Há 160 anos nascia, no Porto, José Pereira de Sampaio, escritor, ensaísta, jornalista e político que, mais tarde, acrescentaria ao seu nome o pseudónimo Bruno, em homenagem ao italiano, teólogo e filósofo renascentista, Giordano Bruno.
Sampaio Bruno, tal como ficou conhecido, nasceu e morreu no mês de Novembro, respectivamente nos dias 30 de Novembro de 1857 e 11 de Novembro de 1915.
Assinala-se, este ano, o aniversário de nascimento deste grande pensador que, por muitos, é considerado como uma das figuras eminentes da Filosofia Portuguesa, embora a sua obra não se confine apenas à filosofia, também é relevante na literatura e na história do pensamento.
Bruno era filho de um pai seguidor do ideário liberal e ligado à maçonaria, o qual, depois de várias ocupações profissionais se tornou proprietário de uma padaria, na rua do Bonjardim. Este local que serviu, muitas vezes, para reuniões e tertúlias com intelectuais da época, foi para Sampaio Bruno como uma escola onde colheu ensinamentos, onde formou a sua convicção republicana e onde começou a despertar para as novas sensibilidades características do seu tempo.
Embora Sampaio Bruno tenha frequentado, mas não concluído, a Antiga Escola Politécnica do Porto, não possuindo, portanto, qualquer curso, no entanto o ambiente culto em que nasceu, dominado pelas ideias liberais e o meio social por onde se movimentava, fizeram com que ele fosse um leitor compulsivo, um homem ávido de conhecimentos, um incansável pesquisador de dados e um erudito multifacetado.
Alguns dos aspectos que se destacam nesta personalidade são a sua actividade política, como membro do Directório do Partido Republicano Português (PRP), a par da fundação de vários semanários portuenses. Para além destas referências, salienta-se também o papel importante da parceria que fez com Antero de Quental e Basílio Teles na elaboração dos estatutos da Liga Patriótica do Norte, associação de cidadãos que surgiu após o Ultimatum Inglês (1890) e da qual fizeram parte grandes nomes da cultura portuguesa, como Bento Carqueja, Joaquim de Vasconcelos, Rodrigues de Freitas, Ricardo Jorge,…
Sampaio Bruno foi um dos mentores da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, acção prenunciadora da implantação do regime republicano. Dado o fracasso desta sublevação, Sampaio Bruno exilou-se, primeiro em Madrid e depois em Paris. Aí escreveu e publicou o “Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891”. A sua permanência em Paris foi benéfica para que ele se apercebesse e aprofundasse sobre as novas correntes culturais da época, mas foi muito negativa devido ao afastamento de Portugal e à depressão que se apoderou dele.
A sua vasta cultura, embora fosse um intelectual de formação autodidacta, fez com que o seu mérito tivesse amplo reconhecimento sendo, em 1908, nomeado 2.º Oficial Conservador da Real Biblioteca Municipal do Porto. Posteriormente, em 1909 foi nomeado, por morte do arqueólogo e etnólogo Rocha Peixoto, como Director da mesma Biblioteca. Aí trabalhou incansavelmente durante seis anos, organizando a instituição e descobrindo velhos manuscritos, muitos dos quais editou para conhecimento de um público mais alargado.
A religião e filosofia foram os temas que mais aprofundou. Escreveu para grandes Revistas de referência cultual, como “A Águia” de Teixeira de Pascoaes e de Leonardo Coimbra, prefaciou várias publicações organizadas pela Biblioteca Municipal, publicou numerosas obras das quais se destacam “A Ideia de Deus” (1902), de inspiração mística e “O Encoberto” (1904) com características esotéricas, que constituiu uma das inspirações do poeta Fernando Pessoa.
O pensador portuense, que nunca casou nem teve filhos, faleceu a 11 de Novembro de 1915, no Hospital da Ordem do Terço, na sequência de uma operação cirúrgica, realizada tardiamente, a um hidrocele, que já lhe tinha tirado a possibilidade de caminhar. Foi sepultado no cemitério do Prado do Repouso.
Raul Brandão nas suas “Memórias” refere-o assim:
“Bruno, esse, nunca fez cálculos sobre a vida. Cheio de simplicidade e de modéstia, viveu e morreu como um pobre homem – a arrastar-se nos últimos anos, da padaria da Rua do Bonjardim para a Biblioteca, da Biblioteca para a Rua do Bonjardim. Punha um pé, parava; outro pé adiante, com uns testículos que lhe chegavam aos joelhos, e suspendia a marcha, arrastando-se com os vagares do caracol. Cada vez mais apegado à inocência dos livros, a sua grande alegria era conversar. Só se detinha um momento a olhar a gente por cima das lunetas e tinha pena de não poder como antigamente correr pelas ruas do Porto até de madrugada com os amigos. – Nem ao café vou. Chamam-me talassa!”
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: pesquisa Google
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal Jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01nov17


