Quem se lembrará hoje desta figura que tanto enalteceu o Porto?
Por certo, poucos o identificarão na estátua que esta cidade lhe ergueu, há alguns anos, situada junto do pano da muralha medieval, num espaço ajardinado, bem perto do Largo Actor Dias. Pois, aquela figura esguia, com a mão sob o queixo e olhar pensativo, fixado na velha urbe é, exactamente, Arnaldo Gama, de seu nome completo: Arnaldo de Sousa Dantas da Gama.
Nasceu no Porto em 1828. Aqui estudou formando-se, depois, em Direito, na Universidade de Coimbra e exerceu advocacia na sua cidade natal.
Desde muito cedo que se dedicou ao jornalismo e à literatura. No mundo do jornalismo, numa época em que os jornais tiveram uma importância primordial, foi o fundador do “Jornal do Norte“, onde desenvolveu polémicas. Foi colaborador de outras publicações, nomeadamente o jornal literário portuense “A Península” e os jornais “O Nacional“, “Porto”, “Carta” e “Conservador”.

Muitos especialistas consideram-no como o mais portuense dos autores portuenses, por este ter escolhido, a maior parte das vezes, o Porto e arredores como cenário para os seus romances históricos.
A nível da literatura, escreveu poesia, contos, mas sobressaem, sobretudo, os romances históricos, nomeadamente os seguintes títulos: Génio do Mal (1856-1857), Um Motim há Cem Anos (1861), O Sargento-Mor de Vilar (1863), O Segredo do Abade (1864), A Última Dona de S. Nicolau (1864), O Filho do Baldaia (1866), A Caldeira de Pêro Botelho (1866), O Balio de Leça (1872, póstumo) e El-Rei Dinheiro (1876, póstumo).
Pela sua obra perpassa, em épocas diversificadas, o espírito da cidade e a energia das suas gentes. O autor relata-nos episódios vividos na urbe ou redondezas, desde a Idade Média como, por exemplo, na obra o “Balio de Leça”, ou um episódio da história do Porto, do século XV, com a obra “A última Dona de S. Nicolau”, onde descreveu o drama das mulheres emparedadas. Descreveu também com mestria os movimentos colectivos, como a “revolta dos tanoeiros” contra o poder prepotente do Marquês de Pombal, tratando o tema na obra “Um motim há cem anos”. Da mesma forma romanceada relata a 2.ª invasão francesa, quando o Porto foi tomado pelas tropas comandadas por Soult, na obra “O sargento-mor de Vilar”.
Os seus romances demonstram uma grande precisão e rigor histórico, com reconstituições muito fidedignas, a nível de linguagem e de ambientes.
Arnaldo Gama morreu no Porto, em 29 de Agosto de 1869.
Este portuense genuíno permanecerá perpétuado na sua discreta estátua de bronze, da autoria de Rogério de Azevedo, colocada à sombra da muralha fernandina, aquela a que tanto se referiu nos seus romances, na esperança que, muitos mais leitores da actualidade e do futuro conheçam as suas obras…
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: Pesquisa Google
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTalJjornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01jan17


Ainda mantenho um livro de poesia de Arnaldo Gama, Poesias e Contos, de 1857, que vou divulgando, os seus poemas, e recordando-o nas tertúlias de poesia que frequento.