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Os “fogos” do fogo

 José Gonçalves

Das tragédias de Pedrogão Grande, e dos incêndios que mataram 64 pessoas e hospitalizaram mais de duas centenas, no passado dia 17 de junho, quase tudo se falou, ainda que o mais importante – os dados concretos, inequívocos – sejam para analisar mais tarde.

Mesmo sabendo que estas coisas não se resolvem num dia, há quem, desesperadamente, tente, pela forma mais leviana, fazer politiquice de caserna, criticando tudo e todos, até o Presidente da República. Caindo ainda em esparrelas que – pensava eu – políticos com uma certa experiência – ainda que de fazer asneiras – não caíssem.

Refiro-me, com Passos Coelho à cabeça, a muitos deputados e autarcas que, com certas e determinadas posições; certos e determinados comentários, esqueceram-se do essencial, correndo o risco de estarem a brincar com as pessoas que estão a sofrer. As tais pessoas, que perderam familiares, amigos, casa(s), terras de cultivo, empresas, empregos, e só não perderam a vida por sorte, ainda que a vida lhes ofereça, de momento, uma cruz muito pesada que, para já, só a solidariedade dos portugueses pode minorar.

Não quero, por entender que não o devo fazer, escalpelizar os comentários de certos “especialistas” em fogos florestais, quando eles – conquistando esse estatuto à pressão – transformaram-se em verdeiros incendiários na comunicação social que promoveu os seus tristes comentários. Não vou por aí. Era dar muito relevo a quem expele gases fedorentos pela boca, ou, frente a um computador, tenta, a todo o custo, justificar os milhares de euros que ganha mensalmente em comentários, escrevendo ordinarices.

Hoje, fala-se de tudo, Critica-se tudo. Aponta-se o dedo a tudo. Assim, é fácil ser-se político ou comentadeiro.

A demagogia tem estado ao desbarato nos últimos dias.

Sei que há gente – e ainda bem – que não gosta daquilo que escrevo; da forma como abordo os assuntos, e das ideias que são minhas. Quem não gosta, não gosta, e a mais não é obrigado.

Mas, ao falar-se desta brutal tragédia é preciso recato, muito cuidado com aquilo que se diz e se escreve.

Revelar, relevando, factos para que a culpa não morra solteira – situação tão habitual no nosso país – é o ato que deve, de momento, ser feito de uma forma ativa, mas não cansativa, desgastante, ao ponto de desinteressar as pessoas por aquilo que é, na realidade, importante para o desvendar de erros que não devem voltar a ser repetidos.

Falar-se da reorganização das florestas, dos eucaliptais e dos interesses das empresas de celulose; das medidas de prevenção a incêndios; de um maior apoio (em meios) às corporações de bombeiros e, em concreto, aos soldados da paz; do incentivo à pastorícia que ajuda à limpeza das matas e florestas; do incremento da plantação de carvalhos e sobreiros… abordar tudo isto é extremamente importante, mas nunca de uma forma demagoga, ou seja, de fazer política por política, esquecendo-se, no fundo, tudo o que de importante esses temas encerram em si. Em concreto, isto é mais do mesmo, e só não o é completamente, porque o número de vítimas nestes incêndios foi extraordinário.

fogos - hoje escrevo eu

É importante não esquecer, que Portugal – país de média dimensão entre os 27 da União Europeia – tem regiões muito específicas, em todo diferente umas das outras, pelo que um plano de reordenamento florestal, não pode ser feito de um dia para o outro… demorará décadas. Há quem defenda – e no meu entender, bem – que haja uma ação integrada nas aldeias e vilas de interior, para que as pessoas, juntamente com as autarquias e as empresas de região defendam os seus interesses… os interesses do bem comum. Outro problema, se coloca aqui: a desertificação humana. Há aldeias e aldeias com menos de 50 habitantes. Há terrenos que ninguém sabe a quem pertencem.

Quero com isto dizer – e depois de me ter socorrido de um debate na especialidade ocorrido em sede da Assembleia da República – que há muito, mas muito, trabalho pela frente, e que a retórica imediata tem de morrer… no imediato.

Toda a discussão está a ser feita de forma atabalhoada, emotiva, sem grande pausa para raciocínio, e isso mete-me medo, porque corremos o risco de nada se decidir, ou o que se decidir não seja o mais correto. Penso que temos de dar tempo ao tempo, o que não impede – não pode impedir – de atuar com urgência nas questões que estão a afetar a vida de largas centenas de pessoas vítimas diretas ou indiretas das tragédias de Pedrógão Grande e região envolvente.

