Maria de Lourdes dos Anjos
No meu tempo de menina, havia Natal. Havia partilha de afetos, havia família. Havia um, um, apenas… um pequeno e útil presente para cada um dos mais pequenos. Havia uma noite diferente porque o relógio parava para cear, para comer nozes com figos de Ceira, e frutas cristalizadas. Havia bacalhau grosso para uns e barbatanas finas para outros, com batatas e pencas da Póvoa.
Havia bolo-rei com brinde e com fava e um copo de vinho fino de uma adega particular lá de cima, do Douro.
Desse meu velho tempo ficou o sabor das rabanadas que comia ao desafio com o meu pai e uma mesa cheia de gente que tinha mais olhos que barriga, que falava de velhas profecias e de bruxedos, de malandrices da juventude e dos familiares que, na Venezuela ou na Alemanha, tentavam um vida mais folgada.
Os lugares ainda lá estão mas agora são lugares vazios em mesas cheias com o silêncio de gente. Hoje, os meus natais são os que aqui vos deixo, feitos de perguntas a que ninguém responde, mais outras dores que escondo, hipocrisias, de comércio chinês, de faz-de-conta, de solidão, de dor, e de muitas pessoas vazias de gente fazendo figuras de urso a que a gente já não acha graça nenhuma e não interessam nem ao menino Jesus.
DOZE NATAIS
Não te lembraste de mim
durante onze meses e meio.
Passaste, encolheste os ombros
e continuaste o teu passeio.
Mas eu estava lá.
Na mãe desesperada,
na criança esquecida,
no velho abandonado,
no homem desempregado.
Durante trezentos e sessenta e cinco noites,
contei quatro ou cinco dias
com alguns risos e alegrias.
Durante meses e meses sem fim,
não te lembraste de mim.
Da minha fome e da raiva
Da solidão que me enche
Do meu desnorte
Das lágrimas, azedas lágrimas…
Do nevoeiro que é minha mortalha
Da chuva que me agasalha.
Milagrosamente, apareces, com ar soberano
Nas duas últimas semanas do ano!
Contigo trazes muita gente:
um empresário que abriu falência,
uma dama vestida com decência,
um político que veio visitar o Norte
e um benfeitor alto, bem falante e “forte”.
Chamam a comunicação social
e oferecem uma noite de Natal.
Tiram, por momentos, um Cristo da cruz
e falam do nascimento de Jesus
– Daqui a doze meses, se Deus quiser,
vamos todos de novo aparecer.
Vamos festejar o Natal com o povo
e desejar a quem sofre, Feliz Ano Novo!
Com estes gestos, com falas assim,
Troçaste de todos, troçando de mim.
Quando o homem se libertar de tanta hipocrisia,
Quando vivermos com alguma justiça social,
vamos ser pessoa. Viver com harmonia
E partilhar, um ano inteiro, o perfume do Natal.
M. Lourdes dos Anjos, in “Nobre Povo”


Poemas são sentidos e desvendam o que nos vai na alma, mas sempre são retratos do nosso ser!
Simplesmente a minha opinião.
Já agora,aí vai um outro NATAL
DOIS GAJOS FELIZES
Hoje , não houve escola.
O Menino Jesus ficou no presépio
com os pastores,os pais,
os magos e os animais.
Ficaram todos a descansar.
Fui dar-lhes os bons dias
e convidei-O para brincar.
Jogámos as cartas, o dominó
e comemos rabanadas
que nos fez a minha avó.
Enterramos os livros, as tabuadas,
falamos de futebol,
de miúdas engraçadas
e até dos profes, esses postais.
Que dia fixe, foi demais!
À tardinha, ao regressar,
o cansaço da festa era tal
que nenhum de nós se lembrou
que era NOITE DE NATAL!
Ninguém nos ralhou.
Nem S.José nem Maria
quando viram estes cromos
saltitando de alegria.
O presépio iluminou-se
e da noite se fez dia!
E foi festa, uma festa bestial!
Sem cotas nem pieguices
sem rezas , sem aldrabices…
Só com dois gajos felizes,
fez-se a FESTA DE NATAL!
Lourdes dos Anjos
Dezembro de 2006
Olá meus amigos,começo por dizer que sou uma pessoa muito feliz, muito bem disposta e muito atenta a tudo o que me rodeia.Não sou nada de religiões, não acredito no MENINO JESUS há muitos , muitos anos e detesto esses pais não sei quem chineses que trepam paredes e assaltam casas pela varanda com um saco ás costas.Quando me apercebi que havia meninos sem meninice e homens sem pão era uma jovem sonhadora que iniciava a sua vida profissional num lugar muito pobre, na margem direita do Douro.LUTEI MUITO PARA QUE NESTA SOCIEDADE AS PESSOAS FOSSEM MENOS DESIGUAIS E ISSO SAIU-ME CARO . Continuo a acreditar que os meus netos mereciam um PORTUGAL mais livre e mais justo; Este poema é o grito de gente que não tem voz, que vai sobrevivendo com a caridadezinha de uns tantos hipócritas que só vêem a fome e o desespero dos outros um mês por ano Este não é o natal da autora mas são estas situações que nos tornam gente com vontade de lutar pela EDUCAÇÃO E PELA LIBERDADE.Cresci com esses valores,vivi doze meses por ano partilhando a AMIZADE
e nunca precisei de prendinhas e aldrabices para respeitar este povo NOBRE E LEAL A QUE, ORGULHOSAMENTE, PERTENÇO.BOM ANO PARA TODOS.
Os seus natais devem ter sido muito tristes. Não? Serão eles de revolta, de mal estar, e de amor com mistura de dor?
Bom Natal!
Cara senhora. Também já tive natais assim. E agora, o que fazer para o futuro? Diga-nos qualquer coisa. Sei que a senhora não manda, mas isto não é só escrever. Dê alternativas. Explique-nos o que está a acontecer. Não estava para escrever aqui, mas escrevi porqur gostei do seu poema, mas infelizmente, este país já não vai com poemas. Desculpe a minha sinceridade
É o nosso Natal. O seu foi parecido com o meu… há muitos anos, e há muitos anos nunca se pensava que muitos anos depois passassemos quase a mesma miséria. O cenário é diferente a fome é que é a mesma, Esta cambada de políticos devia rumar para o deserto…