José Gonçalves
A recondução de Rui Moreira na presidência da Câmara Municipal do Porto foi, para alguns, uma surpresa, isto não pela esperada vitória, mas pela maioria absoluta por ele conquistada no primeiro de outubro de 2017. Mas, diga-se em abono de verdade, essa surpresa confinou-se a quem acreditou na sondagem da “Católica” para o “JN”, e que dava, a uma semana das eleições, um empate técnico entre o movimento de “independentes” e os socialistas de Manuel Pizarro.
Essa sondagem fez história (pela negativa, e negativa para as credenciais da instituição), porque obrigou a um movimento “surrealista” das máquinas partidárias à busca de algo que, dificilmente, iria a acontecer: um equilíbrio de forças na autarquia. Não se sabe se o estudo correu mal; se quem o fez esteve em dia “não”; se outras coisas mais, algumas das quais levantadas dias depois pelo próprio Rui Moreira… ou se, num espaço de uma semana, milhares de pessoas desistiram de se abster e decidiram, no dia, colocar a cruz á frente do “R”. Seja como for, a referida sondagem correu mal, porque todas as outras davam maioria absoluta a Rui Moreira.

Credibilizar esses estudos de opinião não é fácil numa cidade como a do Porto, onde tudo se sabe e onde tudo se conta e conta. É claro que se contou de tudo um pouco acerca da sondagem publicada pelo “JN”, não se livrando a mesma de ser considerada um “joguete político” a favor dos socialistas. Quem vos escreve não acredita nessa hipótese, mas pensa que, depois dos resultados de domingo à noite, a referida instituição deveria dar a mão à palmatória explicando o que sucedeu para tamanho desastre.
“Foi-se” o PPD
E por falarmos em desastre, já se sabe que tínhamos – é incontornável – que começar a história pelo PSD, que, para muitos social-democratas, “brincou às eleições” ao escolher o desconhecido Álvaro Almeida para ocupar o lugar de presidente da Câmara Municipal do Porto.
Não se colocando – de todo! – em questão as credenciais académicas do senhor, para esses social-democratas em política não se “aposta” em ilustres desconhecidos quando se quer ganhar eleições, e muito menos, numa altura em que toda a gente sabia que Rui Moreira partia confortável para esta corrida eleitoral.
Entregar o “ouro ao bandido”, e de “mão beijada”, era algo de impensável, mas que – sem querer?! – Pedro Passos Coelho… pensou (!), ao escolher quem escolheu para concorrer ao cadeirão presidencial camarário.
Conclusão: o pior resultado de sempre do PSD no concelho do Porto (11.9522 votos -10,39% – 1 vereador), ou seja, de um PSD que nada tem a ver com o PPD de Sá Carneiro e de outros ilustres tripeiros que lhe deram vida. Aliás, para quem ainda deles se recorda com saudade, a decisão de Passos em escolher Almeida foi um verdadeiro “tiro no coração” do partido, levando muitos deles a votar em… Moreira ou a afastarem-se, decididamente, das lides alaranjadas enquanto Coelho estiver por lá.
Festa social-democrata, houve, sim, mas somente em Paranhos, com a vitória de Alberto Machado, por certo – e por ser conhecido e ter provas dadas –, um nome que estaria mais bem colocado que Álvaro Almeida na liderança da lista do PSD à Câmara Municipal do Porto.
Absolutamente… Moreira
Rui de Carvalho de Araújo Moreira sabia que ia ganhar as eleições, e, mesmo na noite vitoriosa, ao fazer um discurso inflamado contra certos setores do PSD e do PS, estava consciente que conquistaria a maioria absoluta, distanciando-se, assim, desses potenciais parceiros de executivo, porque deles, ao fim e ao cado, de nada precisaria. “Casamentos? Vai no Batalha!” – terá dito.
Rui Moreira conta agora com seis pessoas a seu lado no executivo camarário (Filipe Araújo, Catarina Araújo, Ricardo valente, Pedro Bragança, Cristina Pimentel e Fernando Paulo) e com um reforço de deputados na Assembleia Municipal (16, agora; 15 em 2013), liderada pelo seu amigo Miguel Pereira Leite.
No que diz respeito a assembleias de freguesia, os “R” conquistaram – tal como há quatro anos – cinco das sete juntas, obtendo, porém, só uma maioria absoluta – UF Aldoar. Foz do Douro e Nevogilde -, pelo que terá de haver, nas restantes quatro autarquias, negociações para a formação de executivo.
