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O longo ressurgimento do nazi-fascismo

António Pedro Dores

Nos tempos da revolução de Abril, os maoistas tratavam depreciativamente os comunistas por social-fascistas. Retomaram a mesma expressão com que os comunistas alemães trataram os social-democratas, nas vésperas da segunda guerra mundial. Trata-se de uma guerra de palavras para convencer que debaixo da pele de cordeiro da democracia está um lobo mau, o capitalismo ou o comunismo, em acção. Pouco mais tarde, na sua crítica ao que viria a chamar-se neoliberalismo, Boaventura Sousa Santos falava de fascismo social. O lobo mau não eram os partidos ou os políticos mas sobretudo, ou também, as relações de competição social insensíveis às limitações de existência dos excluídos.

A vitória eleitoral do Trump, o Brexit, a integração do estado de excepção em França na lei comum, o antiliberalismo na Polónia e na Hungria, o autoritarismo de fundo confessional na Turquia, o crescimento económico da Índia sob a tutela de um presidente hindu acusado de ter colaborado em acções de genocídio, as políticas de esquadrões da morte estatais nas Filipinas, etc., revelam um estado da Europa e do mundo que os que gritaram “Fascismo nunca mais!” não imaginaram ser possível em suas vidas. Mas porque estiveram (e estão) desatentos àquilo que se passa à nossa volta.

A surpresa que agora de manifesta pelos eventos não previstos vem um pouco atrasada. Logo nos primeiros anos do século, Mário Soares e Freitas do Amaral reagiram com veemência às políticas de guerra de Bush, Blair, Aznar e do anfitrião por conta própria, José Manuel Durão Barroso, que subiu na vida a olhos vistos por via desse escandaloso acto. Ambos, Soares e Amaral, denunciaram os riscos da retoma de políticas nazi-fascistas por parte do ocidente, para grande escândalo dos comentadores de serviço. Compararam-nos aos marretas de uma série televisiva, velhos ressabiados, quando eram, pelo menos dessa vez, sábios observadores da política.

Imaginar, todavia, que são apenas os meios de comunicação social ou os políticos e jornalistas dominantes quem conduz uma estratégia de alheamento propício à reemergência de movimentos nazi-fascistas, não explica porque demorou tanto tempo a verificar-se, na prática, essa emergência. Os movimentos de extrema-direita são reacções tardias à crise financeira de 2008.

Os movimentos sociais começam em 2011, uma vez instaladas as políticas de austeridade punitiva contra os países menos poderosos. Políticas que serviram de cobertura à transferência de mal-parado dos bancos falidos para a responsabilidade dos estados, isto é, para os contribuintes: a nacionalização dos custos da corrupção e da má gestão.

Há um problema com a percepção do que sejam movimentos sociais. A expressão designa movimentos de esquerda. Os movimentos de direita são tratados como sendo de outra qualidade. O que é verdade apenas superficialmente.

Em 2016, Trump, simpatizante da extrema-direita, desvalorizou os mortos causados por manifestantes nazis, nos EUA. Veio explicar que nem todos os manifestantes eram nazis. O que foi entendido pelos dirigentes da manifestação como um serviço prestado à sua causa comum. O nazi-fascismo prefere afirmar-se de forma envergonhada. Faz e nega o que faz, como aconteceu com o Holocausto. Surgiu porque os gritos espontâneos dos Occupy foram brutalmente reprimidos pela acção concertada das policiais norte-americanas. Quando as vozes não chegam aos céus, a reacção das ruas pode ser violenta.

Para os leitores que estão a pensar haver alguma gralha, não há. A esquerda e a direita sucedem-se no tempo, como estilos de poder e como maneiras de fazer oposição. E há gostos para tudo. Se a direita está no poder, nos casos vertentes, foi porque as pessoas votaram para obter esse efeito.

A primeira coisa a fazer para poder pensar é criar condições para entender os nazi-fascistas como pessoas, como todas as outras. Os movimentos nazi-fascistas são movimentos sociais, como quaisquer outros. Embora com características específicas: têm vergonha de si próprios. Só se sentem bem em contextos de tensão violenta. Como os hooligans no futebol; ou os seguranças e membros das forças militares ou policiais que se radicalizam. São sempre um problema.

nazifascistas

Quando os 1%, os suficientemente competentes e ricos (países e pessoas) se alheiam dos interesses dos restantes membros das respectivas sociedades, as pessoas, os seus seguidores dividem-se. O estado de guerra, anunciado por Bush, foi decidido para unir aquilo que era a evidente (e adiada) divisão dos EUA. Segundo as palavras do então Presidente, tratou-se de fazer a guerra longe, no Iraque, no Afeganistão, e noutros lugares, de que é realista destacar a Palestina, para evitar a guerra nos territórios ocidentais.

O motivo alegado é o terrorismo islâmico. A realidade é mais complexa e intrincada. A maioria dos terroristas islâmicos no ocidente são pessoas ocidentais. Os serviços secretos procuram informações sobre a vida das pessoas suspeitas, mas são tantas que isso não evita a existência dos actos terroristas, embora os reprima. Por outro lado, falar da Arábia Saudita, de Israel e dos seus estados confessionais aliados, ao mesmo tempo, dos EUA, dos terroristas e da guerra, não tem efeitos práticos. A extrema-direita tem, a respeito da vergonha em apresentar a condição de vida dos excluídos e da exploração política da guerra, apoio ocidental. A gritaria e as acusações toldam qualquer possibilidade de entendimento do que se passa no Médio Oriente e com o terrorismo islâmico, lá e cá. A emergência do nazi-fascismo é um sintoma mais da degradação da situação social e política ocidental. Face à qual é preciso fazer frente, ousando tomar consciência dela.

Face aos riscos para a vida habitual das pessoas, quando passaram a sentir os efeitos das políticas de austeridade, estas reagiram de modo a transformar a sociedade, transformando-se a elas também no processo. Tal processo foi conduzido, por exemplo, através de práticas de meditação e de autocontrolo, através de grupos de discussão e exercício, ou por grupos de doutrinação e acção. Foram mobilizados também meios mais formais de ingresso em comunidades de crentes, religiosas ou políticas.

As pessoas que se transformam primeiro tornam-se dirigentes das que vêm de seguida. Criam-se movimentos sociais e de transformação pessoal e social. Quando as religiões e os meios de intervenção política instalados deixam de servir as finalidades para que foram criados e se elitizam, se fecham em si mesmos, a irracionalidade da acção mal informada emerge. O que só pode ser combatido pelo alargamento, viabilização e prestígio de novas formas de exercício da espiritualidade e de políticas democráticas adequadas aos tempos.

Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa Google

01dez17

 

 

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