter a multidão pareciam conformadas com o ímpeto tranquilo da avalanche de famílias como as nossas que se deslocavam com determinação. Embora a Amnistia Internacional informe que as autoridades da Macedónia, da Sérvia e da Hungria estejam a maltratar migrantes.
O que fazer? Nada do que se possa imaginar serve uma situação destas. Essa é a maior condenação de um regime europeu desumano que tem vingado nas últimas décadas e que, no seu estertor, arrasta a crise humanitária que já não se pode negar na Grécia (em Portugal e noutros países continua a esconder-se a situação) e no caso dos migrantes para Itália e dos refugiados da guerra da Síria, como antes de outras guerras (Dores, 2009). De facto, trata-se apenas de um aumento quantitativo de uma situação muito antiga, que os poderes ocidentais pensaram poder ignorar e continuar a explorar a seu favor.
Claro que o tempo mais frio vai reduzir (não acabar) como os fluxos migratórios. E diminuir as probabilidades de sobrevivência das pessoas e o seu ânimo e oportunidade de dar notícia de si. A comunicação social há-de voltar a poder ser controlada na expressão emocional das desgraças humanitárias – provavelmente quando este texto for lido tudo estará esquecido. Mas o cancro está lá faz muitos anos e não irá refluir, a menos que seja possível viver em paz e esperança nos territórios “lá longe” onde os poderes ocidentais decidem lançar a guerra. Será possível acabar com a política da “destruição criativa” para salvar negócios indecorosos da falência?
Ao fim de oito anos de crise financeira, logo agora que o governo português anuncia – para fins eleitoralistas – sinais de retoma económica, novas ondas de destruição de valor, como dizem os economistas, criam” tsunamis” financeiros globais. No Brasil, como em Portugal e na Alemanha, ou em França, a radicalização política é, por um lado, um sintoma de racionalidade dos que pensam que as actuais políticas têm que ser profundamente condenadas e substituídas, sob pena de agravar as catástrofes ambientais, sociais, económicas e políticas que se agigantam na nossa frente. Por outro lado, significa a disponibilidade de passar à acção irracional de quem se sente traído pelos tretas que enchem a boca de democracia, estado de direito, liberdade, direitos humanos e desprezam profundamente o resto da humanidade (quiçá se desprezam a si próprios) que acham um empecilho à sua boa vida de seres predestinados.
Do meu ponto de vista, a esperança reside no (re)conhecimento da instabilidade do ser humano. A mesma pessoa que vota nazi ou participa em acções violentas contra estrangeiros pode, se houver uma alteração das condições sociais envolventes, ser uma pessoa colaborativa, como outra qualquer, numa sociedade pacificada. A história mostra-o. Os alemães levaram democraticamente os nazis ao poder e à guerra. Mas foram capazes de reconhecer a sua culpa. Como nenhum outro povo foi capaz de fazer. Apoiados, é certo, nos vencedores norte-americanos e soviéticos.
Há quem diga que a reunificação alemã pode voltar a transformar o povo alemão naquilo que já mostrou poder ser. Julgo que é razoável pensar assim. Não apenas dos alemães mas de qualquer outro povo: são capazes do melhor e do pior.
O recrudescimento do racismo na Europa não é um fenómeno de conversão em massa. É o resultado das políticas de manipulação da discriminação, do dividir para reinar, em curso. Que distingue os trabalhadores dos sectores público e privado para amesquinhar uns e outros e, desse modo, destruir o valor dos salários e baixar o valor dos indicadores dos níveis de risco de pobreza. Ainda assim, as pessoas em risco continuam a aumentar: isto é, a redução do valor dos salários produz uma pobreza relativa maior, mesmo com níveis de vida mais baixos.
É o que se poderia chamar de política miserabilista. Pretende-se, através da ideia de competitividade, equiparar os níveis de vida dos trabalhadores ocidentais não aos que, de entre eles, beneficiam de melhores condições de vida, mas aos chineses e indianos. Reclamam solidariedade internacional para com os novos países em crescimento, mas não reclamam solidariedade com os países vizinhos, como o Iraque, a Síria, o Egipto, a Líbia, massacrados pela guerra ocidental que nada fez (ao contrário) para apoiar os desejos de democracia expressos e esmagados durante a Primavera Árabe.
A situação politicamente catastrófica e irracional que se vive pode e deve ser revertida pela esperança. Há uma política com potencialidades de contágio benévolo a todas as esferas da vida humana, incluindo saúde, segurança, bem-estar, educação, que é a igualdade de rendimentos (Wilkinson & Pickett, 2009). Por exemplo, através do rendimento básico incondicional. Imagine-se uma política global nestes termos: cada estado obrigar-se-ia a entregar meios monetários de subsistência a todos e cada um dos seus cidadãos. Haveria uma fortíssima redução das pessoas abandonadas à sua sorte. E cada pessoa migrante, portanto, traria consigo o direito ao acesso a esse rendimento, para onde quer que fosse. Construir uma globalização assim daria gosto.
(continua)
Fotos: Pesquisa Google
Fontes/Referências:
Dores, A. P. (2009). Human Rights through national borders. Sociology Without Borders, (4), 383–397. Retrieved from http://hdl.handle.net/10071/5913
Turner, B. S. (2007). The Enclave Society: Towards a Sociology of Immobility. European Journal of Social Theory, 2(10), 287–303. Retrieved from http://crossroads-asia.de/fileadmin/user_upload/Literatur/Area_Studies/Turner_2007_The_Enclave_Society.pdf
Wilkinson, R., & Pickett, K. (2009). The Spirit Level – why more equal societies almost always do better. London: Penguin Books.
Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
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