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Só agora é que o jornalismo português está em crise?

 

José Gonçalves

(Diretor)

 

E eis que, recentemente, um leque de iluminados descobriu a pólvora: o jornalismo está em crise!

Esta é, por si só uma notícia. Mais: uma verdadeira cacha! Só quando os jornalistas da “Lusa” e do “Público” entraram em greve é que o jornalismo entrou em crise para mal de todos os nossos pecados e, principalmente, dos da democracia.

Não faltaram comentários e mais comentários, análises e mais análises sobre o crítico estado em que se encontra a Imprensa em Portugal. A greve das duas instituições jornalísticas chegou para lhes refrescar a tola, mas não para lhes avivar a memória

Eu sei porquê. E sei, porque ando nestas vidas das redações há 26 anos, Hoje, sou um trabalhador desempregado. Trabalho aqui!

 

Bem. A verdade é que, recentemente, as sirenes zumbiram aos ouvidos desses doutos fazedores de opinião e emergentes defensores da classe, quando os camaradas da redação da Lusa decidiram (e bem!) fazer quatro dias de greve (19 a 22 de outubro de 2012), contestando, dessa forma, o corte de 30 por cento na dotação orçamental do Estado àquela empresa que, por acaso, é pública… receando o despedimento coletivo. Privada, mas do “Público”, também “canetas” e demais profissionais, paralisaram no dia 19 de outubro de 2012, contra o processo de reestruturação da empresa que prevê o despedimento de 48 profissionais.

 

Como se não bastasse, também nesse espaço de tempo (nem de propósito) a “Controlinvest”, de Joaquim Oliveira, mostrava-se, como ainda se mostra, prontinha a vender, a uma empresa angolana, os títulos “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “O Jogo” e ainda a rádio “TSF”. Títulos com história. Títulos de referência que serão vendidos a um grupo qualquer. Perde-se, entretanto, a identidade nacional e local de duas instituições seculares e perder-se-ão profissionais.

Também nessa semana – ora vejam lá a coincidência?! – a Impresa, de Pinto Balsemão – que tinha acabado de bufar as vinte velas do bolo de aniversário da SIC -, decidiu encerrar as revistas “Casa Cláudia”, “Casa Cláudia Ideias”, “Arquitectura & Construção”, AutoSport” e “Volante”, e, precisamente, ao volante destas medidas serão postos, “amigavelmente”, na rua, 50 trabalhadores, entre os quais nove jornalistas. Não as passou de papel para o eletrónico. Não. Objetivo: despedir!

 

Mas, a crise do jornalismo que se faz em Portugal é só de agora? Claro que não, e quem diga que sim, além de pateta, é desconhecedor da realidade do mundo da Imprensa na última década.

Ainda hoje, estamos preocupados com o que o senhor Relvas e Companha Lda. vai fazer com a RTP e o seu serviço público de rádio e televisão. Vender. Extinguir. Tudo ao desbarato! É a norma. É a regra, a nova regra economicista (?!), garante de estupidez política e de um atentado sub-reptício às instituições do País, neste caso, da informação.

A fatura será paga mais tarde. As próximas gerações terão de pagar os erros desta desgovernação, que alguns consideram amalucada e que amalucada continuará a ser quando, por dinheiro ou por alegados deveres à estranja troikana – que ninguém conhece ao pormenor – se vende tudo, se vilipendia tudo sem nexo, sem norte… para nada.

 

Mas, a crise no, ou do, jornalismo que se faz em Portugal é só de agora? Não.

Caro(a)s amigo(a)s. A crise tem histórico. Tem décadas. Não recuando muito no tempo – isto em 2005 – encerravam dois títulos. Um decano dos jornais diários publicados no continente: “O Comércio do Porto”. O outro: “A Capital”. Ambos encerraram portas, mandando para a rua os seus trabalhadores, a 30 de julho de 2005.

