Luís Reina
CIDADE ANTIGA DE LYON
(França- Julho,1 – 2012)
Foi amor à primeira vista.
Com ela troquei votos para toda a vida. Sinto-me feliz só de falar ou pensar nela. Contudo não sei se vou voltar a vê-la. Tudo é uma incógnita.
A cidade acordou debaixo de uma forte tempestade, que se prolongou por todo este primeiro dia do sétimo mês do ano da graça de 2012. Pensei no que fazer. As hipóteses eram somente duas, ou ganhar um dia de cómodo descanso no conforto recomendado do hotel “Park & Suites Part-Dieu”, ou ganhar um dia de cultura eterna desta minha nova amante.
Optei pela segunda. Conhecer melhor este meu novo amor era bem mais importante do que um repouso nas nuvens alvas de penas de pato de um édredon.
Ao fim de segundos de eterno caminhante, sinto-me o Gene Kelly na Serenata à Chuva. Apetece-me cantar; não a canção “Singing in the Rain”, mas uma Cantiga de Amor, ou de Amigo, ou até de Maldizer, pelo desconforto de um clima invernal que sobre mim se abate. Estou desconfortável, embriagado de tanta água que me entra por todos os poros do meu corpo. Mas estou feliz.
Ao longe, através do nevoeiro causado pela batelada de água a cair desamparadamente na calçada antiga da cidade, vislumbro a sua silhueta, no sopé da colina de Fourviére, onde a sua história começou. Chamava-se então Lugdunum.
Chego ao seu umbigo, centro de um corpo adelgaçadamente esbelto que se espraia ao longo das margens do Rio Saône. Encontro-me na Praça de S. João. O meu olhar fica extasiado perante a luminosidade que se abate sobre a Catedral que deu nome à praça. Construída no século XII, sobre as fundações de três igrejas do século IV, cujos vestígios podem ser vistos no Jardim Arqueológico, situado ao lado. Ouço vozes, que amenizam o tristonho dia de estio. Parecem anjos. Entro. Sinto o calor a percorrer-me o corpo. Eis-me no meio do ensaio do Coral dos Pequenos Cantores de Bordéus, o bálsamo necessário. Entro por uma pequena porta do lado direito e subo a pequena escadaria românica.
Entro no mais secreto dos Tesouros Eclesiásticos da cidade. Converso infinitamente com a vigilante de serviço. De tudo um pouco, mas essencialmente deste meu novo amor. Tempo para ver o belíssimo Relógio Astronómico do século XVI, onde se encontram assinaladas todas as festividades religiosas até ao ano 2019. Entranho todas as obras de arte, desta arte com séculos de história.
Saio e sigo caminho para Norte, por ruas e vielas estreitas, onde o sol, mesmo em tempo de estio dificilmente penetra. Entro no mundo da mágica fantasia que é o cinema. Perco-me no meio de miniaturas dispostas em vitrinas, como voltasse a tempos passados da minha infância. Estou no meio de uma viagem intergaláctica no Museu das Miniaturas e Cenários Cinematográficos.
Procuro saber mais sobre esta nova paixão. Dou por mim em frente a um belo imóvel do século XV – o Palácio Gadagne. Uma viagem em tons pastel pela arquitectura renascentista francesa onde vou descobrir os mais íntimos segredos do meu Amor. Séculos de arte e de História revisitada no excelente Museu Histórico de Lyon e do Museu Internacional da Marioneta, onde se encontra o mais célebre filho da cidade – Guignol.
A chuva continua a fustigar. As ruas estão praticamente desertas. Situada num plano rebaixado do nível da rua, deslumbro-me com a imponência artística de uma das mais antigas igrejas da cidade – Igreja de S. Paulo. À porta, uma mulher de etnia cigana romena com toda a sua prole a pedir um euro para matar a fome.
Infelizmente, descubro ser este um dos lados negros desta paixão. Fazer caridade, por submundos que se vagueiam à nossa custa para alimentar mafias e redes humanas. Fico descontente por ver que este outro mundo ocidental, afinal parece ser igual a todos os outros. Contudo quando entro, os pensamentos esfumam-se perante tamanha a beleza.
São os policromados vitrais, que me despertam maior atenção, mas não só, pois as paredes frias do templo estão cobertas de pinturas, como os murais que cobrem diversos edifícios da cidade.
Saio. Os raios de sol fazem leves aparições por entre as nuvens escuras prontas a explodir em qualquer altura. Tempo para deambular pelos característicos Pátios Interiores (traboules), antigas passagens cobertas entre ruas por onde apressadamente andavam comerciantes e cargas. Hoje estes emaranhados labirintos, são um repasto para locais e turistas se cruzarem sem nunca se terem encontrado.