Agora, quer-se, a toda força, a cabeça da ministra, porque alguém teria de se demitir como outros já se demitiram em casos parecidos. Mentira, não se demitiram puseram-se ao fresco, o que é pior. E, depois, não houve casos parecidos.

Com as tragédias não se deve fazer jogataina política. Com as tragédias deve unir-se esforços para a resolução dos problemas imediatos, mas também de prevenção. Não quero com isto dizer, que a oposição deva estar calada – nada disso! –, deve é fazer o seu verdadeiro papel; o papel de oposição construtiva, dando soluções, assumindo erros que cometeu no passado quando tinha responsabilidades governativas, e criticando, com inteligência, aquilo que deve ser, em seu entender criticável.

Uma coisa, para já, parece ser certa, analisando o vasto rol de propostas e soluções imediatas que alimentam muitas manchetes na comunicação social: o combate aos fogos não é solução! Não há meios que consigam responder eficazmente à carga de combustível que existe, e tende a crescer, na nossa floresta. Ou seja, a política de anos – dos anteriores governos – que privilegiou o combate aos fogos – e não a sua prevenção -, deu o resultado que deu em Pedrógão, mas também em outras regiões do país que foram e estão a ser fustigadas pelos fogos, ainda que sem a dimensão trágica dos ocorridos na região centro, de 17 a 21 de junho.

O estudo em torno das tragédias de Pedrógão Grande tem de durar mais algum tempo, não impedindo isso, o rápido e urgente apoio às vítimas da tragédia. Nada disso!

Mas, esta discussão vai, dentro em breve, esfriar. É, vai “esfriar”. Vai esfriar porque vêm aí as férias e a campanha eleitoral para as autárquicas. Vai “esfriar” mas não devia acontecer, uma vez que há estudos que não devem ser interrompidos.

Mas vai esfriar, e lá para o Inverno, a ver vamos quem falará da época de incêndios e… das tragédias de Pedrogão Grande?

A ver vamos como se encontram as pessoas que perderam tudo o que tinham, menos a vida e a dolorosa vida que vivem.

A ver vamos se se lembram dos bombeiros e das bombeiras que, entre outras nobres tarefas, combatem chamas, que dão apoio psicológico, que dão os braços à solidariedade e que merecem uma estátua do tamanho da Torre dos Clérigos neste país ardido de políticos sem formação, sem postura, sem seriedade.

Felizmente, esses políticos formam uma minoria. Mas que existem,,, existem! Ainda que, juntos, façam parte de uma raça em vias de extinção, para bem da democracia e da meritocracia.

Portugal precisa, de uma vez por todas na sua história recente, de políticas sérias. Deve haver um trabalho concertado a pensar no futuro, nos nossos filhos, nas gerações vindouras, para que não passem pelos flagelos aos quais, infeliz e tristemente, nos habituamos. Penso que ninguém quer ser acusado no futuro de erros cometidos por medidas imediatas, sem nexo, e sem capacidade de resposta para as exigências do futuro.

Deixem as Universidades e outros verdadeiros especialistas trabalharem naquilo que sabem, isto para que os políticos – que nada percebem da poda – aproveitem essas conclusões para fazerem algo de construtivo pelo futuro do País.

E, atenção, nem tudo é mau o que se faz por cá, pois há terras onde o ordenamento florestal é exemplar. Visitem essas terras e tirem as devidas ilações. Enalteçam o trabalho que lá fizeram e fazem. Tirem, nessas terras, muitas das dúvidas que têm e que os levam a dizer asneiras.

A verdade, é que estou farto de ouvir baboseiras acerca de uma tragédia que parece ter sido, para alguns, nada mais que uma série televisiva dentro de um cenário, e só um cenário, montado numa floresta ocorrido aqui bem perto, mas bem lá longe. Um filme!

Não foi um filme! E se o foi… tirem-me dele.

É preciso pôr os pezinhos bem assentes na terra e a cabecinha a funcionar para que, concertadamente, se apaguem os (outros) “fogos” que minam o futuro de Portugal e a democracia que queremos que as gerações vindouras vivam, fortalecendo-a para o equilíbrio de um País que não pode estar sempre a cantar o mesmo fado.

01jul17

 

 

 

 

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