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A desclassificação da Linha do Tua

Movimento Cívico Pela Linha do Tua / Tribuna Livre

De acordo com o publicado em Diário da República no passado dia 30 de Agosto de 2016, o Conselho de Ministros decidiu desclassificar a Linha do Tua da Rede Ferroviária Nacional, despromovendo mais uma vez a sua importância.

Ao longo da nossa história, a Linha do Tua foi provavelmente o eixo ferroviário mais “chacoteado” do País, onde sofreu um pouco de tudo. Ao contrário do que é dito no próprio Diário da República, a ligação entre Macedo de Cavaleiros e Bragança não encerrou em 1992, mas sim em Dezembro de 1991, quando este troço foi deixado completamente isolado da rede, já depois do encerramento do troço entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros.

Foi, porém, em 1992, que a CP, num ato de legitimidade duvidosa, veio a Bragança e a Macedo de Cavaleiros levar o material circulante que por lá se encontrava. Este levantamento foi feito pela calada da noite, com a justificação de que o material precisaria de intervenções, tendo-se observado então cortes nas telecomunicações locais. O ato ficou conhecido como “A Noite do Roubo”.

Já entre 2007 e 2008, uma infraestrutura ferroviária que em 120 anos de existência nunca tinha dado problemas de maior, sofre, em pouco mais de um ano, 4 graves acidentes que resultaram em vítimas mortais. No mesmo período de tempo, a Barragem do Tua “salta do papel” e torna-se uma realidade.

Com essa barragem vieram as promessas de desenvolvimento, de prosperidade, de emprego e de um futuro mais brilhante. O que nunca veio, foi uma alternativa viável, rápida, barata e pública para aquilo que tinha sido roubado ao povo: a Linha do Tua. Não obstante existir um «plano de mobilidade» que, percebe-se agora, vai mover pouca gente.

O troço compreendido entre Carvalhais e Bragança, há muito que não faz parte da Rede Ferroviária Nacional, estando encerrado desde 1992 e já desclassificado. É “lógica” a desclassificação do troço compreendido entre o paredão da Barragem de Foz-Tua e a Brunheda, visto tratar-se da zona a submergir.

O que não se compreende de todo é a desclassificação da Linha do Tua na zona a requalificar (Brunheda – Cachão), nem no troço que actualmente tem serviço ferroviário e é servida pelo Metro de Mirandela (Cachão – Carvalhais).

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Com esta decisão, o Governo pronuncia-se de uma forma clara e evidente em relação à Linha do Tua e ao seu potencial: ignorando-a, esquecendo-a, e dando uma última “machadada” no assunto, onde diz claramente que não está interessado em mantê-la, nem em assegurar o serviço público ferroviário. De uma forma mais geral, o que se volta a observar é um esquecimento político para com o Distrito de Bragança, à semelhança do que já aconteceu em meados de 1990 quando se encerraram cerca de 250 kms no Nordeste Transmontano (Linhas do Corgo, Tua e Sabor).

Outra coisa que não se compreende é a própria caracterização utilizada pela Presidência do Conselho de Ministros quando refere a Linha do Tua: “inútil” e “insustentável” são algumas das palavras utilizadas. Pelo que nos recordamos, o Metro de Mirandela, que opera em apenas 16 kms da Linha do Tua, tem lucro consecutivo há mais de 4 anos de atividade.

Mais uma vez, ignora-se o fator histórico e cultural, ignora-se todo um potencial turístico que tinha tudo para dar certo, e atira-se a responsabilidade para as mãos de privados que única e exclusivamente têm interesses em lucro (no limite servir os clientes, mas não as populações semi-isoladas das aldeias que eram servidas pelo comboio).

Posto isto, o Metro de Mirandela continuará a auferir subsídios para operar o serviço de transporte, até que o Plano de Mobilidade avance?

Os autarcas da região foram ouvidos e concordaram; Que têm a dizer sobre isto? Tiveram contrapartidas? Que transporte haverá no futuro, para as populações?

A Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua também concordou com a decisão. O que terão eles a dizer sobre o assunto?

Com esta desclassificação, o povo perde o direito ao serviço público. Com esta decisão, os habitantes locais deixam de ter direito às acessibilidades que sempre tiveram, ao longo de quase 129 anos, e passam a ter que se contentar com a exploração turística e privada que irá operar no Vale do Tua.  E o povo, nada poderá ter a dizer. O Governo vendeu a “nossa” Linha do Tua.

Fotos: Pesquisa Google (Arquivo)

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