Este é o meu novo Amor – Lyon. A segunda maior cidade de França, capital da região Rhône-Alpes. Cidade jovem. Cidade da moda.
Uma cidade feita mulher.
Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a ortografia tradicional portuguesa



Obrigado Beatriz pelo essentivo. é muito bom saber que as pessoas gostaram.
Obrigado Carlinha, realmente o que um cruzamento de olhares num elevador da PT, nos fez…até um rapto já fizeste. É óptimo poder partilhar estas experiências de vida com todos. O apoio tem sido sempre muito e agradeço em primeiro na Deus o facto de me dar tanto e a seguir a todos aqueles que ao longo destes anos me têm ajudado a crescer, sejam eles reais ou virtuais.
E projectos para o próximo ano deste diário de bordo já estão na cabeça.
Bjinhos muitos e muitas felicidades para ti e tb para os teus projectos.
Soberbo! Luis, parabens pela clareza do teu texto, pois a leitura torna-se visão. Só gostava de mais algumas fotos, talvez mais 2.
Não desistas, pois este País precisa de mais pessoas como tu.
Abraço,
Olá Luis
Bem estou em falata Luis mas não esquecida.
Já por varios momentos me deliciei com as tuas letrinhas…
è fantastica a imagem que nos transmites, fecho os olhos e consigo teletransportarme e qs sentir os cheiros, as cores, a intensidade da Luz…..
Parabéns por mais esta linda Caminhada da Tua Vida que me parece que esta a começar da melhor forma possivel
Um começo apaixonante…
Fico a aguardar a nova paragem e o novo Amor que dela vem…Àté qd escreves transpareces a pessoa fantastica que mora dentro de ti.
Obrigada por esta nova e tão linda caminhada que esta a fazer.
Obrigada por um dia teres cruzado a minha caminhada com a tua pois é um Amigo fantastico e sempre a motivas e a essentivar.
Bjnhs menino Luizinho
Surpresa Gustavo…Um texto diferente. Vamos recuar muitos séculos atrás. De qualquer maneira poderá seguir o meu trabalho artístico através do meu blog http://photoluisreina.blogspot.pt/ e divulgar.
Não se esqueça a partir de 1 de Fevereiro outra viagem através das letras e das fotos…
Gostei de teu trabalho.
Para onde vamos a seguir?
Obrigado Elvira. Agora depende deste jornal a continuidade ou não desta rubrica. bj grande.
Parabens Luís por esta magnifica viagem!Para mim não foi surpresa, pois conheço-te o suficiente para saber que és capaz de continuar a escrever coisas maravilhosas.. A minha opinião,é que esta rubrica deverá ter continuidade.Tudo o que fazes é com muita paixão.Obrigada.
Fazes bem Luís pois é bem bonito.
Abraço
Obrigado Zé. Realmente fazes bem passar uns dias em Lyon. É um a belíssima cidade.
A periodicidade é mensal. Só no mês de Junho e Julho não sairá qualquer texto. Para o ano logo se verá. Depende das pessoas quererem mais ou não. Mas penso que há boas hipóteses de sair sempre um texto todos os meses.
Abraço
Uma das próximas visitas, já tenho passado ao lado mas ainda não parei.
Um abraço Luis Camelo
Parabéns Luís! Não estava nada à espera, foi uma boa surpresa. A tua mensagem estava no meio de muita porcaria com que nos invadem as caixas postais, razão porque só hoje a vi.
Para mim, até agora, Lyon só de passagem. Para a próxima vez talvez faça uma etapa.
Continua… (qual é a periodicidade?)
Obrigado Carlos. Realmente tenho tido um bom feed-back que me vai fazer proseguir com esta nova aventura.
Obrigado, fico contente pelos meus ilustres colegas de escrita começarem a comentar e que tenham gostado. É uma honra ouvir de ti Ana estas palavras. Bj
Obrigado Paulinha…agora já sabes quando passares lá outra vez tens que desviar. Entretanto vou desviar-te por tempos e terras mais longínquos…
Obrigado Miguel, sem duvida uma cidade que amei.
Os meus parabéns, Luis Reina pelo magnifico texto sobre a cidade de Lyon e pelas interessantes fotos que o ilustram.
Ao lê-lo foi como se tivesse calcorreado contigo cada rua, cada esquina, e entrado nos monumentos. O artigo está muito bem descrito num estilo fluente, cujos detalhes prenderam desde logo a minha atenção. Por isso, quando for a Lyon vou seguir todas as informações que me foram transmitidas.
Abraço