Na altura, não se questionou algo relacionado com um atentado à liberdade de expressão ou até ao garante da democracia que os órgãos de comunicação social têm de defender. Não! Como as empresas foram à falência… foram… paciência! E o valor patrimonial das mesmas? E os direitos dos trabalhadores?

A solidariedade do Sindicato dos Jornalistas foi simpática mas em nada resultou. Aliás, o Sindicato é sempre solidário e simpático, mas, quanto ao resto… nada! Não tem influência. Atua atuando, como que remando ao sabor da maré, dizendo, algumas das vezes que está presente – de preferência por comunicado – mas, depois, tudo se esfuma e quem se lixa é o mexilhão.

 

Quanto a títulos da Imprensa escrita falei no “Comércio” e na “Capital”, mas poderia, nesta última década enfatizar o encerramento de jornais como o “24 horas”, o “Independente” e o “Tal &Qual”… entre outros. Assim como, na rádio, a RCP.

Fechou! Está Fechado! Acabou! Está Acabado!

Sei que o Sindicato de Jornalista se solidarizou com os profissionais despedidos, não sei é se esses jornalistas – caso ainda sejam jornalistas – estão solidários com o sindicato.

 

A Liberdade de expressão, o jornalismo e a democracia

 

Não posso e não quero ser mais papista que o Papa, deixo isso para os comentadores políticos, sociólogos, psicólogos e novos defensores da “classe jornalística” que, se calhar, não sabem o que é um “lide” e que, se não fosse o computador chamá-los à atenção, dividiriam, com uma vírgula, um sujeito de um predicado numa frase qualquer (lias e corrigias tantas vezes!).

O jornalismo é, tem de ser, um dos garantes da democracia – é verdade! – isto através da sua liberdade de expressão. Só que os condicionalismos de trabalho dos jornalistas de fornadas (entram dez hoje, saem os mesmos seis meses depois, e assim sucessivamente) não dá qualquer garantia nem de estabilidade, nem de qualidade, nem de estrutura eficaz à produção própria de um jornal, rádio ou televisão, a qual, perante o público, distingue um título, um canal, ou emissora dos demais, na saudável concorrência que os mesmo devem ter entre si.

 

O jornalismo de investigação, por exemplo, fica caro. Esse tipo de trabalho é normalmente destinado a profissionais experientes, muitos dos quais já foram expulsos das redações. Ou porque são caros, ou porque estão preparados e vocacionados a escrever, ou relatar falando, a realidade dos factos que a muitos (nós sabemos quem) não interessa. E como não interessa… rua! Não são poucos os casos; casos que são mais gritantes na imprensa regional, que abaixo revelarei.

Mas, este tipo de jornalismo (investigação), vá que não vá, tem sido apoiado em alguns órgãos de comunicação social, com destaque para a televisão.

Este trabalho específico de informação isento e factual, arrisca-se depois, a esbarrar-se, em termos de edição geral, nos comentários e debates feitos sempre pelos mesmos comentadores, alguns contratados a peso de ouro.

 

Muito(a)s, não vão – nem para os jornais, nem para as rádios, nem para as televisões – pensando revelar relevando a sua opinião pura e dura, mas, essencialmente, em segundas intenções, as quais passam ou por promoções pessoais aquando das eleições; pelo derrube de inimigos partidários… também aquando de eleições ou de congressos; da criação voluntária de instabilidade política ou de promoção de um grupelho de amigos que lhes fizeram alguns elogios ou até alguns simpáticos favores em certas e cruciais alturas da vida política nacional e regional.

Isto não é de agora. Isto vem de há décadas!

A “liberdade de expressão” está, como se sabe – mas poucos querem assumir – regrada, obstaculizada, condicionada e, por vezes, adulterada nos grandes órgãos de comunicação social.

O jornalismo regional e o caciquismo

 

Mas, se os crescentes condicionalismos à liberdade de expressão responsável são visíveis a nível nacional – questionando-se, a partir das greves dos profissionais da Lusa e do “Público”, esse que é um dos baluartes da democracia -, a verdade é que, há muito tempo, se ultraja, se humilha, condiciona-se e chantageia-se o trabalho do jornalista.

