Com a época balnear já aí, o comboio “Vouguinha”, entre Oliveira de Azeméis e Espinho-Vouga, ganha redobrada vida com a procura deste meio de transporte pelas populações para chegarem às praias. Mas é também nesta altura, que – na ausência de obras essenciais para a sua modernização, que possam garantir futuro à Linha do Vale do Vouga-, as preocupações dos utentes e autarcas dos municípios e freguesias servidos por este transporte ferroviário, ganham particular relevo, tal é estado caótico em que se encontra…
José Lopes
(texto e fotos)
Quando, em novembro de 2008, o centenário da inauguração da Linha do Vale do Vouga foi assinalado com um conjunto de eventos comemorativos, que incluíram a recriação histórica da viagem inaugural desta Linha, envolvendo a CP, REFER, Fundação do Museu Nacional Ferroviário e das câmaras municipais de Águeda, Albergaria-a-Velha, Aveiro, Espinho, Santa Maria da Feira, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, renasceu a esperança deste caminho-de-ferro beneficiar de investimentos e projetos para obras de requalificação aos vários níveis.
Obras essas reclamadas pelas populações, autarcas e os vários partidos que se vêm batendo, pelas mais diversificadas estratégias, pela continuidade e modernização da Linha do “Vouguinha”.
Falamos de promessas de investimento que têm atravessado os vários governos, mas que, para além da automatização de algumas passagens de nível nesta Linha, ficaram apenas placas comemorativas e evocativas então descerradas em estações que continuam votadas ao abandono entre Espinho e Oliveira de Azeméis.
Viajar no “Vouguinha” entre Espinho e Oliveira de Azeméis ou vice-versa, é entrar numa espécie de roteiro turístico de aventura, através de uma via-férrea recheada de pontos críticos ao longo dos cerca de 30 quilómetros, com curvas acentuadas que obrigam a uma drástica redução da já pouca velocidade da automotora, que através de uma buzina ensurdecedora dá sinal da sua passagem, tendo particular atenção nas passagens de nível sem guarda e de reduzida visibilidade, num percurso decorado, essencialmente, por paisagens rurais e de pinhal.
Carruagens sujas e maltratadas
Com condições pouco dignificantes e mesmo indigentes no interior das automotoras abastecidas a gasóleo, tal é a visível falta de limpeza dos próprios lugares sentados e respetivos tecidos dos estofos a merecerem uma profunda lavagem para tirar nódoas. Condições mínimas de higiene que devem merecer qualquer utente, seja ele operário, trabalhador do comércio ou estudante, que de manhã cedo ou no regresso do trabalho e da escola, ao longo destes concelhos recorrem a este transporte como a mais adequada alternativa de mobilidade entre estas cidades do distrito de Aveiro.
Condições de prestação de serviços de transporte que devem, aliás, ser escrutinadas pela Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), como direitos de quem viaja nos transportes públicos, segundo leis nacionais e europeias, que estudos recentes indicam estarem longe de cumprirem a lei.
Estações vandalizadas
Mas para quem quer aproveitar a viagem no “Vouguinha” para observar algum património arquitetónico destas estruturas ferroviárias. O que acaba por observar, partindo de Espinho ou Oliveira de Azeméis, são edifícios das estações abandonados e sujeitos a vandalismo ou decorados com uma pseudoarte urbana, a que não escapam os comboios, cujas grafites, que envolvem estas máquinas, as tornam surpreendentemente motivo de atração em movimento pelo cenário verde proporcionado pela paisagem natural ao longo desta Linha férrea.
Uma imagem deprimente e de abandono, que há décadas se assiste durante a viagem, acompanhada por várias outras ruinas de edifícios de antigas estações, como a de Cucujães ou de Santa Maria da Feira. Uma imagem que contrasta com a propaganda da valorização do território e da aposta no transporte coletivo de passageiros.
Depois da ameaça de encerramento da Linha do Vouga agora é tempo da defesa da sua revitalização e modernização
A falta de perspetivas de investimento para a Linha do “Vouguinha” no atual Governo, também já mereceram críticas do PSD e do CDS, mesmo sendo acusados pela esquerda de na sua governação terem deixado esta Linha ao abandono e em risco de encerramento. Ameaça que chegou a pairar. não fosse a contestação das populações, que centraram, entretanto, atenções e expectativas no Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas (PETI) na esperança de verem revitalizada e modernizada a Linha do Vouga para que possa beneficiar de trajetos mais rápidos e frequentes.