Como em 2013 – mas, agora, com um maior número de votos -, os “independentes” viram escapar-lhes as juntas de Campanhã, para Ernesto Santos (PS), e de Paranhos, para o social-democrata, Alberto Machado. Nada que preocupe Moreira dadas as (aparentes) boas relações com os dois autarcas, principalmente com Ernesto Santos, presidente de uma freguesia onde muitas das obras anunciadas pelo reeleito presidente da Câmara deverão ser realizadas (interface de Campanhã; reconversão do antigo Matadouro, etc).
Só que, e no que a esta relação diz respeito, a questão das alterações dos itinerários de algumas linhas da STCP, criou, entre ambos, algum clima de crispação política, já que Moreira criticou – depois de ter elogiado – as alterações feitas pela empresa, contrariando Ernesto Santos que saudou uma modificação há muito pretendida pelas gentes de Campanhã.
Impertinências

Mas, voltando ao discurso de vitória de Moreira, há nele a salientar alguns salpicos de arrogância, de alguma prepotência e impertinência. Ele, na altura, já sabia, mas não o podia dizer, que iria vencer as eleições com maioria absoluta e, por isso, “soltou os cães” de uma forma pouco correta… deselegante. Poderia ter ele todas as razões políticas para atacar o seu “amigo” Pizarro e as outras personalidades do PSD, que, como disse, “fizeram das eleições autárquicas as “primárias” secretas” do partido ainda (mas só ainda) liderado por Passos Coelho, mas daquela forma, com aquele tom autoritário, absolutista… não! Esteve mal!
Os portuenses esperam naturalmente – e porque, por tradição, não aceitam esse tipo de comportamentos – que o “absolutismo não suba à cabeça de Moreira, pois se isso acontecer, as coisas podem correr-lhe muito mal, ainda que, daqui a quatro anos, “R” não se possa recandidatar e, hoje, poucos tentem, sequer, adivinhar qual será o seu futuro.
“Incinerado” que está, politicamente, o “caso Selminho” e com a projeção turística que a cidade do Porto está a ter no estrangeiro, Rui Moreira é hoje um homem com os holofotes para si virados, e livre de “atirar-se” a outros patamares numa alegada defesa dos interesses da cidade no exterior. Por certo, e no dia de hoje, ninguém acredita numa hipótese de “fuga”, mas, a verdade, é que há quem – e com reconhecidas responsabilidades na vida económica da cidade – levante esta questão. Se isso viesse a acontecer, Moreira teria o seu destino político no Porto queimado, tal como ficou queimado o do socialista Fernando Gomes, quando trocou o Porto por um lugar no governo. Aliás, a partir daí, o Porto jamais voltaria a ser socialista, nem Gomes voltaria à atividade política na cidade.
Do papel para a realidade
A verdade, contudo, é que – e voltando a por os “pés na terra” -, Rui Moreira tem todas as possibilidades para fazer história na cidade, caso os projetos do Bolhão, do antigo Matadouro, do Interface de Campanhã, do Batalha e do Sá da Bandeira deixem os papéis e passem à realidade, e realidade também se torne mais eficaz a limpeza da cidade, já que o Porto está cada vez mais sujo.
Sendo ainda uma possibilidade o facto de a capital do noroeste peninsular poder vir a ser sede da Agência Europeia do Medicamento (AEM/EMA), e de outros atrativos económicos terem o Porto como, potencial sede, há algo que, por si só, agarram o líder (absoluto) da Invicta à sua cidade, faltando só saber se com o sucesso pretendido.
Pizarro no “deserto”?!

Do outro lado da barricada, depois de nas últimas semanas de campanha eleitoral se ter entusiasmado com a sondagem que o empatava, tecnicamente, com Moreira, Manuel Pizarro fica, politicamente, isolado e à mercê dos seus “inimigos” de partido, ou seja, aqueles que nunca viram com bons olhos a escolha do seu nome para cabeça-de-lista do PS, depois de em maio, Moreira ter rompido com o acordo com os socialistas.
O ter obra feita – tem-na! – não foi suficiente para convencer o eleitorado. Pizarro somou mais votos, recolheu mais apoios, até de áreas ideológicas que nada tem a ver com o PS, mas não conseguiu levar o seu barco a bom porto – mesmo até com o apoio direto e explicito de António Costa – porque, no entender de quem vos escreve, perdeu demasiado tempo a falar no adversário e do “divórcio” de que ainda se diz vítima.
Com Fernanda Rodrigues, Odete Patrício e José Luís Catarino a seu lado na mesa executiva da câmara, mas em vereações sem pelouro, Manuel Pizarro poderá passar quatro anos a “pregar no deserto”, que nada é de acordo com a sua maneira de fazer política, de estar na sociedade e na vida.
