José Lopes / Tribuna Livre
Entre os vários temas abordados na revista do Jornal de Noticias, “História” n.º 4 de Agosto/2016, como: Wiriyamu, 1972 – Massacre em Moçambique; Museu do Aljube – Resistência e Liberdade; Como Salazar jogou na Guerra Civil Espanhola ou a entrevista ao historiador Fernando Rosas, em que este afirma que, “o perigo, em Portugal, não são os imigrantes, mas a austeridade neoliberal”.
Destacasse um dossiê sobre “Emigração portuguesa, passado, presente e futuro”, dividido em três interessantes trabalhos que nos tempos que correm, perante tanta desumanização como são tratados na Europa os imigrantes e refugiados da miséria, dos regimes totalitários e das guerras fratricidas, nos fazem despertar memórias, não só da mais recente emigração de jovens quadros portugueses “empurrados pela crise e puxados pela qualificação”, título do trabalho n.º 3 deste dossiê que tem um n.º 1 designado, “do eldorado brasileiro ao «Salto» para a Europa”, enquanto o trabalho n.º 2, “As migrações intraeuropeias e os desafios do futuro”, que é aqui partilhado, como o período com memórias ainda vivas e marcantes em várias gerações ao longo de quase meio século.
Com texto de Maria Beatriz Rocha – Trindade do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais/Universidade Aberta, e fotos de Gérald Bloncourt, o haitiano a quem o trabalho desta investigadora também faz questão de homenagear pela sua relação com a comunidade emigrante portuguesa. A rota da emigração também para França insere-se naturalmente nas características humanas que representa a “mobilidade”, que sempre acompanhou, “qualquer que tivesse sido a forma assumida, todo o percurso da História de Portugal”. “Estima-se que cerca de metade do número equivalente aos que agora residem no país se encontra distribuída por vários continentes”.
A autora faz uma “abordagem dedicada ao espaço de tempo que decorre do fim da II Guerra Mundial até à data em que uma revolução democrática põe fim ao regime ditatorial então instalado (1974)”, porque em sua opinião, “não podemos deixar de ter presentes todos os fluxos migratórios precedentes, remontando ao período da expansão, e à forma como articulações internacionais foram alterando as metas ou como os progressos tecnológicos e a circulação de informação as tornaram mais alcançáveis”. Lembra ainda que no chamado período “intraeuropeu” das migrações, “o destino dos que deixavam o país era sobretudo transoceânico – o Brasil e os Estados Unidos constituíram os destinos prioritários deste longo e complexo processo de deslocalização.”
Sobre o impulso do pós-guerra na emigração, é desenvolvida a ideia de que, “a baixa taxa demográfica que sempre caracterizou França agravou-se com os desgastantes materiais e populacionais decorrentes da II Guerra Mundial, como já acontecera com a Grande Guerra (1914-1918). Além da tradicional importação de gentes que ininterruptamente se foram fixando no seu território, fruto de guerras, conflitos e ausência das condições de vida necessárias à fixação nos locais de onde partiram, a reconstrução do pós-guerra, obedecendo a políticas de carácter nacional e internacional (de que é exemplo o Plano Marshall) criou em França uma necessidade de importar trabalhadores, sobretudo para áreas da construção civil”, ainda que curiosamente, “Na década de 60, o número de portugueses ali residentes era insignificante, mas atualmente representa cerca de 16% da população total, o que constitui 36% da população estrangeira (…)”.
Travessia a “salto”, uma expressão tão familiar entre os portugueses que procuravam, sobretudo em França, melhor sorte. Permite relembrar rotas da clandestidade então traçadas por quem se negava a cruzar os braços às dificuldades criadas pelo regime de Salazar que dava provas de durabilidade numa Europa que oferecia liberdade e democracia a quem arriscava ainda que sejam, “inimagináveis as condições em que era realizada uma viagem feita a pé, subindo e descendo montanhas”, como a penosa travessia dos Pirenéus, ou “atravessando cursos de água ou pernoitando em grutas.