Reações partidárias…
Se para o PSD de Aveiro não é aceitável a falta de referência à Linha do Vale do Vouga a quando da apresentação do plano de investimentos pelo Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, para o seu autarca Emídio Sousa, presidente do município de Santa Maria da Feira, a reabilitação da Linha do Vouga integra-se mesmo nos projetos metropolitanos, que considera, “absolutamente necessários” e, por isso, defende que, tal projeto de requalificação deveria ser tentado integrar num plano de investimento da Área Metropolitana do Porto (AMP). Ao mesmo tempo, os deputados sociais-democratas eleitos pelo círculo de Aveiro reclamam do Governo que a requalificação da Linha do Vouga seja incluída nos investimentos ferroviários a executar até 2020.
Perante o sucessivo adiamento de obras nesta via-férrea, ainda que a sua modernização seja assumida pelo atual Governo como prioridade, também os partidos da maioria parlamentar exigem mais atenção para o “Vouguinha”. O Bloco de Esquerda defende, que para a Linha do Vouga ser uma verdadeira alternativa ao transporte rodoviário, é necessário um projeto que passe por, “alterar o troço de via estreita para via larga”, bem como “proceder à correção do percurso eliminando curvas de raio estreito e proceder à eletrificação de toda a via”.
Acrescenta ainda o Bloco que a requalificação e modernização deveria passar por uma melhor ligação à Linha do Norte ou seja, fazer com que o comboio “Vouguinha” se prolongue mais um quilómetro para acabar dentro da Estação Ferroviária de Espinho que foi enterrada.
Para tal e porque este partido considera fundamental a “revitalização da Linha do Vouga”, apresentou na Assembleia da República uma iniciativa legislativa neste sentido, defendendo a sua inclusão num Programa de Investimentos em Redes Ferroviárias de Proximidade (PIRFP), com vista à requalificação da totalidade da Linha do Vouga, incluindo o ramal de Aveiro, no âmbito do programa Portugal 2020/Ferrovia.
Já para o PCP, mesmo com as revelações da autarquia de Aveiro, de que a Infraestruturas de Portugal tem estado a trabalhar com os municípios por onde passam os ramais da Linha do Vouga, também levou ao Parlamento a necessidade de “uma intervenção profunda que reponha a ligação a Viseu”, partindo da Linha do Norte em Aveiro e Espinho, incluindo investimento na “modernização do material circulante” e na, “melhoria das condições de segurança da via e a atualização das paragens”.
Uma proposta que passa por ter-se em atenção, segundo este partido, “o desenvolvimento urbano”, que se tem vindo a registar ao longo do percurso centenário, que no total entre ramais chegou a atingir uma extensão de 175 quilómetros, desde que em 1911 se iniciou a exploração até à estação de Sernada do Vouga e mais tarde, em 1914 chegou a Viseu. Esta iniciativa parlamentar do PCP chama particularmente atenção para a ligação Sernada do Vouga-Oliveira de Azeméis, que após um desabamento de terras, em 2013, a ligação passou a ser assegurada por autocarro.
O envolvimento das populações e as declarações e promessas das várias entidades partidárias, governamentais e autárquicas sobre o reconhecimento da urgência na requalificação e modernização da Linha do Vale do Vouga, têm marcado estes últimos anos de decadência do “Vouguinha”, que não será certamente por falta de propostas e ideias para o seu futuro, que o “comboio” dos necessários investimentos, não chegará, ainda antes de um novo “Plano Estratégico de Transportes” voltar a intentar a liquidação desta linha, como foi acusado o anterior governo. Em memória dos primeiros tempos do transporte ferroviário em Portugal, a história da Linha do Vouga merece melhor destino.
01jun17









Não fora o facto de aparecerem pessoas nas fotos, até parecia uma qualquer localidade em Chernóbil…
Quanto aos “artistas” pintores é preciso ter muita(s) lata(s).
No céu cinzento com bonés de pala
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Pintar o trem que está ali parado