Socialistas “jogam” nas juntas
Seja como for, o reforço do eleitorado socialista, tanto para a Câmara, como para a Assembleia Municipal (mais um deputado) soube, mesmo assim, a pouco para os socialistas; socialistas que, em termos de juntas, reconquistaram a freguesia de Campanhã, elegendo Ernesto Santos (sem maioria absoluta), e pouco mais do que isso em termos de vitórias.
Mas com, o referido reforço do eleitorado também a fazer-se sentir nas freguesias, muitos poderão ser os acordos de governação, ora com o PSD em Paranhos, ora com os independentes nas restantes juntas, excetuando Aldoar/Foz do Douro/Nevogilde, onde estes conquistaram a maioria absoluta.
Estarão, porém, os socialistas interessados em fazer acordos com os “R”, depois das palavras proferidas por Rui Moreira no seu discurso de vitória? Cada caso será um caso. As pessoas são diferentes de freguesia para freguesia, muito se vai decidir neste mês de reuniões, almoços ou jantares de trabalho… negociações.
A CDU e a perda de milhares de votos

Ainda que leve, por pouco notada que foi, a CDU com Ilda Figueiredo a cabeça-de-lista, foi também uma das derrotadas destas eleições. Para a Câmara Municipal, ainda que elegesse a candidata que já foi eurodeputada, a coligação de comunistas e ecologistas perdeu quase dois mil votos, baixando dos 07,38 por cento verificados em 2013, para os 05,89, em 2017.
Pior aconteceu na eleição para a Assembleia Municipal, na qual a CDU viu-se subtraída em um deputado (ficou com três), perdendo quase três mil votos. O que se terá passado? O regresso de Ilda Figueiredo às lides na Câmara do Porto não convenceu o eleitorado mais jovem? Para onde terá ido os votos dos comunistas?
A campanha da CDU, ou seja, o tradicional contacto-direto com as populações – principalmente as mais carenciadas – deu-se também em bairros, onde a intervenção de Pizarro, como vereador da Habitação se fez sentir, Se é verdade que este tipo de ação é realizada periodicamente e não só em alturas de campanhas eleitorais, também não é mentira que as mesmas não tiveram os resultados esperados pelos comunistas.
Bloco reforça presença
Quanto ao Bloco de Esquerda, depressa e bem assumiu à derrota quanto á eleição de João Teixeira Lopes para a vereação da Câmara. Esteve quase, mas, no final das contas, os números não chegaram para, pela primeira vez, um cabeça-de-lista do BE conquistar tal desiderato.
Seja como for, e assumindo, humildemente, que em termos de “Autárquicas” o Bloco “ainda tem muito a aprender” – disse-o a coordenadora Catarina Martins – os bloquistas viram-se representados em todas as freguesias do concelho, com especial destaque para a Junta do Centro Histórico, onde conseguiu dois mandatos, ultrapassando mesmo a CDU.
Resultado positivo foi também o obtido para a Assembleia Municipal, onde reforçou a sua presença (dois deputados em 2013, e mais um agora), passando, em quatro anos, de 5.760 votos para 8.281.
Mas os números bloco-agradáveis não se ficaram por aqui, já que para a Câmara, a “malta da estrela pensadora” conseguiu quase mais dois mil votos do que em 2013. Faltou… faltou o resto, eleger João Teixeira Lopes como vereador sem pasta.
Abs.. tensão
E, pronto, em linhas gerais foram, em meu entender, estes os mais importantes factos que fizeram das eleições autárquicas no Porto mais um ato de cidadania e coragem do eleitorado, se bem que a abstenção (a rondar os 46 vírgula tal por cento fosse… elevada.
Por certo que nem todos os tripeiros terão acompanhado o FC Porto até Alvalade, para mais uma jornada da I Liga, até porque muitos (mas muitos mesmo!) até nem são portista.
Ah! Estava calor e a praia está ali mesmo à beira, mesmo que, ao domingo, os transportes públicos diretos entre a zona oriental e ocidental (praia) da cidade sejam praticamente inexistentes.
Terá sido isso e mais alguma coisa – essa “mais alguma coisa” é muito complexa para estar aqui a explicar – que levou os portuenses a fugirem das urnas. E não foi o medo da morte… de certeza absoluta. Estas urnas, para alguns, metem medo… por outras razões.
Sejam felizes…
Fotos: Pedro N. Silva (Arquivo EeTj) e pesquisa Google
03out17






