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Crimes sem religião

Ana Costa de Almeida

Face aos recentes actos criminosos cuja autoria foi reclamada pelo autodenominado e publicamente proclamado Estado Islâmico, não raro se vê apontar o dedo a uma religião, o islamismo, por sinal a mesma que professam as maciçamente habituais vítimas daquela organização.

Trata-se, no todo, de alheamento do que verdadeiramente faz mover aquele grupo, bem como do contexto em que surgiu e o leva a actuar. Mas, a priori e no que se percebe subjazer à crítica de muitos a uma religião como motor de condutas criminosas, trata-se de desconhecimento e pânico face ao que se desconhece, de falta de lucidez considerado o que a própria História melhor demonstrou, ou, por vezes, até do mesmo fundamentalismo religioso que se arrogam atribuir, como motivação, aos criminosos que integram a aludida organização.

religiao islamica

Desde sempre que o Homem sente necessidade de acreditar e se apoiar em algo maior. A religião deverá servir como moderador de consciências, incutindo valores e determinando que cada seu adepto e crente, de forma pessoal e intrínseca, paute a sua vida de acordo com esses princípios. É esse, desde logo, o papel positivo e valioso que a religião pode assumir, por via de uma ingerência constante na vivência de cada um e na sua relação com o próximo. E, contrariamente ao que o desconhecimento possa levar a pensar e a dizer, as religiões cristã e islâmica (bem como o judaísmo, também no que aqui se pretende enfatizar) não se distanciam no que devam ser princípios e valores a seguir, sendo comum o ânimo de vincar o que seja a diferença entre o bem a realizar e o mal a repudiar.

A religião, no que determina e pretende inculcar nos seus adeptos, jamais se poderá confundir com uma prática que na realidade a deturpa, com actos que antes são manifestação de desprezo pelo que ela inspira e promove. Muito menos servirá, obviamente, de pretexto ou justificação para actos criminosos, reprováveis e reprovados à luz dessa mesma religião.

O horripilante Tribunal do Santo Ofício e as práticas de perseguição dos próprios cristãos e de cristãos novos pela implacável Inquisição, com requintes dramáticos de tortura e morte certa dos por si ditos hereges, são ainda hoje inolvidáveis. O terror face aos actos horrendos que se fazia mesmo questão de exibir, a par do ascendente que a Igreja Católica Romana detinha sobre as populações obsessivamente tementes, numa época e em conjuntura que o propiciavam, com o destino da alma, levaram a que a Inquisição actuasse sem entraves ou contestação.

tribunal do santo oficio - 01

Para mais, inexistia na altura igualdade entre seres humanos e a vida não merecia ainda respeito enquanto direito fundamental e universal, pelo que as matanças sanguinárias determinadas pelo Santo Ofício, que hoje seriam actos criminosos verdadeiramente chocantes, de tremenda desumanidade, não mereciam censura, antes chegando até a população a regozijar-se com os Autos de Fé na praça pública.

Dir-se-á que aquelas práticas, levadas a cabo em determinado contexto histórico, se coadunavam com a religião cristã? Seguramente que não. Puros actos criminosos, traduzindo especiais malvadez e desumanidade, e vitimando, inclusivamente, também outros cristãos.

A Ku Klux Klan, organização extremista fundada no século XIX nos Estados Unidos da América e de que ainda hoje existem resquícios naquele País, propalava assentar a sua actuação numa defesa acérrima dos ideais e valores do cristianismo. Os actos de terror praticados eram, no entanto, totalmente reprováveis por quem verdadeiramente professava as religiões cristãs. Tratava-se tão somente de um grupo de pessoas, de criminosos, que de forma alguma representavam o que quer que fosse do cristianismo e que, de resto, igualmente a cristãos tinham como alvo e assassinavam.

ku klux klan

Não há como negar ou negligenciar que as religiões têm estado subjacentes a conflitos e guerras ao longo da História, mais incendiando do que pacificando. Há, por isso, quem aponte o dedo não a uma religião em concreto, mas critique e reprove as religiões em geral como alegadas fontes primaciais de discórdias e perseguições mesmo até entre os seus próprios crentes. Mas Portugal é um Estado laico, em que vinga a liberdade de religião e não há por que negar o que é de direito fundamental.

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De todo o modo, bem distinta é a forma como algumas pessoas, organizadamente, em nome duma qualquer religião, praticaram (e praticam) crimes invocando o que mais não é do que uma sua deturpação cega e fundamentalista. Não se coibiram de torturar e assassinar mesmo quem professava a mesma fé, tal o descontrolo e o próprio distanciamento desta.

A morte esteve sempre presente ao longo da História a pretexto das religiões, em perfeita negação do que são os seus valores morais e sociais, mas por intenção e “por mão” de quem a usa de modo segregador e hostil, totalmente desadequado frente aos princípios e aos objectivos que teoricamente devia perseguir. E tal não foi, nem é, de forma alguma, apanágio exclusivo do islamismo, vivendo este agora, e por razões e envolvimentos actuais, o que o cristianismo viveu durante séculos há séculos atrás.

Visto o passado, vivido o presente e antecipando o que continuará a suceder no futuro, impõe-se distinguir o que inspire numa dada religião a crença no divino e na sua recompensa do que de bom se faça na vida terrena, da forma como alguns, por fanatismo deturpador desses princípios ou usando-a de forma perversa para outros intuitos, em nome dela pratiquem crimes de todo o género. São esses que terão de ser condenados por eles e severamente punidos, e não a religião em nome da qual os cometeram.

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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