Maximina Girão Ribeiro
Quem passa diariamente pela Praça do Marquês de Pombal, no Porto, ou quem visita pela primeira vez a Igreja localizada nesta praça, não fica indiferente à beleza e ao inusitado que esta obra arquitectónica ostenta. Apesar do seu aspecto tão invulgar e alvo de grandes polémicas, na época da sua construção, este monumento que este ano comemora o seu 90.º aniversário está, há muito, profundamente entranhado e enraizado, no quotidiano dos portuenses.
É uma obra única em Portugal, fruto de um ecletismo estético, um revivalismo ainda existente no início do século XX que “permitiu” o cruzamento de vários estilos arquitectónicos que vão de um neo-românico, passando por um neo-gótico, ou um neo-árabe…
Em 1938 foi colocada a primeira pedra para a nova igreja, a Igreja Paroquial, que nasceria na Praça do Marquês de Pombal, lugar que anteriormente tivera a designação de Sítio da “Agoa Ardente”, ou Aguardente.
Esta Praça está situada num local alto, o segundo maior em altitude, na cidade do Porto, com cerca de 150 metros acima do nível do mar. Até aos finais do século XVIII, este lugar era ainda quase ermo, considerado como um arrabalde do burgo Medieval e Moderno. Só com o prolongamento da Rua de Santa Catarina, por iniciativa de João de Almada e Melo, em 1784, é que o Sítio da Aguardente começou a suscitar mais interesse para a construção de casas pois, até aí, era um lugar longe do burgo muralhado, se tivermos em conta que os transportes e as vias de comunicação eram muito diferentes do que são hoje.
Foi mesmo, durante muito tempo, considerado um lugar periférico, um “lugar de fronteira” (ainda hoje está no limite de três freguesias – Santo Ildefonso, Paranhos e Bonfim), além de ter sido também uma “barreira alfandegária”, onde eram cobrados impostos municipais, sobre todas as mercadorias que entravam no Porto. Portanto, o limite da cidade passou, durante muito tempo, por este lugar, atravessado pela velha estrada para Guimarães, a antiga “Real Estrada para Guimarães”.
Era uma artéria estreita e tortuosa que conservava restos de antiquíssimos trilhos e do caminho medieval. Saía do Porto muralhado, pela Porta de Carros, passava pelo troço que é hoje a rua do Bonjardim, seguia pela Aguardente, depois para o Lindo Vale que, entretanto, em 1858, foi substituída pela Rua que tomou o nome de Costa Cabral e passava, depois, na Cruz das Regateiras (onde hoje se encontra o Hospital do Conde Ferreira), seguindo para Guimarães e outros lugares do Norte, mais além.
Como este local era uma entrada e saída da cidade, em meados do séc. XIX, há notícia de por aqui existirem alquiladores, ou seja, pessoas que alugavam cavalos, seges e outro tipo de carruagens para se realizarem as viagens, sobretudo, para fora da cidade.
O Largo funcionou também, até meados do século XIX, como uma importante linha de defesa. Por exemplo, durante as invasões francesas (2ª invasão comandada por Soult, em 1809), este local foi palco de duros combates.
A linha defensiva, ou seja, a obra de fortificação foi preparada pela população que trabalhou sob a direcção de oficiais de engenharia britânicos e portugueses. No entanto, neste sector central, os ataques foram tão violentos que a linha foi rompida pelo exército napoleónico, permitindo que a Divisão de Mermet entrasse na cidade e se dirigisse rapidamente para o rio, onde se deu a grande tragédia da ponte das barcas, em 29 de Março de 1809.
Também, durante o Cerco do Porto (1832-33), neste local, estiveram situadas as linhas de defesa dos Liberais que conseguiram suster as investidas dos Absolutistas. As baterias do exército liberal, sob o comando de D. Pedro situavam-se, no alto da Aguardente, um dos mais importantes redutos liberais, por estar situado numa linha de cume, enquanto as tropas de D. Miguel se situavam um pouco mais além, entre o Covelo e a Cruz das Regateiras.
Por volta de 1850 a praça tinha já a configuração actual, erguendo-se, em 1870, a praça de touros da Aguardente que, juntamente com a praça de touros da Rotunda da Boavista (o Real Coliseu Portuense) foram os dois únicos locais de corridas de touros da cidade do Porto, durante as últimas décadas do século XIX.
A população que vivia pelos lados da Aguardente, há muito que reclamava a mudança de nome do local, pois consta-se que não gostariam de ser associados às insinuações que viriam por causa de uma bebida alcoólica, a aguardente. Há quem afirme que por aqui deve ter existido uma destilaria, com alambiques, onde se fabricava ou se vendia esta bebida alcoólica. Certezas não existem mas, o certo, é que os moradores queriam mudar o nome do largo!