No jornalismo regional, isso é mais por demais evidente, se bem que, quem nessas redações trabalha, tenha medo de denunciar os factos devido a ameaças ou represálias que, de certeza, seriam, alvo. O meio é pequeno. As pessoas conhecem-se umas às outras e os caciques estão lá para o que der e vier!

Quem vos escreve viveu algumas dessas experiências.

 

Poucas pessoas dão valor à imprensa regional, a qual “emprega” largas centenas de “jornalistas”. Quando se fala em imprensa, pode falar também em rádio e, já agora, em televisão. Via net, ou ainda por papel, chega-se a qualquer lado do mundo, tendo o jornalismo regional um papel fundamental junto dos emigrantes.

Esse papel tem sido, porém, desvalorizado por diversos governos, mas, a verdade, é que esta “vertente de informação” é cada vez mais importante, tanto quanto o número crescente daqueles que abalam de terras lusas rumo à estranja.

 

 

Pressões e mais pressões

 

Mas, como é que, na realidade, funcionam alguns desses (e não são poucos) órgãos de comunicação social regionais e locais?

Pouco se tem escalpelizado acerca da importância do jornalismo regional, mas, acima de tudo, dos critérios de como o mesmo “funciona”.

Já que estamos a falar em défice democrático nos órgãos de comunicação social, penso que é, precisamente, por aqui – pelas regiões -, que a questão deve ser levantada, uma vez que a mesma é menos visível a nível nacional e, como tal, esse facto dá aso aos mais humilhantes atentados à dignidade e seriedade dos jornalistas. Sei do que escrevo!

 

Quando me refiro aos órgãos de informação regionais e locais, não os circunscrevo às aldeias, vilas e cidades mais recônditas deste país. Refiro-me também a alguns jornais, rádios e televisões sediadas nos grandes centros urbanos.

Mas, é, essencialmente, na dita “província” que acontecem os mais bárbaros atentados à liberdade de expressão e ao papel do jornalista.

 

O jornalista está algemado aos interesses do cacique, do partido político dominante, da Câmara Municipal local, dos grandes e médios empresários da “zona”, e tudo por causa da publicidade.

São eles que dão dinheiro aos jornais e às rádios, e são eles que, com esse dinheiro, chantageiam os diretores, chefes de redação e até jornalistas a seguirem as suas linhas de orientação, pois, caso assim não seja, os cortes financeiros serão acentuados e o próprio órgão de informação correrá o risco de desaparecer.

Muitos já desapareceram.

 

“Lavandarias” jornalísticas

 

Salvo raras e honrosas exceções, o administrador – “dono” ou “patrão” – desses jornais nada percebe de jornalismo. Compra um título para meter no bolso o dinheiro da publicidade, dos editais camarários e das comarcas, e outras coisas assim do género. Ganhando relevo na comunidade, o dito cujo torna-se, socialmente, um senhor de respeito (cacique) e com esse respeito – tendo o jornal na banca ou a rádio no ar-, muita das vezes serve-se disso para “lavar dinheiro”.

 

Os jornalistas não passam de paus-mandados e se, por ventura, revelarem algo que contrarie o sistema, através de uma simples reportagem que coloque em causa o nome do senhor fulano de tal -presidente de câmara ou dono da maior empresa da região-, correm o risco de receberem, constantemente, telefonemas ameaçadores, de serem, literalmente, perseguidos e até mesmo agredidos.

 

Estas questões complicam-se quando se aproximam, por exemplo, as Festas Natalícias. Há sempre um comunicado da Câmara Municipal, de Junta ou de empresas a desejar Boas-Festas. A publicidade de cada uma dessas instituições ou empresas, ocupa, normalmente uma ou meia-página, frequentemente, a cores. Estamos a falar de muito dinheiro que entra nos cofres dos administradores desses jornais, mas que se esfumam sem ninguém dar conta. Os profissionais com sorte recebem o respetivo subsídio, mas uma parte considerável deles recebe-o às pingas… ou não o recebe!

