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De Viagem: Aldeias “avieiras” nas margens do Tejo

Em período de férias, no sempre desejado tempo de descanso e recarregamento de baterias para mais um ano de trabalho, foi irresistível partilhar com os leitores do “Etc e Tal jornal” uma visita a duas terras de avieiros nas margens do rio Tejo e muito em particular a Aldeia da Palhota no Cartaxo, que o escritor Alves Redol retrata na sua obra “Avieiros”.

Decorria nestes dias de férias a época da campanha do tomate em pleno mês de agosto, que se estende por cerca de três meses de trabalho sazonal, em muitos casos sem interrupção, mesmo ao domingo, para a intensiva apanha mecânica de muitos milhares de hectares de terrenos em campos a perder de vista no colorido e tórrido ribatejo, neste caso, na freguesia da Valada no concelho do Cartaxo, provocando um intenso trafego de camiões carregados de tomate na direção de unidades fabris que transformam este produto com uma significativa percentagem para exportação a exemplo do Japão.

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Um ritmo frenético, numa região que noutros tempos privilegiou o melão e que já alguns anos vem apostando na cultura do tomate de forma intensiva, intercalado durante o ano entre outras culturas, como, girassol, milho, trigo e vinha. Neste caso da apanha mecânica do tomate, muito produto é deixado nos campos à mercê de quem aproveita tal abundância do desperdício proporcionado pelas máquinas, que naturalmente garantem como lucro, a despensa de muita mão-de-obra que outrora garantia sazonalmente trabalho às gentes do ribatejo e de tantos outros trabalhadores de regiões distantes que, ali, em terras regadas pelo Tejo, procuravam algum pão para a família.

Jornas de trabalho no campo em tempos e realidades distintas de outras épocas que marcaram a região e o país, que mesmo assim, não deixam de trazer à memória, vivências entre a relação da atividade piscatória nas águas do Tejo e o trabalho rural, que o escritor Alves Redol imortalizou numa das suas obras literárias, “Avieiros”.

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Visitar dois importantes locais, como as aldeias de avieiros em ambas as margens do rio, com casas típicas de madeira, como a Aldeia da Palhota, que, com as povoações de Porto Muge e Reguengo formam a freguesia da Valada, uma das mais antigas do Cartaxo e das primeiras a transformar as suas terras ricas. E depois atravessar o rio Tejo pela antiga Ponte Rainha Dona Amélia, a notável obra de engenharia em ferro inaugurada em 1904, para o movimento ferroviário pelo interior até ao Algarve, entretanto substituída por nova ponte, para na margem sul poder também observar alguns exemplares de típicas habitações de avieiros na aldeia de Escaroupim, concelho de Salvaterra de Magos. Fez reavivar o enredo, a vivência social e humana, bem como os personagens da obra literária “Avieiros”.

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Em ambas as aldeias avieiras, ouve uma sensação de pisar terra que habitualmente era inundada pelas cheias nas margens do Tejo, dando origem à construção de tal tipo de habitações das famílias dos pescadores, que assim permaneciam em água para a safra na pesca do sável, famílias dos avieiros, que sazonalmente conciliavam com o trabalho no campo entre ambas as margens ribatejanas.

Transportados para a obra de Alves Redol

Mas, surpreendente, nesta inesquecível visita a tais aldeias, que nos transportam para a obra neorrealista de Alves Redol, é a paisagem natural e de ocupação humana com particular relevo na Aldeia da Palhota, em que chegou a ser habitada por um só pescador já na parte final da atividade dos avieiros que veio a registar-se progressivamente naquela espécie de santuário desta gente que o escritor ribatejano quis conhecer bem de perto. Um autêntico núcleo museológico em que se destacam ainda alguns exemplares das características casas dos avieiros na Palhota.

São verdadeiras memórias de um tempo que urge preservar e dignificar, para que este cantinho de um extraordinário património humano e cultural, não se perca definitivamente nos tempos que correm, quando ainda há espaços físicos, arquitetónicos e paisagísticos que merecem mais atenção das entidades competentes, a exemplo aliás dos vestígios do projeto “Palhota VIVA” do início dos anos noventa (1994), para não deixar descaraterizar a mais típica e representativa aldeia avieira nas margens do Tejo na freguesia da Valada, que a Câmara Municipal do Cartaxo também no âmbito do “Palhota VIVA” lá homenageou Alves Redol em 1999.

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Contrariar a tendência para o abandono deste autêntico núcleo museológico que merece ser preservado, era afinal uma justa homenagem em memória dos avieiros e de um escritor que mostrou ao mundo um tal modo de vida.

O pó dos camiões que não param de calcorrear os caminhos rurais de acesso àquelas terras de produção de tomate, por onde roncam tratores mesmo ao anoitecer e ao amanhecer para aproveitar o tempo mais fresco. Deixam esta Aldeia da Palhota logo à sua entrada, camuflada por um pó seco esbranquiçado que se entranha na paisagem, mesmo nas cores que dão algum brilho à Aldeia, nas casas que vão sendo habitadas e preservadas por residentes de fim de semana, que vão dando vida ao acolhedor café Zé Broa instalado numa casa de avieiro em que serve ementas tradicionais, como o sável e lampreia, para delicia dos forasteiros que ali encontram também um improvisado cais que entra rio adentro, com algumas embarcações atracadas e margens no rio com refrescantes sombras das arvores que tornam este espaço de antigas memórias da comunidade avieira, verdadeiramente deslumbrante.

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Este roteiro por terras de avieiros, foi não só inesquecível, como estimulante a reler a obra de Alves Redol, que na busca de contato humano para escrever este seu livro, “Avieiros”, viveu em 1941 vários meses em convívio com os pescadores durante a safra do sável no rio Tejo. Uma viagem de férias que permitiu neste agosto do século XXI, penetrar no espaço que surpreendeu o próprio autor da obra, como afirma Alves Redol num texto de “Breve história de um romance”, que se lê no seu livro “Avieiros” da coleção Livros de bolso europa-américa. “Quando cheguei à Palhota, não entrou nessa aldeia ribeirinha um observador curioso de pitoresco ou de bizarria. Nem eu próprio suspeitava de tudo o que me levava até ali”, escreveu.

Alves Redol, que decidiu viver numa barraca da Palhota, num tempo em que, como escreve, “o Tejo era um jardim de peixes”, ajudava os pescadores na faina, e como testemunho pessoal, deixou nesta sua obra a afirmação de que, “não me arrependo de ter procurado esta experiência, como tantas outras que tornei carne viva dos meus livros, embora o engenho de escritor não me bastasse ainda para interpretar e recriar o que a realidade lhe oferecia, elevando-a ao nível da significação” e acrescenta, “o escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona-se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo, mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda. Escolhe, representa, desencadeia a perceção e a imaginação do leitor: entrega-lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá-la também por sua vez”.

Agradecimento

Ao meu cunhado José Campino, que cresceu na Valada e no Tejo, profissional da arte dos livros, só posso agradecer esta oportunidade de visitar e conhecer as aldeias avieiras e a paixão que deixa transbordar da sua alma ribatejana, do seu valioso património humano, ambiental, paisagístico, arquitetónico, cultural e naturalmente o literário.

Texto e fotos: José Lopes

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