Foi em 1882, com o centenário da morte de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal e com as grandes festividades que tiveram lugar na cidade que, por deliberação da Câmara Municipal do Porto, o lugar se passou a designar como “Praça do Marquês de Pombal”. Não nos parece que o nome tenha sido facilmente interiorizado, pois o Porto nunca esqueceu a governação de “mão pesada” do Marquês de Pombal e a forma como mandou castigar, em 1757, a gente do Porto que participou no Motim dos Taberneiros.
Também, com a comemoração do centenário, no dia do encerramento das comemorações (8 de Maio de 1882) e debaixo de um enorme temporal que não largava a cidade há vários dias, foi descerrado um busto de gesso do Marquês, na recentemente denominada Praça do Marquês de Pombal. Talvez a chuva torrencial que caiu, durante os dias em que se comemorou o centenário, tenha desfeito o busto do Marquês, porque… ninguém sabe onde ele se encontra!
Nos finais do séc. XIX, ainda na década de 80, existiu na praça do Marquês um mercado para venda de géneros alimentícios, nomeadamente as hortaliças. A sua existência, nesta zona da cidade, surgia enquadrada pelas novas necessidades de implementação de medidas para melhorar a higiene e as condições sanitárias. Seria um mercado de estrutura em ferro, com paredes azulejadas, para maior limpeza. Mas, a vida deste mercado da Praça do Marquês não foi muito longa, pois acabou por ser desmontado e levado para outro local, em 1897.
Por estes sítios, existiram vários locais de culto católico, nomeadamente a capela de Santo António do Largo da Aguardente que tinha sido erguida no ano de 1785 e que acabou por ser fechada ao culto sendo, mais tarde, convertida em escola.
Depois, um grupo de católicos mobilizou-se e construiu-se a capela da Senhora da Conceição, na Rua da Constituição, em 1898.
Mas, apesar de aberta ao culto, alguns fiéis movimentaram-se, a partir de 1900, para conseguirem a reabertura da velha capela de Santo António, o que veio a concretizar-se em 1928 mas, desta vez, tendo como patrono S. Joaquim. A mesma viria a ser demolida em 1958.
O crescimento populacional e urbanístico desta zona da cidade levou ao nascimento de uma grande aspiração: construir uma igreja maior. Como o então bispo do Porto, D. António Barbosa Leão, decidira criar novas paróquias nesta cidade que crescia e se desenvolvia, iria concretizar-se um velho sonho: uma nova paróquia e uma nova Igreja, dedicadas à Senhora da Conceição.
A nova igreja seria construída segundo um projecto do arquitecto francês, frei Paul Bellot, um monge beneditino. Este projecto não foi aceite de forma totalmente pacífica, dado que foi gerando sucessivas polémicas, quer devido às tendências artísticas que continha que, para a época, fugiam às matrizes consideradas como mais consensuais, assim como aos diferentes embargos camarários que foi sofrendo mas, também, por diversas dificuldades, mesmo a nível económico, sobretudo no período da 2ª guerra mundial.
Em 8 de Dezembro de 1947 a Igreja foi dedicada à Padroeira de Portugal – Nossa Senhora da Conceição e, nessa data, teve lugar a inauguração solene do templo.
Tudo era inovador nesta Igreja. Desde o portão e o adro, à fachada e às suas duas torres (a sineira e a outra mais pequena), ao seu interior com a capela baptismal e as 10 capelas laterais, tudo é enriquecido por elementos decorativos que vão desde a escultura, à pintura, aos vitrais, aos azulejos…
Nesta obra trabalharam, entre outros autores, os pintores Dordio Gomes, Guilherme Camarinha, Augusto Gomes e o escultor Henrique Moreira. Toda a obra de construção teve vários engenheiros e arquitectos, dos quais destacamos Moreira da Silva e Rogério de Azevedo.
Depois de todas as dificuldades e todas as polémicas, que foram gerando inúmeras quezílias, este lugar da Praça do Marquês de Pombal ganhou uma nova e bela igreja, onde se respira paz e espiritualidade e onde se cumpre a missão maior de olhar o Outro, o nosso semelhante.
Fotos: Pesquisa Google
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal Jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01mai17






Efectivamente fez 70 e não 90 anos. Está agora a pouco mais de um mês de completar 75 anos. Quanto à Capela de S. Joaquim foi demolida entre 1946/47 e não nos anos 50.
IRA FAZER 7O ANOS E NAO 9O.SE FOI INAUGURADA EM 1948,