Setenta anos após a morte de José Marques da Silva o seu nome mantém-se vivo, sobretudo nesta cidade do Porto, onde a sua obra arquitectónica o imortalizou. Considerado o arquitecto que mais contribuiu para moldar a nova fisionomia do Porto, no início do século XX, aqui deixou bem vincados os traços da sua arte.
José Marques da Silva nasceu no Porto, na Rua de Costa Cabral, n.º 113, a 18 de Outubro de 1869. Era filho de um marmorista e, através desta profissão paterna familiarizou-se, desde muito novo, com a sensibilidade artística. Marques da Silva referiria mesmo que tinha começado por ser um “artista do cinzel”, tal como o pai e continuou, depois, como “artista do lápis”, enquanto arquitecto.

A sua vida académica começou na escola da Ordem da Trindade e continuou com o curso na Academia Portuense de Belas Artes, onde ingressou com apenas 13 anos de idade e, mais tarde, com a frequência da École Nationale de Beaux-Arts (1889-1896), em Paris. No Porto, teve como professores grandes mestres, nomeadamente Silva Sardinha, Marques de Oliveira, Soares dos Reis,… Depois, em Paris, além de mestres notáveis, conviveu com uma comunidade de alunos de várias nacionalidades que buscavam em Paris a modernidade e a inovação daquela época, privando também com portugueses que seriam, posteriormente, figuras de destaque na sociedade portuguesa, como o escultor Teixeira Lopes e o pintor Veloso Salgado, o arquitecto Ventura Terra ou o poeta António Nobre.


Quando Marques da Silva regressou ao Porto, em 1896, para iniciar a sua prática profissional, vinha imbuído de várias tendências artísticas e variadas inspirações, de diferentes gostos e opções estéticas que, sabiamente soube gerir na construção da “nova” cidade que ia concebendo e em cada obra que foi criando com rigor e sensibilidade.
A sua vida profissional distribuiu-se entre ser arquitecto municipal, professor de Desenho e Modelação no Instituto Industrial e Comercial do Porto, professor e director da Escola de Belas Artes, entre 1913 e 1939. Foi ainda professor e director da Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis (1914-1930).
A sua actividade como arquitecto foi marcante, quer pela quantidade de edifícios que projectou, grande parte dos quais são hoje considerados como “edifícios-monumento”, quer pela qualidade que imprimiu em cada obra que permanece nesta cidade e noutros pontos do País, nomeadamente em Barcelos e Guimarães projectando, nesta última cidade, a sede da Sociedade Martins Sarmento, o Mercado Municipal e o Santuário da Penha.


No Porto, o seu nome está associado ao desenho e à construção da Estação de S. Bento, a sua primeira obra (1896-1916), que foi muito contestada na época, por ocupar o espaço do demolido convento de freiras de S. Bento de Ave Maria e por manifestar uma visível influência dos seus mestres franceses.
Igualmente o Teatro São João tem o seu cunho muito próprio, ostentando os belíssimos elementos decorativos da fachada, que se fazem realçar, em todo o conjunto da Praça da Batalha. Salientam-se, também, outros edifícios, situados na avenida dos Aliados, como o que albergou a seguradora “A Nacional”, assim como noutros pontos da cidade, por exemplo, os ex-liceus Alexandre Herculano (1914-1931) e o Rodrigues de Freitas (1918-1932), bem como o edifício na esquina das ruas de Santa Catarina e rua de Passos Manuel (antigo café Palladium), um outro edifício na rua das Carmelitas e tantos outros que mostram as características construtivas do grande mestre da arquitectura.

Não podemos esquecer a construção do bairro operário “O Comércio do Porto”, na Constituição (Monte Pedral) e a Casa de Serralves para servir de residência ao Conde de Vizela, ou, muito menos ainda, os monumentos como o dedicado aos Heróis da Guerra Peninsular, situado na Rotunda da Boavista, algumas igrejas e jazigos de famílias, nos cemitérios da Lapa e de Agramonte, obras que contém o seu traço, como é também o caso da casa-atelier, situada na Praça do Marquês de Pombal (1909), construída num terreno ao lado da casa do seu sogro e que constitui uma pequena jóia arquitectónica, pontuada de elementos de elevado gosto artístico. Foi nessa casa, a sua residência, que faleceu em 1947, tendo sido sepultado no Cemitério da Lapa, em jazigo da sua autoria.
Este arquitecto, premiado e medalhado em Portugal e no estrangeiro, “abriu as portas” a uma plêiade de ilustres arquitectos da escola do Porto.
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: Pesquisa Google
01jul17
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