 

Assédios, ameaças e humilhações

 

O assédio psicológico sobre os jornalistas é uma constante em algumas dessas empresas. As tais empresas que controlam os jornais e rádios regionais. Vou colocar comas em “empresas”.

Aliás, refira-se e com registo de propriedade, que a liberdade de expressão nas redações instaladas nessas “lavandarias”, morre no tapete de entrada.

Lá dentro vive-se um outro mundo. Um mundo distante do da democracia e do Estado de Direito. Não há democracia. Desconhecesse o Estado e, muito mais o Direito.

 

Poderia revelar uma centena de casos, mas não o faço tendo em conta a minha integridade física, até porque também não tenho uma Justiça à altura que me possa defender. Os atentados passam-se em órgãos de comunicação social regionais, mas, coisas do género, também acontecem em outros de maior difusão.

Onde mora aqui a democracia? Onde mora aqui a liberdade de expressão?

É este o jornalismo que, por vezes, o Sindicato desconhece, e que os profissionais escondem para não perderem a meia-dúzia de euros que ganham ao final do mês, assinando, ou assassinando-se, com recibo verde.

Com estas e com outras, volto a perguntar: só agora é que o jornalismo está em crise?

 

E não me alongo mais. Por cá (Etc e Tal Jornal) já aprendemos a lidar com caciques e outra gentalha do género. Sabemos respeitar quem nos respeita, mas quem nos respeita terá sempre de aceitar a verdade dos factos, e, acima de tudo, o nosso Estatuto Editorial.

A precisar de publicidade como de pão para a boca, os jornais vão-se vendendo. Adulteram-se. Definham. Descaraterizam-se. Deixam de ser jornais… passam a pasquins!

 

Há crise no complexo mundo da comunicação social, e a crise é tão grave como o complicado é o universo da informação. No meio disto tudo, quem paga a fatura são os profissionais que até podem gostar de jornalismo, e até podem ser bons jornalistas, mas que, para assegurarem a sua sobrevivência, preferem ser arrumadores de carros! Um jornalista sério não tem paciência para aturar corruptos e logo neste país que está cheio deles!

O jornalismo está em crise. A Liberdade de Expressão está em crise! A democracia vai definhando. Como disse o arquiteto Álvaro Siza Vieira: “em Portugal há a sensação de se viver de novo em ditadura”.

 

 

 

Hoje, Sugiro Eu:

 

Quinta Essência”, na “Antena 2”, aos sábados, 10horas. Uma forma interessante de fazer entrevistas na rádio, com gente que a gente conhece, e que, se não conhece, facilmente, fica a conhecer. Com João Almeida. Produção: Ana Fernandes.

 

Hoje”, o telejornal da RTP2. Todos os dias a partir das 22 horas. Vale a pena saber-se tudo, e de tudo um pouco, em pouco mais de 35 minutos de informação. Bem apresentado, bem moderado e com convidados que, normalmente, sabem do que falam.

 

 

E, pronto, meus amigos e minhas aminhas

 

Sejam felizes e…  até dezembro!

3 Comments

  1. Carlos Duarte

    Escrevo-vos de Leiria. Sei do que fala o sr. diretor deste jornal. É a verdade nua e crua, no que concerne ao jornalismo regioinal. Eu passei por muitas.

  2. Lourdes dos Anjos

    MUITO BEM. E fica tudo dito.Resta-me acrescentar que o senhor patrão do sindicato dos jornalistas, ainda não chegou a assessor de um ministro qualquer porque ESTÁ BEM…está tão bem como todos os outros senhores sindicalistas que ESTÃO CAD VEZ MELHOR INSTALADOS…NO PODER!

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