(…) Gente de todas as idades fez um longo trajeto fugindo aos olhares das autoridades portuguesas e espanholas – uns, tomando o caminho dianteiro, outros, tentando, reencontrar o cônjuge que primeiramente partira e cujas notícias tardavam”.
Neste cruzar de memórias, a estação de caminhos-de-ferro, Hendaye é “localidade fronteiriça cuja lembrança sobrevive”, como referência de, “onde se chegava e de onde se partia, tantas vezes em direção incerta”, mas sempre com esperança de chegar à Gare d´Austerlitz, (um dos seis grandes terminais ferroviários de Paris).
A evolução e substituição dos espaços habitacionais, “bidonville”, bairro de lata onde durante as primeiras décadas das primeiras gerações de emigrantes e seus familiares viveram, permitiu estabelecer relacionamentos entre os migrantes e os locais de onde provinham, e assim, “A memória desses tempos perdura até hoje, mantendo-se a união entre os que tendo partilhado o mesmo tipo de dificuldades, assumiam como coletivas e manifestam hoje orgulho pela forma como foram ultrapassadas”. Um dos mais recentes pontos altos, foi naturalmente a inauguração de um monumento evocativo da emigração, que teve lugar em Champigny, pelo presidente da República e pelo primeiro-ministro portugueses, no 10 de junho.
Mas, neste dossiê sobre emigração portuguesa publicado na revista “História” do JN, a verdadeira vivência social e humana dos emigrantes portugueses em terras de França, ganha particular realismo com a extraordinária ilustração proporcionada pelas fotos de Gérald Bloncourt, como testemunhos ainda tão frescos na memória coletiva. Da travessia dos Pirenéus às várias imagens das vivências nos “bidonvilles”, como o barbeiro em ação no barro de lata de “Champigny-sur-Marne” ou jovens a crescerem nestes cenários sociais e humanos. Fotos do “duro quotidiano que os portugueses experimentaram nos bairros de lata em redor da capital francesa, ainda que tivessem partido de realidades tanto ou mais duras no país natal”.
Como reconhece a autora deste trabalho de investigação que aqui se destacam algumas partes, e referindo-se a Gérald Bloncourt como testemunha dos “bidonvilles“, “Não fora a consciência democrática de Gérald e não teríamos, hoje, o mais célebre acervo fotográfico conhecido sobre a emigração portuguesa para França, nas décadas de 50 e 60”.
Nascido no Haiti em 1926, Gérald, que este ano foi condecorado pelo presidente da República Portuguesa, nas celebrações do 10 de junho, em Paris, “foi expulso do país natal em 1946, por se opor à ditadura de Élie Lescot. Após alguns meses em Martinica, o artista plástico (pintor e gravador) fixou-se na capital francesa, onde passou a dedicar-se também à fotografia e, dentro desta, ao fotojornalismo, como free-lancer, vendo seu trabalho estampado em publicações de referência, como “Le Nouvel Observateur” ou “L’Express”, entre tantos outros”.
Decorriam então os anos 60, quando militantemente Gérald, “interessou-se particularmente pela dura e degrante realidade dos portugueses em França, fotografando-os incansavelmente nos bidonvilles” ou nos locais de trabalho, mas quis ir mais longe e, em 1966, deslocou-se pela primeira vez a Portugal, fotografando a existência miserável das pessoas nos locais de origem, nomeadamente na região de Chaves, ou nos bairros de lata em redor de Lisboa”.
Realçam-se ainda nesta fase final as palavras da autora quando afirma que, “Este trabalho sobre a emigração portuguesa é, também, uma homenagem a Gérald Bloncourt, que a ele se associou cedendo gentilmente as suas imagens icónicas”.
Texto: José Lopes
(Artigo com base na revista História n.º 4 do JN)
Fotos: Pesquisa Google
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